NOS Alive, dia 8: Os deuses devem estar loucos

Foi com chave de ouro que se terminou esta 11ª edição do NOS Alive, uma edição já memorável pelo facto dos três dias estarem esgotados. Para esta terceira enchente, se no palco principal as atenções estavam voltadas para Imagine Dragons e Depeche Mode, não se podia deixar de despender atenções para Spoon, Fleet Foxes ou The Avalanches.

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Num ano que o tempo até foi nosso amigo, já que não fomos arrasados pelas elevadas temperaturas durante o dia e o frio notívago, o terceiro dia começou ao som dos vencedores do EDP Live Bands deste ano, os Plastic People. A seguir as pisadas de antigos vencedores como os Cavaliers of Fun ou os Them Flying Monkeys, os naturais de Alcobaça espalharam a sua vibe punk-rock, influenciada pelos anos 70 e 60 dos Joy Divsion ou Velvet Underground. Ainda assim, as energias estavam a ser poupadas por parte do público que preferiu vê-los, mas sentados.

fotos na galeria NOS Alive 2017 Dia 8 Plastic People

De passagem pelo Coreto, o mini palco no NOS Alive que alimenta a nossa satisfação pela música portuguesa, encontramos Filipe Sambado que perante uma considerável plateia que está para ouvi-lo e à sua Vida Salgada.

Isto tudo enquanto decorre o concerto dos The Black Mamba, com a sua vibe funk e alegre. O contigente nacional, mais uma vez, se fez representar muito bem.

Se formos a falar do concerto dos Spoon podemos logo dizer o que Robin Pecknold, vocalista dos Fleet Foxes, afirmou logo no início do seu concerto. “Um aplauso para os Spoon, que grande banda”. A terminar esta primeira digressão europeia, este ano (a segunda passa já em novembro), os texanos provaram o porquê da sua carreira construída de forma tão consistente fazer com que tenha uma legião de fãs tão fiel e tão positiva.

As atenções dadas ao Hot Thoughts, deste ano, por parte da imprensa internacional, com grandes elogios, são merecidas quando o público dança ao som da música que dá nome ao álbum ou então ao som de Can I Seat Next To You, deixado estrategicamente para o fim. Aqui entre o palco e a plateia se mete a colher, Brett Daniel vai buscar ainda temas como o Do You e o Inside Out que remetem a álbuns passados, e que fazem do concerto uma performance constante e positiva.

fotos na galeria NOS Alive 2017 Dia 8 Spoon

Com as atenções de grande parte da multidão voltadas para Imagine Dragons, é de salutar quando o vocalista se regozija e elogia os que estão presentes. Pode soar clichê, pode parecer que diz isto a todos, mas soa sempre bem ao nosso ego. Então, o encontro fica marcado para Novembro. Dia 16 no Porto, dia 17 em Lisboa, para quem quiser.

Uma vantagem deste dia é que não foi preciso andar muito para ver o outro grande concerto do dia. Aliás, nem foi preciso andar nada. No mesmo palco, Fleet Foxes, acabadinhos de regressar do hiato, muniram-se do Crack Up, o sucessor de Hopelessness Blues, o último que ainda contou com Josh Tillman, agora mais voltado para a sua missão humanitária como Father John Misty.

Mas ninguém pense que os Fleet Foxes não espalham a fé. Continuam, melhor que nunca. I Am All That I Need / Arroyo Seco / Thumbprint Scar afina a voz de Robin Pecknold para um concerto de magia que acontece no palco Heineken. Cassius, – e Fool’s Errand são outros elementos do novo álbum que se apresentam num alinhamento que conta com o orelhudo Mikonos ou um dos outros hino da banda White Winter Hymnal. A eletricidade estava efervescente no Heineken.

fotos na galeria NOS Alive 2017 Dia 8 Fleet Foxes

2017 é um ano chave para os Depeche Mode. É o ano da sua revolução, de voltar a ganhar a sua consciência política e de afirmação da sua orientação de esquerda (em combate ao facto de serem parte de uma playlist da faixa alt-right norte-americana). Spirit é essa bandeira de combate ao que se está a passar com o mundo atual, com a afirmação dos extremismos seja pela Europa, seja o que acontece nos Estados Unidos ou pelo mundo fora. Por isso é que até o Revolution dos The Beatles é o que funciona de mote para começar o concerto.

Mas se formos a analisar esta revolução, Dave Gahan, Martin L. Gore e Adam Fletcher pouco deram importância. Going Backwards, Cover Me e Where’s The Revolution são as flechas de um combate que a música ainda pode ajudar. Afinal de contas, por cá, José Afonso tinha razão no que diz.

Se formos a ver no dicionário a definição de super-homem, tem de estar a fotografia do Dave Gahan. Ainda dos últimos que encarna da dimensão de superstar no rock, embora agora já tenha atingido o senso da moderação fora dos palcos, ele continua a ser uma besta (no bom sentido da palavra) no palco.

Um homem que aos 55 anos já teve overdoses, problemas com relacionamento, problemas com a banda (isto lá nos 90) e até porque esteve morto, ainda que por dois minutos, continua a rodopiar e a limpar o palco como não houvesse amanhã, devia ser caso de estudo. A sua voz continua a contagiar o público, que admira uma banda que inspirou muitos géneros e bandas.

Claro que o seu rock e toda a sua aura se centra muito nos anos 80, Enjoy The Silence e Personal Jesus que o digam, mas Depeche Mode encantam até em I Feel You, Wrong ou Never Let Me Down Again. Mas também Martin L. Gore tem a sua importância, e muito relevante no espectáculo.

Aquele que, se não fosse a saída de Vince Clarke no início da existência, não se viria a assumir como o grande letrista que é, continua a encantar o público com a sua voz e a sua guitarra. Longe da extravagância de outros tempos (para quem não é assim tão fã, que pesquise videoclipes antigos da banda), fez encantar o público com Home ou a Cover Me. Com fim, surgia a réplica bem sucedida do público cantar o refrão. (E ainda há crónicas que dizem que não cativaram o público, o que é errado).

A despedida faz-se rapidamente ao som de Walking in My Shoes (com um videoclipe brilhante a decorrer atrás) e os já mencionados I Feel You e Personal Jesus. Já é hora de virem dar um concerto em nome próprio, não?

Com o palco NOS a fechar estranhamente cedo, as atenções centram-se para os secundários Clubbing e Heineken. Com Cage The Elephant a rebentar as costuras e a exceder-se a si mesmos, as juras de amor dos norte-americanos a Portugal continuam. A lua de mel continua de tal forma que vamos preparar para vê-los cá mais vezes.

Um dos melhores regressos nos últimos anos à ribalta são mesmo os The Avalanches. Wildflower aparece mais de 15 anos depois do mega êxito Since I Left You. Os australianos que fazem levantar do chão tudo o quem está presente no palco Heineken, sabem que as cartas estão todas na mesa quando Because I’m Me e Frankie Sinatra são logo os dois primeiros ases lançados. Com The Clash à mistura, a actuação teve todos os requintes de epicidade que se espera neste festival. O fim fez-se ao som do badalado Since I Left You.

fotos na galeria NOS Alive 2017 Dia 8 The Avalanches

Posto três dias, o sentimento que fica é sempre o mesmo que move já imensas pessoas todos os anos. Ainda bem que cá estivemos para ver boa música e bons momentos de diversão, sempre na redoma da amizade, com o sentimento de que para o ano há mais e estaremos de volta.

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Texto – Carlos Sousa Vieira
Fotografia – Nuno Cruz | José Fernandes e Arlindo Camacho (NOS Alive)
Evento – NOS Alive 2017
Promotor – Everything is New