Que o mundo é uma merda ninguém duvida: olhem à vossa volta, liguem a televisão, chorem perante as vossas parcas contas bancárias. Com 36 anos de carreira e 15 anos debaixo do braço, os Napalm Death ainda não se cansaram de denunciar as injustiças que nos assolam e a esta mais recente vinda a Portugal mostrou como estes veteraníssimos estetas da violência não perderam o nervo. A orgia de caos que se formou à frente do palco foi o ponto alto do primeiro dia deste Moita Metal Fest com cara nova, mas a cavaqueira folclórica proporcionada pelos Gwydion não lhe ficou nada atrás no que toca à capacidade de juntar co(r)pos em movimento descoordenado.

Normalmente estas linhas começariam com um “mais uma excelsa edição do Moita Metal Fest, a manter a consistência a que nos tem habituado”, mas desta vez não, não pode ser. Porquê? Porque se há dez anos sugerissem à malta da organização para convidar Napalm Death, eles rir-se-iam na vossa cara de tão estapafúrdia ideia. Vozes desdenhosas dirão que a banda esteve cá há dois anos, na Deathcrusher Tour, e que isso reveste o seu retorno de alguma redundância, mas isso seria esquecer que trazer uma banda deste calibre não é para todos e cada vinda é um motivo de festa. Pois bem, está na altura de declará-lo pomposamente: apesar dos seus 13 anos, o Moita Metal Fest entrou oficialmente em estado de maioridade.

Temia-se a perda de identidade com a alteração para um espaço bem maior, da já mítica Sociedade Estrela Moitense para a enorme tenda num recinto vedado junto ao Parque Municipal de Exposições. Nada disso. Os pontos de referência podem ter mudado e a oferta gastronómica e de todo tipo de memorabilia aumentado, mas voltou-se a ver as mesmas caras e o espírito manteve-se, tanto na entreajuda junto ao palco como lá fora, no parque de estacionamento, com as sessões chungó-irónicas de música pimba.

Sem conseguir chegar a tempo de assistir às atuações de Legacy of Cynthia e Prayers of Sanity, o tiro de partida para esta longa maratona de fim-de-semana foi dado com os Theriomorphic. O seu Death Metal de inclinação melódica não pretende reinventar a roda, nem precisa, e ora a puxar para os ataques de dupla guitarra, ora a entrar numa passada death n’ roll mais selvagem, mostraram-se bem oleados como se quer. Prestes a lançar o seu novo EP, Of Fire and Light, Jó e companhia apresentaram as novas Marching Towards the Sun e Absent Light e encerraram em beleza com aquele que é o seu nome de honra, The Beast Brigade.

Numa volta de 180 graus (há muitas destas, no Moita), o cheiro a mortulho foi substituído pelo fedor da libertação anarca dos Crise Total. Atenção, não há qualquer intuito depreciativo aqui: a punkalhada deste calibre quer-se com atitude e sem falhinhas mansas. Se é verdade que o conjunto já não vai para novo e algum do nervo electrizante perdeu-se no seu conturbado percurso (a bateria, por exemplo, esteve demasiado calma, com pouco poderio), a sua entrega mais do que compensa e as suas palavras de ordem continuam tão prementes quanto nas alturas da política cavaquista. Num concerto dedicado a Rui Rodão, ao Serpinha e ao Ribas, figuras eternas do punk nacional, a trupe de Algueirão foi parceira espiritual dos cabeças de cartaz com a veemência de temas como Desumanização, Derrame de Sangue ou essa ode aos senhores agentes dedicados a ser uma força repressiva do estado que é Polícia de Intervenção. Com Manolo bastante bem disposto, a fazer do palco a sua casa (até Avô Cantigas citou), a performance/comício foi coroada com Queremos Anarquia, bela canção que deixaria José Fontana orgulhoso.

Da podre realidade para o reino do fantástico, o regresso dos Gwydion à Moita revestia-se de excitação pela recordação do óptimo concerto que deram nestas mesmas terras em 2012. Cinco anos se passaram, o lineup mudou e a produção tem sido parca, mas a energia contagiante mantém-se a mesma. No entanto, os nossos representantes do Folk Metal festivo/guerreiro não chegariam aos cumes dessa saudosa data por razões que escaparam ao seu controlo. A começar por uma falha logo no início, que emudeceu o novo vocalista Pedro Dias, o concerto dos Gwydion seria minado por problemas técnicos e som fraco (algo que, diga-se, foi uma raridade durante o festitval). Nem por isso mesmo os Beerzerkers deixaram de proporcionar bailarico com Veteran ou From Hel to Asgard e os novos membros encaixam-se que nem manoplas de guerra nesta horda. O final da sua prestação foi precoce e agridoce, como o hidromel em que se deliciam: Mead of Poetry foi a inebriante festa de sempre e seria um dos pontos mais altos do festival, mas foi também, involuntariamente, a sua última música pois o som foi abaixo e pela altura em que a situação foi reposta, já era tarde demais.

Se é de tempo que se fala, que se aproveite essa ponte para denotar como esse conceito não parece afetar os Napalm Death de forma alguma. Ainda não refeitos do enxerto que nos deram há dois anos, o conjunto inglês voltou para mais uma sessão e, mesmo sem Mitch Harris (por razões pessoais), nem Shane Embury (em tour com os Brujeria), deram uma sova com selos de qualidade. Os substitutos, John Cooke (Corrupt Moral Altar) na guitarra e Jesper Liveröd (que já esteve nos, infelizmente, defuntos Burst e Nasum) no baixo, estiveram à altura de ombrear com o preciso espancamento de Danny Herrera e com o vociferante ladrar de “Barney” Greenway, que continua a abanar a cabeça como se esta tivesse a arder. Aliás, este repórter é novo demais para por ter assistido à banda inglesa no pico das suas capacidades, mas esta versão “velhos-mas-ainda-fodidos-com-o-mundo” preenche as medidas e ainda é capaz de causar inveja a muita banda mais gaiata.

Quem já esteve num concerto de Napalm Death sabe o que a casa gasta: os temas sucedem-se a um ritmo vertigionoso e acabam, para o bem e para o mal, por tornar-se num massa indistinta de corrosão sonora. Não é que isso seja um problema, não com este grau de convicção, e prova disso é que o circle pit nunca desformou e os mergulhos do palco foram muitos e dados com gosto. Ainda assim, a banda fez questão de percorrer a sua discografia desde o mais recente Apex Predator – Easy Meat até ao lendário Scum, com paragens pelas fases intermédias mais enamoradas com um Death Metal mais groovy, o que dotou o concerto de alguma (a possível) variedade. A reta final foi particularmente devastadora, com um Suffer the Children a espicaçar e um trio de covers (onde se incluiu a sempre pertinente Nazi Punks Fuck Off dos Dead Kennedys) antes da dupla bojarda Persona Non Grata e Smear Campaign findar a noite.

Em jeito de conclusão, é bom ver que os Napalm Death se mantém nestas andanças ainda hoje e que continuam a ser um farol de bom senso. Como sempre, Barney tomou o seu tempo entre músicas para expor pontos de vista sempre argutos, como as denúncias ao clima de medo imposto sobre nós, a exploração humana em prol do mercantilismo ou o crescente isolamento decorrente da vivência moderna. Vindos de Birmingham, cidade considerada por algumas falanges como um projeto falhado de multiculturalidade e um viveiro de extremismo islâmico, os Napalm Death continuam a promover uma mensagem de humanismo e tolerância, não obstante a (deliciosa) violência com que o fazem, e essa postura estende-se até dentro da comunidade musical. Tendo sido uma das primeiras bandas a reunir consenso junto das historicamente incompatíveis cenas metal e punk, nada mais digno terem sido convidados para o passo em frente dum festival que apregoa esses exactos valores.

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Marta Louro | WAV Magazine
Evento – Moita Metal Fest’17