Há certos concertos que nos deixam extasiados, é necessário respirar fundo no caminho para casa para se tomar a consciência do que acabou de acontecer. É a sensação de que se presenciou algo de especial, há uma aura colectivamente partilhada por todos os que nos acompanharam. São raríssimas estas ocasiões e é essa escassez que as torna realmente memoráveis, são como flocos, só que de rock escaldante em vez de neve. Pode-se dizer de peito feito que os Truckfighters proporcionaram um desses momentos no Stairway Club, protagonizando um dos grandes concertos de rock do ano. A entrega incondicional, a energia no limiar do descontrolo e o caos subsequente aqueceram a gélida noite de Cascais até ao ponto de ebulição.

A vida é feita de mal-entendidos e acasos inesperados, e nunca sabemos quando calha a nossa vez de ficarmos estupefactos com caos que é a vida. Uma leitura errónea dos horários das bandas ditaria que este repórter já não chegasse a tempo de assistir aos Witchrider. Contudo, porque alguns de nós são bem mais competentes, a prestação da banda austríaca foi captada para a posteridade e a opinião de quem assistiu foi de que o jovem quarteto deu um excelente começo às festividades.

Já os We Hunt Buffalo puderam ser apreciados em toda a sua plenitude. Apesar de originário da cosmopolita Vancouver, o hirsuto trio parece ser adepto dos Great Outdoors, onde pode sentir a libertadora experiência da caça grossa. E se este devaneio for abusivo e na verdade eles não gostarem de caçar grandes animais, fiquemo-nos então pela bem mais consensual conclusão de que gostam de caçar grandes riffs, como os de Prarie Oyster ou Back to the River. Donos de um granítico Stoner Rock, os We Hunt Buffalo ainda assim não se ficam só pelo peso per se, possuindo também uma invulgar sensibilidade melódica, especialmente na forma como Ryan Forsythe e Brendan Simpson partilham as responsabilidades no microfone, entre a forma gritada do primeiro e a entrega mais dramática do segundo, frequentemente entrelaçadas com grande efeito nos refrães (Cobwebs é um exemplo). Sendo ainda de mencionar que esta tour marcou a vinda do baterista Brandon Carter, aparentemente luso-canadiano, à sua terra de sangue, o trio com certeza conquistou fãs e deixou o público ainda mais quentinho à espera da atracção principal.

Ainda nem sequer tinham passado três meses desde a última vinda dos Truckfighters a Portugal, visitando as belas terras de Moledo no nosso querido mês de Agosto, mas nem por isso deixou de haver romaria a Cascais para recebê-los com a devida pompa. A próxima hora e picos (não deu mesmo marcar o tempo, perceberão porquê) mostraria porque é que o trio sueco está num patamar superior às milhares de propostas que pululam neste universo musical. Em primeiro lugar está a atitude, porque escrever músicas engraçadas muitos fazem, mas transpô-las para o palco é outra: mal Mind Control foi lançada na multidão, já o guitarrista Dango se tinha visto livre da tshirt e andava feito maníaco de um lado para o outro do palco com energia contagiante.A segunda, e não menos importante, é o sentido de canção: os Truckfighters não escrevem os riffs mais rápidos nem mais os pesados, mas, não obstante, são porventura das bandas mais memoráveis dentro do género pela capacidade que as suas músicas têm em sequestrar a nossa atenção e levar-nos para onde elas quiserem. A bem ver, o baixista Ozo não tem grande voz e nem disso precisa, pois complementa-se na perfeição com a estética bem trabalhada do conjunto. Para quê malabarismos vocais que destoem, quando a magia está no todo uno?

Quando aliamos estas duas componentes, já se sabe que o caldo vai entornar mais tarde ou mais cedo quando se enfia esta banda numa sala do tamanho do Stairway. Trazendo à memória deste escriba um concerto que os Valiant Thorr deram no Musicbox há uns anos, não demorou muito até a audiência se degenerar uma amálgama de mosh e empurrões descontrolados, um fogo catalisado pelas acções incendiárias da banda (toda a gente se passa quando vê solos tocados com a guitarra atrás da nuca). Mesmo os momentos mais contemplativos, em que a veia bluesy dos magníficos solos de Dango acalmou as feras, foram insuficientes, e lá estaríamos nós novamente no corrupio de crowdsurfing e de malta agarrada às grades do tecto. Canções novas e velhas, desde In Search Of The e Warhead até aos temas de V, Hawkshaw e The Contract, encadearam-se harmoniosamente, até que a sessão de ginástica chegaria ao fim com o clássico Desert Cruiser. Se as coisas até então tinham estado mais ou menos controladas, o magnum opus dos Truckfighters tratou de mandar toda a cautela borda fora, num momento que começou por um “perder a cabeça” colectivo, passando pelas deambulações de Ozo pelo público de microfone empunhado e apelando a cantoria, e acabando com uma invasão de palco digna do espectáculo assistido. Pode parecer egoísta, mas pedimos aos suecos que não voltem assim tão cedo, deixem-nos saborear este momento por muito tempo.

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Daniel Jesus