Assistir a um concerto no Mosteiro dos Jerónimos à noite devia constar de todas as repisadas listas de Coisas Que Tem Mesmo Que Fazer Em Lisboa. Devia, porque não, ser considerado obrigatório, ou então ser algo que beneficiasse o Currículo. Alguém concorria a um emprego e dizia, tenho mestrado, ou tenho o 12º ano, ou o que for, possuo dois anos de experiência na área, o meu Inglês é proficiente, e já vi um concerto nos Jerónimos. Ao que nos responderiam: muito bem, muito bem, um ponto a seu favor. Face à sublimidade presente na combinação de concerto, jogo de luzes e estilo Manuelino, seria algo que nada nos espantaria.

No exterior, maior que a linha de pessoas a aguardar para entrar no edifício, só a curiosidade patente nas caras dos demais: afinal não será assim tão frequente assistir, neste espaço, a um concerto de Pedro Jóia – um dos mais hábeis e prolíficos guitarristas Portugueses – e do brasileiro Ney Matogrosso, uma das vozes mais carismáticas e reconhecidas da lusofonia.

Os vários minutos de atraso foram imediatamente esquecidos quando das cordas se disseminou o som de Carlos Paredes. Um solo que deixou os claustros estáticos e suspensos num silêncio apenas interrompido por um demorado aplauso. Não é frequente o primeiro tema interpretado ser um dos momentos altos da noite: Jóia apresentou uma cartada – leia-se guitarrada – de mestre.

Já em formato de trio, chega-nos uma mescla das músicas Medianto e Fado Lopes. Se o momento a solo transportou uma enxurrada de sentimento e sensibilidade, a presença de outros elementos em palco preenche acusticamente o Mosteiro. Facto que se comprovou em temas como Buléria, Corridinho ou Zyryab, tema de Paco de Lucia. Num Mosteiro dos Jerónimos repleto, o vencedor do prémio Carlos Paredes podia ter terminado o concerto naquele momento que, depois daqueles oito temas, estamos certos que ninguém faria o trajeto para casa insatisfeito. No entanto, a presença de Ney de Souza Pereira, conhecido nestas lides por Ney Matogrosso, ainda era esperada em palco.

Em balado de Louco, primeiro tema interpretado por ambos os cantores, evidencia-se instantaneamente a voz do Brasileiro. A presença de todos os músicos em palco torna a sonoridade que nos era oferecida mais completa e versátil, o que proporciona uma pronta reação do público: desde os mais aos menos novos, dos sentados, aos que estavam de pé, ou os que assistiam através do parapeito do primeiro andar, todos reagiam positivamente à evolução do concerto.

Se Rosa de Hiroxima se revelou um dos episódios de maior sintonia entre os dois elementos e a banda, O Mundo é um Moinho e Bandoleiro foram momentos sobejamente aplaudidos por um público conquistado pelo que assistia. Bandoleiro, a referida décima quarta interpretação da noite, foi o momento em que a banda abandona o palco para regressar, óbvio, escassos segundos depois. Recebidos naqueles claustros sob homogéneos aplausos e agradecendo os presentes por aquela noite de emoções e comoções, a eleição para derradeira música recai em Assim Assado, tema pertencente à discografia de Matogrosso. Uma interpretação poderosa e sentida, que, à imagem daquela noite, não abandonará a memória de quem teve a oportunidade de presenciar aquela feliz combinação. Se não temos a certeza que os acordos ortográficos operem como esperado, acordos musicais desde género não serão nunca menos que um êxito.

Texto – Tiago Pinho
Fotografia – Ana Pereira
Promotor – EGEAC