O Musicbox começava a ficar preenchido para a esperada estreia de Nothing, a banda de Filadélfia, em terras lusas. Antes disso, Ricardo Remédio apresentava aos presentes o seu primeiro trabalho em nome próprio.

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Para o aguardado lançamento de Natureza Morta, sob alçada da Dissociated Records, recai sob o antigo membro de Löbo e RA o peso da expectativa. Não apenas por se tratar de um nome reconhecido nos meandros da eletrónica, mas também por ter colaborado com o reconhecido Daniel O’Sullivan na produção deste álbum.

Parece provável que Ricardo seja admirador d’A Arca Russa, filme de Alexander Sokurov, que se tornou ímpar na sétima arte por ter sido rodado de um só trago, num único plano-sequência, sem cortes, nem paragens. Ricardo Remédio, transformando aquela sala numa espécie de armazém noturno, conduziu-nos para um filme sem pausas, nem espaço para palavras vazias. Preparou um espetáculo eletrónico ininterrupto, desarmando os presentes com a robustez – mas também melancolia – da sua música e persuadindo a que nada mais fosse essencial além desta.

Banquete foi primeira amostra de uma sonoridade densa, metafísica e desafiante, onde se afiguram os típicos elementos industriais mas inesperadamente reunidos com sons humanos: no fundo, O’Sullivan a dizer presente. Com transições entre músicas especialmente conseguidas, seguiram-se Ossos e Suor Noturno, acompanhados com o crescente entusiasmo do público. Depois de Vigília, derradeiro tema, o músico Lisboeta sai de palco de forma abrupta, desvalorizando comendas ou elementos exteriores à música. Além dos abundantes aplausos, permaneceu na sala a certeza de termos sido confrontados com um dos mais firmes representantes da eletrónica produzida neste nosso retângulo.

Por volta das 22:30 mostraram-se os atribulados Nothing. Ao líder da banda, Domenic Palermo, já tudo lhe aconteceu: esteve preso por esfaquear um tipo, foi agredido depois de um concerto por um bando de tipos pouco amistosos, tem uma dívida de milhares de Dólares uma vez que não tinha seguro de saúde, e, pior que tudo isto, tem uma prima – contou-nos durante a noite – que além de lhe tirar desastrosas fotos nos concertos, identificava-o em todas. Razão que o levou a desistir do seu Facebook. Compreensível.

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Os Americanos perceberam que o melhor que conseguiriam fazer com os dias menos positivos era transformá-los em música, e daí nasceu Guilty of Everything, o irónico nome do primeiro álbum da banda. O seu sucessor, Tired of Tomorrow, serviu de mote para este concerto, que coerentemente iniciou com a primeira faixa deste álbum: Fever Queen.  

Apresentam-se com um tom amigável e bem-disposto, que propiciou amiúdes interações com o público. Agradeceram aos presentes por terem vindo, interrogam se alguém precisa de boleia para o Porto, perguntam aos fotógrafos como estão a sair as fotos, cumprimentam o bartender, elogiam o país, e, imagine-se, querem saber se alguém lhes empresta um sofá para mais umas noites por cá – e tudo isto com um tom que nunca nos pareceu forçado.

É sabido que esta alegria encobre um corpo dormente. Prosseguem com Eaten by Worms, B&E, Bent Nail, músicas que escondem ansiedade, medo e crises existenciais. A muito saudada Abcessive Compulsive Disorder foi o que de mais perto a banda conseguiu aproximar-se de uma música de amor, terminando, claro está, com um “And I will leave you with a bad taste in your mouth”.

Se as letras são uma parte relevante deste grupo – perguntem à malta com tatuagens da banda – convém não descurar o instrumento vocal e a forma como ela chega, ou não, à sala. Eram frequentes as vezes que os microfones de Palermo e do guitarrista Brandon Setta não alcançavam aquela sala de forma homogénea. Fora este detalhe, ninguém pareceu ficar insatisfeito com o Indie Rock atingido pelo Shoegaze, mas também pelo Punk e pelo Grunge, que os Nothing apresentavam. Mesmo a longa pausa originada por cordas partidas foi pretexto para mais alguns tragos de vinho e socializar com o público, afirmando que esta é a melhor parte da Europa e que esperam voltar em breve.

Houve ainda tempo para o usual encore, em que nos brindaram com uma pouco sóbria Dig, um dos melhores momentos da noite. Saíram de palco sob numerosos urros e aplausos de uma plateia visivelmente satisfeita com o concerto que acabou de assistir.

Texto – Tiago Pinho
Fotografia – Nuno Cruz
Promotor – Amplificasom