O verão em Lisboa é um ponto contencioso entre os seus habitantes e que dá azo a acirradas discussões sobre as virtudes e defeitos da capital durante a estação. Na verdade, é uma falsa questão – Lisboa é um Inferno nesta altura do ano e quem se tenta convencer do contrário, precisa de se relembrar do bafo despojado de esperança que esta selva de asfalto expele. No seio deste dilema, a vinda dos Allah-Las ao Musicbox veio apresentar-se como um fármaco que tanto remedeia quanto envenena – as vibes relaxadas do quarteto de Los Angeles perfumaram a sala do Cais do Sodré de maresia, mas também deram vontade de abandonar esta cidade em direção ao mar californiano. Medindo os prós e os contras, tomámos esse comprimido e não nos arrependemos.

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Deixemo-nos, desde já, de rodeios. Bem sabemos que eles detestam rotulagens ao seu som, mas os riffs melosos, os coros ensonados, o trabalho rítmico simples e pulsante, o leadwork retalhado, todos estes são indicadores de uma paixão pelo Garage Rock dos 60’s, tocado em cima de pranchas de Surf banhadas pelas águas do psicadelismo à antiga. Talvez por isso fosse até mais adequado cantarem (dos quatro membros, três partilham o microfone em várias músicas) numa idílica praia ao pôr-do-sol, mas o Musicbox também serviu bem para acomodar os Allah-Las. A concorrer com o badalado concerto de Bonnie Prince Billy no Teatro da Trindade, a vinda do quarteto, a segunda desde que se estrearam em Portugal no Paredes de Coura de 2015, nem por isso deixou de resultar numa sala cheia, sedenta por interromper o marasmo citadino durante pouco mais de uma hora.

Com Calico Review, de 2016, debaixo do braço, o conjunto subiu ao palco envergando cores neutras, do branco ao bege, e um espetáculo espartano – sem luzes muito trabalhadas ou projeções, o único adereço de menção foi mesmo o chapéu à portuguesa que o vocalista e guitarrista Miles Michaud usou intermitentemente e com um sorriso matreiro nos lábios. Dado este cenário, o propósito dos Allah-Las parece lógico: desviar as atenções de si mesmos para a sua música e é nesta onde a cor, em pastéis e baixos contrastes, parece residir. À jam introdutória de Ferus Gallery seguiram-se muitos temas dos três álbuns da banda num fluxo contínuo, mas cujos momentos de maior celebração se propiciaram, naturalmente, quando os Allah-Las se voltaram para malhas do primeiro LP como Tell Me (What’s On Your Mind) ou Sandy, mas que teve outros momentos fortes, como o balanço contemplativo de Terra Ignota ou o lamento repetido de Had It All.

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A sua prestação em palco relembrou-nos que estamos longe dos tempos em que, como admitiram numa entrevista ao The Guardian, mal sabiam pegar nos seus instrumentos. O quarteto demonstra um à vontade em palco que se pode descrever enquanto pacato virtuosismo – até podiam encher a canção de adornos, solos aqui e ali, mas essa possibilidade é negada pela vontade do conjunto de servir apenas a música e, por exemplo, o trabalho de Pedrum Siadatian com a guitarra de 12 cordas atinge o equilíbrio certo entre a melodia certa e o artifício desnecessário.

Com pulsão epicurista e dolente a guiar-lhes o rumo, os Allah-Las foram distribuindo temas a um meio-tempo prazenteiro, porque não faz sentido a acelerar quando o objectivo é apreciar a viagem. Contudo, o grupo decidiu meter prego a fundo no já perto do perto do término do concerto. No Voodoo preparou o embalo, Could Be You causou um assomo de intensidade com o seu rock n’ roll mais direto, uma vertigem que atingiu ponto de rebuçado com Calm Me Down, cover tocado com sangue na guelra do original dos The Human Expression. A disputar com os Kyuss o título de melhor música intitulada com o nome destes barcos, Catamaran fez despoletar vagas sonoras com a sua melodia a ser cantarolada em uníssono pela sala no que teria sido um final com chave de ouro. No entanto, o entusiasmo do público foi retornado pelos Allah-Las, que decidiram voltar para o palco para um encore onde a banda trocou de postos. Silenciadas as últimas notas, voltámos para a vida rotineira, tornada ainda mais insuportável com o abraço opressivo do verão, mas, durante aquele tempinho, os Allah-Las tudo fizeram para aplacar a dor. E por isso, louvados sejam.

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Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Ana Viotti | Musicbox Lisboa