Imaginem a palavra caos e tudo o que dela advém. Imaginem também um estado mental de caos profundo onde deixamos de perceber quem somos e onde estamos e apenas queremos ficar ali naquele loop de emoções e transtornos que a nossa mente enrola e desenvolve aquando da audição de Distress, Distress. Trata-se um caos assustador e delicioso na sua essência que os 10 000 souberam criar da melhor maneira.

Em 2015 os 10 000 Russos provaram aquilo de que eram capazes e rapidamente conquistaram um lugar de qualidade e supremacia no boom psych vivido desde então. Dois anos depois, no passado dia 7 de Abril lançam o seu segundo trabalho Distress, Distress e a fasquia manteve-se.

É difícil misturar psych com industrial, post punk e algum experimentalismo e dai resultar algo atractivo e de bom tom para os nossos ouvidos, já cansados de tudo o que se tem feito nesta área. Este trio do norte tem a capacidade não só de conseguir um resultado de louvar, como também nos embrenhar na sua música e fazer com que tudo dentro e à nossa volta vire um verdadeiro caos.

São seis os percursos que compõem esta viagem. São faixas compridas, complexas e completas. A sua densidade acompanha atmosferas negras, pesadas e distorcidas. A voz de fundo surge em contrabalanço com a intensidade que o corpo sente ao saborear cada ritmo e acorde. A viagem é inevitável e as encruzilhadas mentais também. Ao fecharmos os olhos somos sugados de imediato para um universo repleto de obstáculos, onde o negro vai assumindo rasgos de raios e explosões que surgem ao longo do caminho como se fossem luzes strobe que nos cegam momentaneamente. Ao mesmo tempo que cada música é o nosso comandante, nós temos o poder de fazer desvios a espaços e lugares desconhecidos. É possível que acordemos em sítios geometricamente desenhados propositadamente para nos criarem nós mentais, aos quais equiparo o cenário do Cubo, de Vincenzo Natali. A dualidade de sensações exprimidas e espremidas é caótica e o prazer auditivo pode vir, sempre, com uma carga assustadora que só reparamos quando já estamos a viajar e, aqui, é possível que o ouvinte se veja rodeado de um cenário imaginado por Kubrick.

O fuzz esquizofrénico, o baixo intenso e poderoso, os pedais de distorção confusos e deliciosos, o galope da bateria suave e audaz e o eco assustadoramente intrigante da voz fazem com que a transcendência seja algo obrigatório e trazem, igualmente, a impossibilidade de manter os olhos abertos aquando da viagem.

O álbum ficou ao cuidado da Fuzz Club Records e podem ouvi-lo aqui. Mas estejam preparados para isso!

Os 10 000 Russos tocam na próxima quinta-feira, dia 11 de Maio, no Sabotage Rock Club.

Texto – Eliana Berto