Se estas palavras estiverem a ser lidas num domingo de manhã, possivelmente estás a fotografar o teu Brunch e a postá-lo no Instagram. Ontem fotografaste novamente o Sushi. Não foi? Consigo perceber: estava com melhor cara que da última vez. Terás umas New Balance nos pés, e, caso sejas rapariga, ostentarás uma fita no pescoço e umas meias rendadas e, com sorte, alguma coisa com padrão vichy. Caso te questionem, dirás que tudo aquilo é super inovador, super saído da tua cabeça, e, portanto, super que nunca viste ninguém assim. Seguramente haverão centenas de pessoas vestidas da mesma forma, e com os mesmos acessórios que tu. Gosto de me sentir original, todos dirão. Se te tranquiliza, neste exacto momento existem milhares de pessoas a fazer e a vestir precisamente o mesmo que tu em Lisboa, Berlim, Zagreb ou Nova York. É verdade, a globalização – mais que tornar-nos todos iguais – está a estupidificar-nos. Que tem isto que ver com Moor Mother? Tudo.

Revelou-se curto o espaço temporal que percorremos até perceber que estávamos perante algo musicalmente refrescante. Com a genuinidade de quem se dirige entre amigos, a artista de Filadelfia principia por agradecer a presença do público e elogiar a beleza da cidade. Se através dos headphones já havíamos compreendido o impacto que aqueles decibéis nos transmitiam, é ao vivo que recebemos um verdadeiro murro no estômago. Em Camae Ayewa, Moor Mother como é conhecida nestas lides, tudo é diferente. A atitude. A forma como nos olha nos olhos. A musicalidade. O confronto. A sinceridade. A distorção. As causas. O liricismo. O espaço que ocupa. O sintetizador. O sentido de urgência. A inovação. A Impetuosidade. A poesia.

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Primeiro o sintetizador, os loops agressivos e inconformados, depois Ayewa no chão a arremessar-nos palavras de ordem: “Did you see it? Everybody is recording but did you see it?”. O impacto é homogéneo, a totalidade dos olhos presentes naquela sala perseguem a Americana, que se levanta e enfrenta o público. Move-se no meio das pessoas, oferece encontrões aos demais, olha as pessoas nos olhos. Empolga-se com a sua própria música e isso entusiasma o público, muito provavelmente pela genuinidade e autenticidade. Ao segundo tema e não nos abandona a frase: “We want our reality back, we want our future back”.

Apesar do caos de samples, distorção, colagem de vozes e poemas que formam o Afrofuturismo da cantora de Filadelfia, esta patente um liricismo muito idiossincrático em cada música. Percebe-se uma vontade de mudar a ordem natural das coisas: agarrar o passado, jogá-lo ao ar e fazer algo díspar com ele. No fundo criar e não apenas reinventar. A isto agrega-se uma boa noção de tempo, pois Moor Mother domina eximiamente o momento para se fazer ouvir, mas oferece também espaço e silêncio para que se façam sentir os restantes elementos que compõem a sua sonoridade.

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Apesar de se dedicar maioritariamente ao seu primeiro Longa Duração Fetish Bones, os seus inúmeros EP’s também disseram presente. Se Parallel Nightmares foi dos momentos mais celebrados, By the Light terá sido dos ápices da noite. A sua impetuosidade verbal e a repetição massiva proporcionou um dos contextos mais fervorosos e arrebatadores da noite. Se prestarmos atenção ao que é dito além do ruído, apercebemo-nos que nos poemas e nas pequenas histórias está patente uma vincada luta contra a segregação racial, a misoginia, a pobreza, a violência nas prisões e a constante opressão, como testemunham Deadbeat Protest e KbgK.

Que tempos são estes que vivemos? Para onde estamos a ir? Que globalização é esta que estamos a aceitar e pouco mais faz além e nos tornar semelhantes aos nossos pares? Esta alienação cultural é outro dos temas que, directa ou indirectamente, descobrimos na música de Moor Mother. Descoberta esta que vem em forma de murro no estômago. Estamos agradecidos.

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Texto – Tiago Pinho
Fotografia – Vera Marmelo | Galeria Zé dos Bois