À nossa frente estavam sentados MCK e Luaty Beirão, o primeiro conjuga o ar artístico com o discurso reflectido e estruturado, o segundo transparece uma invulgar e genuína humildade. A Música em DX entrevistou os Ikopongo, que naquela noite iriam actuar no 10º Aniversário do Musicbox.

Música em DX – Boa tarde Luaty e Katrogi, muito obrigado pela entrevista. Antes de mais, apesar de sabermos da vossa amizade de várias décadas, o que vos levou a juntar? Isto é, em que sentido duas pessoas já com carreiras musicais consolidadas são beneficiadas por se reunirem?

Luaty – Sinceramente, não pensamos tanto no que iríamos beneficiar, pensamos sim no prazer de estarmos juntos num palco. É uma honra fazer isto com o MCK – que faz isto mesmo a sério, enquanto eu só ponho músicas na Internet – e termos um palco só para nós.

MDX – Mas parece-vos que musicalmente saem beneficiados?

MCK – Acho que sim. Trabalhávamos juntos com alguma regularidade, mas em 2013 prometemos ao público Angolano um álbum. Entretanto um amigo do Luaty provocou-nos para estes espectáculos, e desde aí aprendemos muito um com o outro. Também porque pegamos em músicas antigas e demos-lhes novas qualidades. Ou seja, saímos com um valor acrescido deste processo, não só musical, mas também pessoal, devido aos meses que passamos juntos em ensaios, à questão dos concertos barrados e a tudo o que passamos.

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MDX – Depois de terem sido intimidados, agredidos, presos, e barrados em concertos em Luanda, como se sentem por atuar em Lisboa de uma forma tão pacífica? Não será aborrecido?

Luaty – (Risos) Devíamos ter aqui o pessoal da nossa embaixada a não deixar o pessoal entrar, para nos rirmos um pouco. A verdade é que idealmente gostaríamos de poder cantar lá, mas sabemos que há essa dificuldade e essas barreiras institucionais. Foram criadas leis para nos impedir de actuar, mas que só são invocadas quando somos nós ou alguém que eles considerem incomodo. Mas tentamos também divertirmo-nos com isso, pois é nossa missão conquistar os espaços de cidadania que são retirados a nós e a todos os outros, forçando as instituições a trabalhar. Existe esta promiscuidade em Angola, e temos prazer em contrariar essa corrente porque se não as coisas não vão mudar.

MCK – Penso que essas restrições nos proporcionaram uma oportunidade impar para fazer uma dualidade entre arte e activismo. Além de processarmos as duas casas que nos barraram, iremos também dar entrada a um processo que visa denunciar a inconstitucionalidade da lei que é usada para cancelar os nossos shows.

MDX – Um pequeno parênteses, não vos parece demasiado ingénua a actuação do Governo Angolano neste caso do cancelamento dos concertos? Mesmo gastando milhões em consultoras de comunicação, não houve a consciência que vos estariam a dar força, que com uma atitude daquelas vos estariam a oferecer publicidade gratuita?

MCK – Sim, é verdade. Se eventualmente fizéssemos o show corríamos o risco de ter sido uma merda, podia ter corrido mal e termos feedback negativo.

Luaty – Isso acaba por ser lógico para ti e para nós, mas não o é para aqueles que nos governam. Acho que tem que ver com eles se sentirem humilhados, ou até só enfrentados. E eles não toleram que ninguém os confronte. Quando isso acontece eles reagem sem cérebro, apenas com a força. Com aquela atitude “Nós vamos mostrar que mandamos.”

MDX – Como surgiu a oportunidade de trazer o vosso concerto para o Musicbox?

Luaty – Foi muito por esforço do Pedro, um velho parceiro nosso, que empreendeu os contactos para que isto fosse possível. E o Musicbox recebeu-nos de braços abertos e estamos muito honrados por isso.

MCK – Tocar no nesta sala vai ter um significado especial, porque estive aqui no ano passado com o Bonga. Muito para denunciar a prisão deles e a chamar a atenção aqui ao pessoal. Quando sai daqui prometi que quando voltasse cantaria com o Luaty, e aqui estamos nós.

MDX – Depois de várias atuações em Portugal, quais vos parecem ser as principais diferenças entre os públicos dos dois países?

Luaty – Torna-se mais difícil responder a essa questão porque o público varia muito. Hoje, por exemplo, teremos aqui público mais preparados para cenas políticas, mas da outra vez que estive cá a fazer a abertura dos Batida e a audiência era bastante diferente. Se fossemos tocar a um festival o público seria ainda outro. No entanto, nós os Rappers em Angola trilhamos um caminho muito longo, e temos o que alguns chamam de crentes ou fiéis, que sabem as tuas letras do início ao fim. As pessoas veem-nos a nós e à nossa mensagem como os últimos símbolos de esperança, como os seus porta-vozes. Aqui há muita recepção, mas o pessoal não está na situação que nós estamos, é essa diferença.

MCK – Ao longo dos anos estabelecemos laços de cumplicidade com os nossos ouvintes, e por outro lado, Africa é muito mais ligada à oralidade que à escrita. A partilha do conhecimento dá-se muito pela via oral. Mesmo nos grupos étnicos há musicas pare celebrar, por exemplo, a circuncisão, o óbito, e para cada ritual…

MDX – A verdade é que na grande maioria dos países Africanos existe a língua do antigo colono, que é a oficial, mas depois têm a língua Africana deles. No entanto vocês só falam Português. Musicalmente, já que falam das origens, nunca pensaram ter uma música numa das várias línguas de Angola, podendo ser um porta-voz dessas pessoas que não têm quem as represente? 

Luaty – Acho essa pergunta extremamente pertinente. Quando estava em Inglaterra a estudar, tinha uma amiga do Gana que me perguntou qual era a nossa língua em Angola além do Português. Disse-lhe que temos muitas, porque há muitas regiões, muitos grupos étnicos e cada um tem a sua língua. E ela perguntou: Okay, e da região onde vens o quê que tu falas? Ela pôs-me em cheque e a pensar comigo: não falas nenhuma língua do teu país, como é que te dizes Africano? Isto fez-me refletir muito. A geração dos nossos avós interiorizaram que ensinar línguas Angolanas é atraso, que a pessoa não vai ter oportunidades na vida, que não vai conseguir estudar, e acabaram por evitar transmitir essas línguas. Mas sem dúvida que cabe-nos a nós enquanto Africanos ir à procura dessas origens e falar essas línguas.

MCK – Eu falo um bocadinho Kimbundo e nos meus álbuns tenho a preocupação de ter elementos dessas línguas. Uma das formas de aprender essas línguas são os provérbios, que insiro frequentemente nas minhas músicas, seja em umbundo, quimbundo ou Quicongo. Acho muito pertinente essa pergunta no sentido que há imenso conhecimento que se desperdiça quando se perde uma língua.

MDX – Na minha opinião, coabitam em Angola duas visões distintas. Numa margem surge a corrente que o Governo é um garante de paz e estabilidade, e, na margem oposta, erguer-se a mensagem que relata a corrupção, a heterogeneidade na distribuição dos recursos económicos e a falta de estruturas democráticas. Perguntamos-vos se um: a primeira corrente tem tido um peso superior, e dois: se vos parece que a música é um instrumento suficiente para transmitir a vossa mensagem.

Luaty – A nível de número essas duas correntes são ambivalentes. No entanto, estas duas mensagens são as visíveis mas não compõem o mosaico completo. Há uma parte da sociedade que tem uma opinião mas que não consegue ter voz. Na minha opinião a primeira só é hegemónica porque tem um controlo dos meios de comunicação, consegue colocar os seus fantochezitos, que são meros repetidores. Se formos medir podemos dizer que estão a ganhar, pois continuam lá, mas estão a perder espaço de dia para dia, e a nossa música pretende ser mais uma ferramenta que ajuda a isso.

MCK – Eu responderia a isso de uma forma irónica. Na maioria das discotecas Portuguesas encontras muito Kizomba e muito Kuduro, institucionalmente acontece o mesmo: os governantes Portugueses também dançam a música Angolana. Ou seja, Portugal é o lugar onde chega o dinheiro de Angola para depois ser distribuído pelo mundo. Quanto às mensagens, a diferença é igual a um velocista e um maratonista: a do governo chega muito rápido às pessoas, pelos motivos que referimos, nós demoramos vinte anos de estrada e de luta mas finalmente chegamos às pessoas.

MDX – A música Angolana nos 60 e 70 era muito reivindicativa, de intervenção. Depois disso, talvez pelas influências externas, tornou-se mais desconcertada. Como descrevem o actual panorama musical Angolano?

MCK – A música de intervenção era muito partidária, os chamados músicos revolucionários estavam contra o opressor, contra o colonizador. Quando o opressor saiu esses músicos deixaram de existir, e desde essa altura até há pouco tempo houve um interregno na música engajada. A nossa geração voltou a reanimar esse cenário de música de intervenção, mas sem um cunho partidário. No entanto esta música, dentro de Angola, continua a ser um nicho.

Luaty – Um nicho que reside muito no Hip-Hop, que é uma música engajada, muito critica, muito directa ao assunto. Há outros casos excepcionais como o Paulo Flores, a Aline Frazão, o Bonga, e outras pessoas fora do Hip-Hop que de forma pontual vão passando mensagens. São menos diretas, mais abstratas, mas as críticas estão lá. Se a música de intervenção é no mundo inteiro um nicho, em Angola tem a agravante de esse nicho ser impedido de ter espaços, de se mostrar.

MDX – A nível pessoal, qual a importância da música portuguesa? Quais os músicos Portugueses que mais vos influenciaram?

Luaty – Existiram artistas que me inspiram muito. Quando ouvi a música FMI do José Mário Branco aquilo mexeu comigo. Que cena, que energia, que força. 20 minutos de música? Epá. E obviamente todos os cantores da altura do 25 de Abril também, assim como os poetas, o Ary dos Santos, por exemplo. O que eu consegui conhecer dessa época tem uma força inspiradora. De coisas mais atuais gosto muito de uma banda que consegue conjugar o folclore e a modernidade, os Deolinda. Depois tem o Hip-Hop Tuga que me influenciou a mim e em Angola. Especialmente a época em que se faziam as coisas de forma independente, como o Sam The Kid que lançou um álbum em que a capa era uma fotocópia, assim como os Dealema, Expresso do Submundo, Mind da Gap, e por aí.

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MDX – Num país com 20 milhões de habitantes, o governo estar preocupado com 17 pessoas parece-vos um indício que as eleições podem não ser totalmente transparentes. Isto é, quem vence eleições com maioria absoluta não devia estar menos preocupado com a oposição de pequena escala?

Luaty – Isso é uma das questões que deviam ser levantadas permanentemente em Angola: que sentido faz o todo-poderoso partido, estado e governo, que é tudo a mesma coisa – e que se gaba de ter 6 milhões de militantes e outros milhões de simpatizantes, que ganha eleições com mais de 70% – ter receio de 17 pessoas? Mesmo que fossemos 50, 100 ou 500 pessoas, perante estes dados que medo podem eles ter? Só mostra que eles sabem que os que têm cartão não são militantes, apenas o têm para ter acesso a emprego, a uma vida minimamente digna. E têm também noção que o país não está bem. Quanto às eleições, o processo não é claro, não é transparente, e todos nós temos sérias suspeições quanto à sua lisura.

MCK – Eu vejo o movimento dos 17 como uma semente de medo. O MPLA governa o país numa atmosfera de medo, que tem sempre estas variantes: dinheiro, a repreensão e o medo. Os 17 são só um exemplo do tratamento que tem quem tiver uma opinião contrária à do regime.

MDX – Luaty, em 2004, dizias numa letra: Sou um Kamikaze Angolano e esta é a minha missão. Ainda te sentes um Kamikaze, e qual é agora a tua missão?

Luaty – Em 2004 era muito mais difícil fazer músicas sobre o Presidente e não achar que seriamos mortos a seguir. Muitos morreram por muito menos. Quando fiz a música senti que não ia sobreviver, mas senti também que tinha que a fazer. Infelizmente os factos mostram que continuo a ser um Kamikaze, porque sou obstinado e determinado nas minhas acções, e porque elas acarretam o tipo de consequências que tenho sofrido ao longo destes anos. A minha missão é a de levar uma mensagem de que é necessário mudar, de que precisamos de um novo paradigma. Paradigma esse que temos de ser nós jovens a assegurar, pois nele está o nosso futuro.

Escassas horas depois os Ikopongo atuaram no 10º aniversário do Musicbox. O primeiro concerto em Portugal de Luaty Beirão após a prisão e greve de fome, numa noite histórica e muito celebrada pelos presentes.

Entrevista – Tiago Pinho
Fotografia – Ana Pereira