Há dias de concertos e há dias de celebração. Há, também, dias onde se pode juntar o concerto à celebração. Ambos aconteceram no RCA Club na noite do passado sábado, dia 19 de Março. A celebração devia-se ao lançamento do álbum Tougher Than Leather de Sam Alone & The Gavediggers, reeditado no dia anterior pela People Like You Records (review Música em DX disponível aqui).

A festa teria início cerca das 22.30 com o mestre do blues e do rock’n’roll Fast Eddie Nelson. Para uma sala já composta, este rei do blues e do country iluminou o palco com a sua garra e talento ao tocar com os dedos nas cordas e fez magia quando encostou os lábios ao microfone. O espírito do rock’n’roll pairava pelo ar e as pessoas entregavam-se ao seu chamamento.

De acordo com o boné de Nelson, ele pode não pertencer a nenhuma classe, mas no entanto, a classe é indissociável da sua música e da sua presença! É tudo tão bom que os ouvidos sorriem e o corpo é impelido a mexer-se e a dançar. Se fechássemos os olhos poderíamos acreditar que estaríamos numa pista de dança dos anos 60 e 70.

A acompanhá-lo tinha Bicho Mitchell na bateria e Cafageste no baixo. Além de músicos, acompanha-o muito talento, carisma e diversão. Em cerca de 45 minutos ouvimos três faixas do último álbum – Roots Run Deep – lançado no ano passado: “Coming To Town”, “Blue Walking Like a Man”e a energética “This Mountain”. Para além disso, Poli Correia participou com riffs e voz na “That Moonshine” e “Dancin’ In The River”.

Depois da agitação criada por Fast Eddie Nelson o ritmo não iria abrandar. Sam Alone & The Gravediggers estavam prestes a dar cabo de tudo! A verdade é que deram! E foi exactamente no bom sentido da palavra.

O rock é sinónimo de partilha, amor, união, comunhão e satisfação e diante de nós criou-se uma nuvem que reunia isto tudo e nos trazia música de mestres, feita por mestres.

Estando-me a repetir, mas não o conseguindo evitar, é sempre importante referir que a música de Sam Alone é feita com alma e coração e talvez seja por isso que fica tão boa. É desta alma e boas energias que é criada uma comunhão generalizada que abarca tanto os músicos em palco, como a plateia, como quem está atrás do balcão. Indiferença foi algo que não existiu nesta noite e, tampouco, maus pensamentos. O Rock é uma família e isso viu-se bem naquele sábado! Quem entra para a família, dificilmente vai sair.

Em cima do palco fez-se música a sério! Em cima do palco tocou-se folk, rock e blues. Em cima do palco mostrou-se humildade e deixaram-se mensagens sobre a vida e para a vida. Em cima daquele palco aprendeu-se que tudo é possível e que desistir nunca é solução. Afinal, ser mais resistente que o couro traz recompensas.

Com um jogo de cordas perfeitamente sincronizadas e alinhadas, uma bateria forte e com presença, umas teclas harmoniosas e uma voz capaz de tudo, o palco de Sam Alone ou Poli foi dividido com o Pedro Matos e o João Brito nas guitarras, Ricardo Cabrita nas teclas, Nuno Marques na bateria e Sara Badalo na percussão e voz. Como convidados, André Murraças no saxofone, que ajudou ao brilhantismo da “This Is A Man’s Man’s Man’s World” de James Brown e Fast Eddie Nelson na guitarra para as últimas três músicas. Sendo que ainda fomos prendados com a belíssima “Breathe Me” de Storm & The Sun (Pedro Matos e Sala Badalo).

O concerto foi completando almas e eliminando tristezas que pudessem existir. De Tougher Than Leather ouvimos “Gardens of Death”, “Shine”, “Believers And Renegades”, “Another Mile”, “Shadow Of A Hero” e “Tougher Than Leather” para terminar.

Pelo meio, “Deathproof” e “Restless” apresentaram-se com um novo arranjo, mais calmo e mais arrastado trazendo, com ele, arrepios e pêlos em pé. Não podia faltar a tão aclamada “Youth In The Dark” e a calorosa e sentida “Warm”. O encore foi feito com a cover de Allen Halloween – “Drunfos” e a “No Class”.

Pela plateia ecoavam em uníssono vozes, declarações, apelos e demonstrações de gratidão.

O que faz um bom concerto, não é apenas a música que saí pela coluna. É também a comunhão. Esta noite trouxe-nos tudo e apenas nos levou uma coisa: a voz. Certamente que a rouquidão se apoderou de muitos no dia a seguir. Venham muitas noites destas!

A tournée começou da melhor maneira. Resta apenas continuarem a ser o que são, a representarem o rock português tão bem e terão a Europa a vossos pés.

Sam Alone & The Gravediggers vão passar por:

30.03.16 (CH) Zürich – Hafenkneipe
31.03.16 (CH) Herzogenbuchsee – Altes Schlachthaus
01.04.16 (DE) Karlsruhe – Alte Hackerei
02.04.16 (DE) Chemnitz – AJZ
04.04.16 (DE) Hannover – Lux
05.04.16 (DE) Berlin – Cassiopeia
06.04.16 (DE) Hamburg – Rock Cafe St. Pauli
07.04.16 (DE) Bochum – Trompete
08.04.16 (NL) Den Bosch – W2

Texto – Eliana Berto
Fotografia – Valentina Ernö (Silvana Delgado)