Envolve Lisboa um espírito muito próprio, certas idiossincrasias que a diferencia das demais urbes. O espirito bairrista, associativo, muito típico e que muito atrai transeuntes das mais diversas nacionalidades, tem como pilar associações como o Lusitano Clube. Aqui, as atividades em prol de Alfama e Lisboa vão terminar ao fim de 112 anos devido ao despejo desta mítica coletividade, consequência de uma prática cada vez mais recorrente: a construção de empreendimentos de luxo. Certamente que no futuro teremos hotéis, contudo, quando o espirito da cidade for aniquilado, não sabemos se existirá quem os ocupe.

Dificilmente alguma banda teria um nome mais adequado para atuar no Lusitano Clube que os Memória de Peixe, que de uma só cartada expõem Himiko Cloud – o seu segundo álbum – e prepararam a presença no Eurosonic 2017, na Holanda. As várias pessoas que preenchiam o exterior deste espaço, aproveitando os últimos raios de sol com cervejas na mão, transmitiram-nos a sensação que os concertos ao entardecer agradam e têm margem para crescer.

Os dois rapazes das Caldas esperavam-nos, numa sala simples mas cativante, ao som de uma versão alargada de Haverö’s Dream, tema do mais recente disco. Inesperadamente prosseguimos com 7/4, faixa muito celebrada do primeiro álbum, que permitiu dissecar as diferenças fundamentais entre ambos os trabalhos: se o primeiro é mais catchy, mais orelhudo, o segundo é mais trabalhado, mais polido e complexo. A banda poderia facilmente ter conservado a fórmula e viver de uma aposta ganha, mas decidiu mudar algumas bases fundamentais e progredir para algo menos imediato, mas muito mais audacioso.

A sonoridade da banda de Miguel Nicolau e Marco Franco é determinada por um dilúvio de loops de guitarra, acompanhados por uma bateria com uma presença crescente, o que a torna rendilhada e imprevisível: nenhum molde é reutilizado, nenhuma música é tocada da mesma forma entre concertos, o que proporciona, parece-nos, que estas arrisquem ser influenciadas por circunstâncias exteriores. O espaço, a disposição da banda, a adrenalina do público, têm reflexo no resultado final de cada tema, e tanto Arcadia Garden como Supercollider foram padrões disso mesmo.

Certamente que a banda não contava com um dado novo neste vasto campo que é a improviso. Se esta é habitualmente auto-infligida, usada para regozijo dos seus elementos, os diversos problemas técnicos alteraram essa norma. Após curta pausa no concerto, Dayjob e Estrela Morena foram um teste – daqueles que o professor entra na sala e diz: hoje temos teste – de resiliência e imensa improvisação. No fundo foram os Memória de Peixe a ser Memória de Peixe, mas desta feita por motivos distintos.

Entre palavras da banda contra o fecho do Lusitano Clube e as de um público rendido à sonoridade que lhe chegava, ergueram-se Horsepedia e Immortality Drive. Ambas de Himiko Cloud, foram escolhas eficazes para terminar um concerto onde a banda se viu forçada a alternar entre o fato de gala que prepararam para o Eurosonic e um fato macaco apelidado de ‘Indieprovisação. Foi bonita a festa.

Texto – Tiago Pinho
Fotografia – Daniel Jesus