Quando Sofia Teixeira criou o blog BranMorrighan, fê-lo com intenções de se focar essencialmente na literatura, mas quando, há 3 anos, adicionou a componente da música, o seu refúgio da escrita ganhou novas proporções através da forma como dava grande destaque a artistas portugueses, tanto emergentes como (agora) consagrados, tornando-se num importante meio de divulgação para aquilo que se faz de melhor em Portugal. De forma a dar a conhecer um pouco aquilo que lhe passa pelas mãos que, no aniversário do blog, são feitas festas de aniversário no MusicBox que, desde a sua primeira, foram sempre marcadas pela sua afluência e ambiente festivo. Quis o destino tecer que 2017 não seria exceção e, para o 8º aniversário, reuniria três artistas de peso: Daily Misconceptions, Mira, un Lobo! e First Breath After Coma, estes últimos a contar com Noiserv como convidado especial.

Foi então, no dia 6 de janeiro, que todos os caminhos da noite lisboeta foram dar à sala de concertos do Cais do Sodré, naquela que foi uma noite de concertos por excelência e de grande afluência. Aliás, pouco passava das nove e meia da noite e o MusicBox já estava bem composto, um prenúncio de que a noite seria de celebração. Para dar início à mesma, os Daily Misconceptions foram a primeira banda a subir a palco, naquele que seria o primeiro presente de aniversário para Sofia Teixeira.

Perto de celebrar um ano desde que o disco de estreia, Our Little Sequence of Dreams, viu a luz do dia, os Daily Misconceptions – projeto que junta os sonhos ora eletrónicos ora pop de João Santos, assim como o imaginário paisagístico de Sara Esteves – proporcionaram um belo arranque de noite, naquilo que pôde ser considerado como um misto de ‘concerto’ com ‘cinema’: aos sons eletrónicos, doces e suaves ao ponto de suscitar um preenchimento de felicidade da cabeça aos pés, concebidos de forma exemplar por João, juntam-se todos os belíssimos cenários de fantasia existentes no mundo existente no subconsciente de Sara. A junção destes dois elementos recriou boa parte do trabalho do álbum de forma sublime, mas que acabou por catapultar a música para segundo plano, agindo um pouco como ‘banda-sonora’ (embora ofuscadas pelo ruído do ar condicionado) para as curtas que eram exibidas no fundo do palco; um verdadeiro deslumbre visual e auditivo, a primeira regalia para a autora do blog que unia os três artistas que pisaram aquele palco.

Luís Sousa ficou conhecido dentro do panorama musical português como vocalista dos MAU, mas foi em 2016 que seguiu a solo, com o seu projeto Mira, un Lobo!. Detentor da proeza de ter um dos melhores discos nacionais do ano passado, tendo inclusive feito burburinho na imprensa internacional, o passado dia 6 foi a primeira ocasião em que o português atuou no nosso país em prol do seu único longa-duração, o aplaudido Heart Beats Slow, tornando a sua presença como um dos principais pontos de interesse no aniversário do BranMorringhan .

Quando Luís, acompanhado Eliana Fernandes e Nuno Lamy, subiu a palco, já o MusicBox estava praticamente cheio; haveria melhor cenário para o seu primeiro concerto em Lisboa? Seguindo um pouco a linha dos Daily Misconceptions, a eletrónica é a fiel comparsa de Luís, oferecendo entradas ao público para que este entre num universo repleto de sonoridades absorventes e cristalinas capazes de criar misticidades encantadoras, tudo graças ao fiel batalhão de sintetizadores que acompanham os três músicos em palco – fruto desta presença, temas como “Spaceman”, “Newborn Killers” ou “Perfection Fades Away”, tema inédito, retêm a mesma qualidade do que no longa-duração.

Quando se apresenta ao vivo, este “lobo” traz consigo uma alcateia, personificada por Eliana e Lamy, com quem a cumplicidade e dinâmica entre músicas é notória; antes de apresentar o tema homónimo do disco, Luís graceja pelos testículos do seu companheiro funcionarem ao ter tido um filho o ano passado – “filha!”, gracejou Lamy – dedicando-lhe a música assim como ao seu filho mais novo, visto que ambas as crianças atravessaram uma fase delicada de saúde, de onde surgiu a ideia para a letra.

Já a entrar na reta final, houve espaço para um tripleto de músicas estrondosas (as mais fortes do disco) para acabar em beleza: “Like Punching Glass”, o single “Tramadol” e “Suffocation”, com esta última quase a causar uns quantos momentos de transe; tempo não faltou para os agradecimentos da praxe a Sofia, cujo sorriso demonstrava que o aniversário do seu blog estava a ser comemorado em altas.

Alta era também a afluência do MusicBox – praticamente esgotado, julgamos – momentos antes dos First Breath After Coma, a banda grande da noite, soltarem o seu post-rock confecionado em formato de canção. Falando numa perspetiva pessoal, lembro-me da primeira que vi a banda de Leiria, precisamente na mesma sala, em 2014, aquando ao festival Leiria Calling, com os compatriotas Nice Weather For Ducks; é tão bom ver-se a evolução de uma banda, não é?

Recebidos com calorosas palmas, o quinteto entrou logo a abrir com “Salty Eyes”, tema que antecedeu o lançamento do mais recente Drifter, que levou a rapaziada a viajar pela Europa (Espanha, França, Alemanha, …) e voltariam a fazer-se à estrada, mais precisamente para o Eurosonic 2017, a decorrer na Holanda. Visto que o tempo de promoção do novo álbum já lá vai, a banda apresentou um alinhamento consistente, com tanto o novo disco e The Misadventures of Anthony Knivet a estarem representado em igual medida, sendo “Shoes For A Man With No Feet” o tema que se seguiu.

Contentes pela enchente que estava ali para os ver, pediram ao público que tentassem imaginar o cenário por de trás da história de “Tierra Del Fuego: Nisshin Maru”: o confronto entre as baleias e os navios de caça das mesmas, retratado na obra O Mundo no Fim do Mundo, por Luis Sepúlveda, com este tema a servir um pouco como a ‘banda-sonora’ imaginada pela banda para esse acontecimento. Como tem sido hábito nas suas recentes atuações, este é sempre um dos pontos altos dos seus concertos, com a beleza a manter-se, mas com os burburinhos de fundo a estragarem um pouco a experiência – consequências de alta afluência, diríamos. Contudo, os First Breath After Coma não arredaram pé e rapidamente presenciaram-nos com “Seven Seas” e, para os fãs de velha-guarda, uma sempre frenética “Escape” acompanhada por palmas e alguns trauteios.

Perto do fim, um membro da plateia foi sorteado “aleatoriamente” para se juntar à banda em palco: um tipo que dava por nome de David Santos, conhecido também por Noiserv. Convidado especial – ninguém quis perder pitada do aniversário do BranMorrighan – o multi-instrumentista juntou-se aos seus colegas de profissão para “Umbrae”, tema de Drifter em que participa nas vozes, deixando o palco do MusicBox tão cheio como a própria sala, naquele que foi o momento mais aplaudido da noite.

Depois de terem abandonado o palco, ao som das mesmas palmas que os acolheram, Roberto Caetano, Pedro Marques, Telmo Soares, Rui Gaspar e João Marques não demoraram muito tempo até regressarem para um encore merecido, antecedido pelas felicitações ao blog de Sofia Teixeira e por aquilo que representava para a música portuguesa. De facto, apesar de a noite ter sido para celebrar o aniversário do BranMorrighan, houve ainda espaço para a consagração do panorama musical português e de todo o seu esplendor, um dos grandes objetivos que as festas do blog sempre tiveram. Parabéns, Sofia!

Texto – Nuno Fernandes
Fotografia – Nuno Cruz