Em semana de um dos maiores festivais de Portugal fomos conversar com os First Breath After Coma, a banda portuguesa de sonoridades emocionais e emocionantes que promete guiar-nos por viagens e embalar-nos em sonhos e confortos calorosos.

Os First Breath After Coma lançaram o seu segundo disco – Drifter – a 6 de Maio deste ano e têm a oportunidade de o mostrar num dos festivais com o qual mais se identificam, o Vodafone Paredes de Coura. No âmbito deste concerto, o Música em DX trocou umas palavras com o vocalista da banda, Roberto Caetano, sobre planos e ideologias.

Drifter-(CD Cover)-1024

MDX – Consideram que a vossa música é uma lufada de ar fresco como se estivéssemos a acordar de um coma?

Roberto – Não sei se a nossa música é uma lufada de ar fresco ou não, já a catalogaram dessa maneira, mas o que nós gostamos que a nossa música transmita é qualquer tipo de sensação que a pessoa que esteja a ouvir queira ter. Nós não levamos a nossa música só para um lado, cada um viaja à sua maneira e quando estamos em cima do palco é isso que queremos que as pessoas sintam também, que seja algo que as leve numa viagem seja de lufada de ar fresco, seja até ao inferno, é onde quiserem ir, acho que a nossa música é um bocado “sensações ao máximo” e é isso que queremos que ela transmita.

MDX – Qual é o simbolismo da falta de rostos numa das vossas fotos?

Roberto – É a nossa timidez. Tirar fotos connosco é um castigo porque nós não sabemos estar em frente a uma camara, por muito estranho que isto possa parecer estar em cima dum palco é bem mais fácil. Então aquilo surgiu duma ideia de nós tirarmos umas fotos mais lusco-fusco e então lembramo-nos de tirar a cara e deixarmos o fundo que estava na própria foto. Eu não sei se isso inconscientemente transmite alguma ideia nossa mas não foi propositado, foi só uma coisa estética do momento que surgiu apesar de poder ter vários significados.

MDX – Mas consideram-se pessoas tímidas?

Roberto – Sim, acho que isso se nota bastante em cima do palco. Inclusivé já tivemos algumas críticas que diziam que não interagimos muito com o público, não olhamos muito para cima. Mas isto vem daquela primeira pergunta que fizeste, o nosso conceito de concerto é uma viagem e, se calhar, isso é muito mais introspectivo do que mostrar uma foto nossa sem a cara. Nós quisemos mostrar esse ar mais recatado para cada um poder tirar o que quiser da música porque nós somos todos diferentes, apesar de estarmos a partilhar aquele momento, e isso acaba por não ser tão específico e torna-se algo mais abrangente, mais espiritual, talvez. Mas sim, nós somos bastante tímidos.

MDX – Qual é o vosso álbum preferido de Explosions In The Sky?

Roberto – Eu tenho 2 ou 3 no carro e é difícil dizer qual é o melhor porque gosto de músicas de todos. Os Explosions In The Sky foram uma referência enorme quando começámos a fazer originais mas se calhar se me perguntares agora, há outras coisas que ouço mais com as quais me identifico mais e por acaso até queremos fugir um bocado a esse rótulo. Nós tirámos o nome da banda mas não temos nada assim muito parecido e não queríamos que ficássemos agarrados a eles só por causa do nome.

MDX – O que andaram a fazer em 3 anos (intervalo entre discos)?

Roberto – Nós lançámos o nosso álbum em finais de 2013, foram 2 anos e meio mais ou menos. Mas não sei bem, a primeira coisa foi descansar, nós queremos ver-nos livres da “casota” (sítio onde ensaiamos) no final de fazermos um álbum porque um álbum é um ano fechados. Nas férias são umas 16h por dia fechados ali e calha sempre no calor porque é nas férias de verão e isso deixa-nos logo com vontade de tirar umas férias daquela sala para libertarmos a cabeça. Depois vamos para a casota e começamos a fazer meio/meio que é jogar playstation e descobrir novos sons, depois isso vai afunilando até começarmos a construir um álbum, procurar sons, desenvolver esses sons… para este álbum, por exemplo, andámos na rua a sacar sons de coisas estúpidas como pedras a cair. Passámos muito tempo desses 2 anos de intervalo a fazer isso e a construir música.

MDX – O crowdfunding que vocês fizeram para edição do álbum deu resultado, certo?

Roberto – Sim, ficámos muito contentes com o resultado que teve. Nós pedimos 6000€ e conseguimos completar o objectivo e até um pouquinho mais. Foi estranho porque nós não estávamos a espera porque para além de tímidos somos pobres e isso não é uma coisa que se conjugue muito facilmente. Quando uma pessoa precisa de ajuda de alguém para alguma coisa, a timidez não é um ponto a favor. Mas surgiu a ideia do crowdfunding que foi superado e ficámos um pouco estupefactos com aquilo que tinha acontecido. Nós tínhamos gasto todo o nosso dinheiro no álbum anterior, tivemos de comprar novos instrumentos para melhorar o nosso desempenho ao vivo e depois quando tínhamos de gravar já não havia nada. Agora o próximo projecto é juntar dinheiro com este outra vez, pagar o que há para pagar e, se tudo correr bem, construir algo nosso, um estúdio nosso com condições.

FBAC-(self portrait1)-1024

MDX – Tornou-vos mais fortes esta situação?

Roberto – Tornou-nos mais confiantes. Sabemos que temos pessoas que gostam verdadeiramente daquilo que nós fazemos e que querem ouvir mais daquilo que nós possamos fazer daqui para a frente.

MDX – Olhando para o vosso esforço para conseguir editar o álbum, achas que a indústria da música em Portugal está preparada para a quantidade de bandas novas que vão aparecendo?

Roberto – Eu acho que a cena musical por Portugal está viciada ao máximo e é muito difícil entrar no meio como deve ser e viver da música, é completamente impossível. Graças ao Hugo que é o nosso manager, graças a associações de Leiria, a parcerias que o Hugo faz com pessoas de Lisboa, estamos a tentar chegar lá fora. Aqui dentro é impossível, se não for o clã do Toni Carreira ou a onda do Anselmo, uma pessoa tem de ir lá fora primeiro ganhar estatuto para depois dar em Portugal um concerto ou dois de jeito. Nem é concerto de jeito, nós temos concertos de jeito, bonitos, o problema é pagarem-nos um bocadinho à luz daquilo que nós trabalhamos para fazer. Então estamos a apostar no mercado lá fora, porque acho que é o caminho certo a seguir. Vai custar, mas se não for agora também não há-de ser depois.

MDX – Estavam a espera que o concerto do Musicbox esgotasse?

Roberto – Claro que não! Não nos podemos queixar da audiência que tivemos nos nossos concertos oficiais de apresentação. É muito difícil num meio grande como Lisboa ou Porto uma banda que não é muito conhecida, ter a sala que tivemos. Isso enche-nos um pouco o ego, foi estranhamente bom e positivo.

MDX – Como descrevem o sentimento de passarem do Festival sobe à Vila, para o palco secundário do Festival?

Roberto – Paredes é talvez o festival com o qual mais nos identificamos para tocar. A nível de espírito, música, ambiente, Paredes é muito bom. Também gostávamos de tocar no Alive e no Super Bock mas são festivais mais de amontoados de pessoas, Paredes é um festival onde o espírito está em primeiro. Para nós é uma felicidade enorme estarmos a subir lá dentro e, uma vez que os sonhos é o mote deste ano do festival, vou referir que o nosso próximo sonho é chegar ao palco principal e tocar às 10 da noite! É o que nós ambicionamos e isso faz-nos querer trabalhar mais e ter mais vontade de fazer música mais e melhor para também conseguirmos chegar a esses nossos sonhos. Paredes é um pouco a sombra disso: a primeira vez que fui lá tinha uns 17 ou 18 anos e foi a primeira vez que cantei em público no meio das tendas e foi aí que começou também o meu sonho pela música. Por tudo isto sim, Paredes é O Festival.

MDX – Como é que vai ser o concerto?

Roberto – Vai ser curto, temos certa de 45 min para tocar. Estamos a preparar o melhor set possível, queremos deixar o pessoal com água na boca ou com vontade de ir para casa e explorar mais sobre nós. Vamos escolher as músicas com mais power e vai ter o noiserv, que participa no nosso 2º single deste álbum. Estamos a preparar um concerto com muita força.

MDX – Porque é que devemos ver esse concerto?

Roberto – Para já porque é uma banda que quer marcar presença num festival que para eles enquanto banda os marca muito, por isso se as pessoas quiserem ver algo que as leve a fazer uma viagem muito carregada de emoções, sensações, de fechar os olhos e sentir a música com força, acho que o nosso concerto vai transmitir muito isso, porque nós, para além de músicos, somos festivaleiros daquele festival há muito tempo. Aquilo que gostamos de sentir quando estamos a ouvir concertos é aquilo que vamos querer transmitir e acho que vamos conseguir mostrar isso às pessoas. A nossa emoção vai transparecer para as pessoas que forem ver.

MDX – E o que estão a preparar para o vosso concerto lá fora?

Roberto – Primeiro tenho de me preparar bastante porque tenho medo de andar de avião. Mas mais do que ser um concerto lá fora é um concerto que nos pode abrir muitas portas para uma tour como deve ser, por isso vai ser um concerto onde vamos ter de dar tudo e mostrar que queremos andar por cá e espero que alguém com dinheiro e com vontade de o gastar nos queira assinar um contrato de datas ou algo parecido.

Os First Breath After Coma tocam 6ªfeira dia 19, às 18h, no Palco Vodadone.FM do Festival Vodafone Paredes de Coura e nós estaremos lá para embarcar na viagem prometida, esperamos que vocês também!

+info em Facebook | Website | Música em DX em Paredes de Coura

Entrevista – Eliana Berto
Fotografia – Ricardo Graça | First Breath After Coma