A obediência vê-se como uma forma de submissão. A submissão, acto de servidão ou vassalagem, pode ser encarada com contornos negativos. Ensinar como se desobedece é um acto de supremacia e de libertação. A altivez atinge-se quando se tenta ensinar a arte de desobedecer tornando o espectador, no caso ouvinte, escravo e vassalo do que tem diante de si.

Os My Master the Sun são o Ricardo Falé (voz + guitarra), o João Menor (guitarra), o Ricardo Canelas (baixo) e o Nuno Garrido (bateria) e, após o homónimo lançado no final de 2014, lançam amanhã, dia 14 de Maio, o seu segundo álbum – A Arte da Desobediência. Sem fugir à essência, numa insígnia evolução, estes quatro rapazes criam uma brutalidade de disco.

São 6 as faixas que o compõem e constroem um caminho de 50 minutos. A poética é negra e de revolta. Hipérboles, eufemismos, parábolas. Tudo se usa para transpor os pensamentos e sentimentos perante o mundo e a podridão que nos rodeia entre chamadas de atenção, lutas contra o poder, vinganças, ódios, ganâncias, sangue e fome. A acompanhar as letras, uma voz arrastada de agonia. Sente-se ao longe o cheiro da revolta. Há uma estrutura coesa e densa na forma como tocam, o peso do instrumental deste disco transpõe-se para dentro de nós e suga-nos para uma espécie de mundos crus e mórbidos onde a salvação pode residir no sol, o mestre. É este sol que, de certa forma, espreita e toca levemente com os seus raios a composição instrumental que nos satisfaz e ao mesmo tempo inquieta. Há um manto espesso de guitarras e baixo que se torna impenetrável e incansável. A bateria, no seu percurso estremece os ossos e cria ansiedades. A estrutura criada serve, precisamente, para submergir o ouvinte e deixá-lo prisioneiro de uma rede envolvente e trabalhada de imensidão. Uma imensidão de sentimentos e tonalidades escuras.

A faixa que dá nome ao álbum faz a divisão do mesmo e consegue mostrar outras vertentes de My Master the Sun como a melodia calma que perturba ao mesmo tempo numa dualidade de atmosferas que se combinam entre si na perfeição, tal como na última faixa “Respeito”. A faixa mais curta do álbum, “TV” é, talvez, a mais acelerada e pesada, ganhando ao de leve contornos de sludge metal e ambientes mais crus. De seguida, “Os Corvos Levantam voo” e nós levantamos com eles. A paisagem que sobrevoamos é cinzenta e dá-nos a conhecer o lado mais negro e melancólico de nós próprios tornando-se, ao mesmo tempo, uma fonte de calmaria e tranquilidade.

É esta amálgama de dualidades que torna este álbum magnético e pronto a criar um exército de vassalos. E é este sol, o deles, que nos faz acreditar que há esperança na música e que há bandas a seguir pelo caminho certo.

Os My Master The Sun vão apresentar o álbum amanhã (14), no RCA, com O QUARTO FANTASMA e Earth Drive como convidados.

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+info em https://www.musicaemdx.pt/events/my-master-the-sun-apresenta-a-arte-da-desobediencia/

Texto – Eliana Berto