Na noite de quarta feira passada o Musicbox proporcionou a oportunidade de rever em Lisboa o duo TAU, que passou pela capital a caminho do festival Woodrock e do  Milhões de Festa onde iriam actuar durante o fim de semana.

Géneros ou rótulos à parte, os TAU são na verdade uma experiência, que existindo essa possibilidade deverá ser vivida ao vivo e a cores e se possível descalço, pois a espiritualidade que emanam transcende em largos traços a audição dos discos e exalta a uma ligação com os elementos que se concretiza totalmente é na audição directa dos seus criadores.

O espectáculo começou com Sallim, pouco passava da hora estabelecida pela sala, no entanto muito poucos assistiram ao concerto de Sallim que com a sua voz limpída e enamorada nos levou de volta para aqueles sentimentos próprios do fim da infância. Viajámos ao som da sua guitarra até aqueles momentos em que nos começámos a tornar pessoas com opiniões e sentimentos complexos. É sobre esses  sentimentos complexos que a voz e a guitarra de Sallim se debruçam. O amor, a tristeza do amor não correspondido, ou a alegria de amar e ter amigos.

As letras simples no sentimento que descrevem, adquirem complexidade nas tonalidades da voz de Sallim suave, por vezes enamorada. Uma música para apenas sentir porque como a própria diz “ namorar é bom remédio para quem não quer pensar”.  Agreste ou um pouco angustiada, coisas naturais de quem ainda cresce, mas sem perder a compustura quando nos relata as mágoas, mágoas doces que nos transportam a esse momento simples e livre do primeiro amor com uma limpidez quase subversiva.

Com a casa já um pouco mais composta, os TAU entraram em palco por volta das 23,30,descalços e acendendo incensos como que a anunciar a verdade xamânica e hipnótica que a sua música nos traria na próxima hora.

As histórias que as suas músicas contam provêem dos desertos, esses sitios inóspitos que têm o poder de no meio do nada nos devolver às nossas formas mais primitivas e nos remeter para a nossa  mais ancestral espiritualidade, como em Mother, single do último albúm, lançado em Outubro de 2016, TAU TAU TAU, mais vibrante que no concerto a que havíamos assistido há alguns meses. Através da sua música levaram-nos ao deserto à descoberta de nós próprios com Espiral e Venadito, e exultaram-nos a escolher entre o Eros e o Logos, o coração ou a razão.

Dessa dualidade partem para Midnight Jaguar onde a guitarra de  Mulrooney estilhaça toda a acalmia que havia sido construida até ali e seguem até Huey Tonatzin do primeiro Ep, “Wirikuta” o deserto sagrado da Wixarika. Terá sido a peregrinação de Nunutzi por Wirikuta que o levou tempos depois a encetar a colaboração com  Mulrooney originando assim os TAU.

É verdade que não foi um concerto surpreendente, mas não por que a banda não o queira fazer, eles fazem-no de facto, mas o escasso público no local não consegue entrar no mesmo ritmo ou encetar a mesma ligação aos elementos que os TAU emanam.

Surpreendente parece ser a falta de atenção que o público em geral tem dado a esta banda que tanto tem para oferecer e que se dedica a isso quase como se de uma missão se tratasse.

Gerald Pasqualin e Shaun Mulrooney lançaram no dia seguinte ao deste concerto mais uma peça na sua enigmática discografia que vale a pena descobrir, quanto mais não seja para perceber em que ponto da viagem nos encontrámos com este duo que contém nele elementos musicais provenientes do norte e centro do continente americano com uma forte persistência nos cantos xamânicos, assim como algumas remeniscências do médio oriente.

 

Texto– Isabel Maria
Fotografia – Daniel Jesus