O dia começou cedo na Moita, a partir das 15h a música iniciava-se e havia que estar preparado para tal. Como se nada se tivesse passado na noite anterior e com a mesma, ou mais sede, o pavilhão ia ficando composto e a vontade de sentir o chão a fugir por entre os pés ia aumentando a intensidade conforme as horas iam passando. As pessoas que estavam ali vivem para aquilo e a paixão pela música de cariz underground é esboçada em cada rosto presente.

O dia de chuva que se viveu naquele sábado aqueceu e secou tudo e todos naquela sala. Os Mindtaker abriram o palco e seguiram-se os Don’t Disturb My Circles, Martelo Negro, Ho Chi Minh e Grankapo.

De fronte para uma sala coberta de suor e euforia, os Dementia 13 apareceram em palco dispostos a provocar inquietação e perturbação. Ecos de cenas de terror invadem o espaço e um poderoso death metal sai pelas colunas. A voz espessa suga-nos a alma e cria ilusões que englobam sangue e destruição. Estamos perante maturidade musical e coesão sonora. Entre os elementos encontramos os dois guitarristas de Pitch Black, o baixista de Holocausto Canibal e o baterista de Colosso e Wako. Ouviram-se malhas como “Room 36”, “They Never Found His Body”, “Conceived In Violence” e “Brotherhood Of The Flesh”.

De seguida, quase com 30 anos de existência, os WEB viriam com uma harmoniosa conjugação entre o heavy e o thrash metal.

Era tempo de abrandar as batidas cardíacas e suavizar o ouvido. Os Hills Have Eyes entravam em palco com muita energia e clareza musical. O público sorria para o palco e os membros da banda sorriam para o público. Os saltos aconteciam tanto em cima como abaixo do palco e as variações de tom vocal eram o auge. Do último álbum – Antebellum – lançado em finais do ano passado, ouviram-se “Antebellum”, “Answers In Blood” e “Oathkeeper”, sendo o resto do alinhamento mais focado no álbum Strangers.

Para além da simbiose de estilos musicais que se vinha a assistir ao longo dos dois dias de festival, seria a vez da personificação desta palavra subir ao palco. Os Simbiose traziam uma mala cheia de grindcore e brutalidade. Com letras em português e 25 anos de estrada voltaram a criar um ritmo frenético entre o público. Era quase impossível para os pescoços acompanhar a bateria e a necessidade de expulsar demónios era gritante. No alinhamento, o último álbum da banda: Trapped e a passagem por temas mais antigos.

Cheirava-se sangue. Os açougueiros e a enfermeira entravam um a um no palco. Os espanhóis Haemorrhage estavam dispostos a espalhar o caos e muito sangue também. A banda de goregrind trazia o objectivo de perturbar, tanto visual como auditivamente. De faixas rápidas e aceleradas, tudo acontecia a uma velocidade e voracidade dementes. O rendilhado bordado pelos instrumentos tanto tinha de apetecível como de assustador. O alinhamento era extenso e entre ele, “Hospital Thieves”, “Flesh Devouring Pandemia”, “Mortuary Riot”, “Exquisite Eschatology” e “I’m a Pathologist”.

Em jeito de lufada de ar fresco viriam os The Parkinsons e a sua aura contagiante da essência do punk puro e cru. Esta loucura estava a fazer falta e Afonso e Vítor incitariam o caos. A regra era a desordem e a excepção o imprevisto. A conjugação instrumental era feita com mestria e gotas de suor enraizado no punk. Nem a febre impediu Paula de dar o melhor na bateria e nem a quantidade de pessoas em palco impediu Afonso de manter as suas performances. É inevitável não ser absorvido por esta fúria coberta de riffs electrizantes. O concerto contou com faixas como “Bad Girl”, “Streets of London”, “Body and Soul” e “So Lonely”. Para mim está no topo dos melhores concertos deste dia.

Para finalizar o dia e o festival chegam os alemães Tankard. Com 34 anos de existência, sem sucesso, como referia Andreas a meio do concerto, mas sempre a tocar, estes senhores da cerveja e do culto ao álcool cumpriram promessas e tocaram sem desdém. Todos os esperavam e a cerca de hora e vinte que se mantiveram em palco compensou tudo. Com uma presença invejável, sempre de cerveja na mão ou a partilhá-la com o público, estes senhores seguiam uma linha que curvava entre o thrash e o heavy metal. A voz coesa e coerente era a melhor amiga dos riffs pesados que a acompanhavam. A insanidade apoderava-se do público e espalhava-se por todos os cantos da sala. Os ecos sentiram-se e as vibrações também. A indiferença não existia, era impossível! Pelo caminho ouvimos “The Morning After”, “Rules For Fools”, “Die With A Beer In Your Hand”, “R.I.B (Rest In Beer)”, “Space Beer”, “A Girl Called Cerveza” e ainda tivemos direito a um encore.

Garantidamente que o festival terminou da melhor maneira.

Resta agradecer ao Moita Metal Fest e a toda a organização pelo excelente trabalho. De realçar a pontualidade, o qualidade da comida, a simpatia do staff e todo o ambiente sentido. Há que elevar a essência do festival, que não se centra apenas num estilo de música mas sim em todas as variantes da música pesada e underground. Os presentes entregavam-se de corpo e alma e, mesmo já sem forças, no final de cada noite, não deixavam de continuar a festa. O palco foi partilhado pelas bandas e pelo público, mesmo quando as bandas estrangeiras não apreciavam a intromissão. O sistema de som, guiado por André Tavares e Nuno Mergulhão (apenas em bandas nacionais) esteve ao mais alto nível e qualidade. Tudo se conjuga da melhor maneira possível para tornar este festival um ponto de referência para muitos, incluindo pessoas de fora do país. Que continuem assim!

Outras fotografias de ambiente durante os dois dias de festival

Texto – Eliana Berto
Fotografia – Daniel Jesus
Evento – Festival Moita Metal Fest’16