As noites frias de inverno fazem com que o Musicbox se torne ainda mais acolhedor, criando aquela sensação de conforto como quando se dorme debaixo de um edredom, enquanto lá fora a chuva cai e bate com força nas janelas. Imaginar um cenário como este vai ao encontro do que se passou este sábado na sala emblemática do Cais do Sodré, onde as almas presentes viajaram com a ajuda de uma nave, de seu nome indignu [lat.], fabricada em Barcelos e com uma tripulação composta por seis pessoas.

Quando entramos no Musicbox deparamos sempre com aquele seu ambiente típico de local de culto, sendo o preto a cor dominante. Desta vez fomos surpreendidos com um palco onde se destacava uma espécie de nuvem, mas que poderia também ser espuma do mar, como que antevendo que o que se iria passar iria levar-nos a todos lá bem acima. Envolvidos pela nuvem, estavam os muitos instrumentos usados pela banda, arrumados de forma aprumada e quase como se de um puzzle se tratasse.

O sexteto, que esta noite teve menos um elemento, veio até à capital apresentar Ophelia, o seu mais recente álbum, lançado em outubro passado. Apesar de este ser já o seu terceiro longa-duração, a experiência de poder ver esta banda ao vivo em Lisboa continua a surgir no calendário de forma muito pouco regular. A sua última passagem pela capital foi em 2009, tendo sido nessa altura imposto um limite de decibéis, ao contrário de agora. Esta referência de Afonso Dorido, o elemento da banda encarregue das despesas de comunicação com o público, poderá justificar o que se dirá mais à frente.

Para quem gosta de arranjar rótulos para tudo e mais alguma coisa, a melhor forma de definir os indignu [lat.] é associando-os à música experimental alternativa e ao post-rock. Mas há uma coisa que é certa e garantida, aqui não há vozes, nem afinadas nem desafinadas, e são os instrumentos não vocais a fazer as honras da casa. Por outro lado, também os podemos colocar na lista de artistas portugueses que têm mais sucesso no estrangeiro do que no seu país de origem, onde por vezes o reconhecimento acaba por chegar tarde e a más horas.

Pouco passava das 22h30 quando foi dada a ordem para se iniciar a viagem, rumo a vários destinos e ao longo de quase uma hora e meia. A sala estava bem composta e combinava na perfeição com aquilo que iria acontecer em cima do palco. Um público sereno, tranquilo e preparado para conhecer locais e paisagens muito distantes e muito diferentes entre si. Alguns até chegavam a fechar os olhos, que rapidamente se abriam para o respetivo aplauso no culminar de cada tema, revelador do quanto estavam a apreciar o que estava a acontecer. Ninguém foi ali parar por acaso, todos sabiam que lá entrando correriam o sério risco de fazer uma viagem numa nave pilotada por pessoas que sabem bem como o fazer.

Os temas de Ophelia foram, como se esperava, o ponto forte do concerto, com especial destaque para Mar do Norte e Jerusalém, mas onde também marcaram presença temas dos dois discos anteriores. Todo o espetáculo foi marcado pela forma séria e competente com que os cinco barcelenses abraçaram o que estavam a fazer. A interatividade com o público foi diminuta, mas também não vem escrito em parte alguma que só com o recurso a ela é que se conseguem dar bons concertos. No entanto, falta talvez aos indignu [lat.] a capacidade de conseguir reproduzir ao vivo todo o requinte e beleza que chega até nós por via da audição dos seus discos. Os tais decibéis foram algo exagerados, muito por culpa do inevitável problema de não se conseguir controlar o volume da bateria, principalmente dos seus pratos. Houve momentos em que estes abafaram tudo o resto e só por vezes, quando os restantes instrumentos se ausentavam total ou parcialmente, se conseguia decifrar o som do violino.

No final da viagem, somos também levados a concluir que a melhor forma de definir o som desta banda é dizendo que ele resulta do trabalho conjunto dos seis músicos que a constituem – Afonso Dorido (guitarra e baixo), Graça Carvalho (violino, metalofone e sintetizadores), Helena Silva (violino), Jimmy Moom (guitarra, baixo e metalofone), Mateus Nogueira (baixo, guitarra e piano) e Paulo Miranda (bateria). O violino e os sintetizadores acrescentam brilho e enriquecem o som do grupo, a bateria é complexa como as do rock progressivo, o baixo é forte e importante para a coesão final e as guitarras são muitas vezes desconcertantes, usando e abusando, e ainda bem, dos delays, a fazer lembrar as sonoridades de músicos como The Edge ou Robert Smith.

A música dos indignu [lat.] é suficiente para o criar de imagens na mente de qualquer um, no entanto torna-se praticamente impossível durante um concerto seu não pensar no quanto seria enriquecedor para os seus espetáculos a utilização como complemento e em paralelo da componente vídeo, que iria enriquecer com certeza as suas prestações ao vivo.

Texto – João Catarino
Fotografia – Luis Andrade