Fragmentos da memória de desconhecida proveniência surgem soltos sem razão aparente, encaixando milimetricamente no tempo. Vem consideração a propósito do último concerto de Angel Olsen, na ZDB, dia 17 de Março. Em suspenso, sempre aquela imagem de um campo, quem sabe em Saint Louis, terra natal da autora, encostado ao Mississipi, deitado sobre a relva e o silêncio, ou antes, o momento em que se ouve a relva crescer.

Aquela camisa azul às pintas brancas, o pátio da escola primária, as árvores e uma noite de final de Verão ficaram guardadas desde a última vez que tivemos a oportunidade de a ver. Detalhes a que nos agarramos na esperança de que nova visita não demore os mesmos quatro anos que a ZDB esteve à espera para a trazer. A guitarra e a voz e um casaco de Inverno. Lá está ela novamente com a capacidade de convocar o sol e a lua como tão bem a apresenta Nuno Afonso na folha de sala. O primeiro tema a remeter-nos para a dualidade da condição humana, a dicotomia de um ser impregnado de vida, porque já o afirmava Hrabal – é preciso viver para contar. Há estórias, muitas, partilhadas e sentidas por uma sala lotada que se apresentava com um único fito – ouvi-la. Ouvi-la, ouvi-la porque a capacidade de expressar a alma só está ao alcance de uns privilegiados. Sem artifícios. A guitarra e a voz. O deslizar da mão sobre as cordas e as letras, ditas e cantadas. Da autora Half Way Home e Burn Your Fire for No Witness não se espera menos do que resguardo de alma, sublime lampejo que nos aclare dia negro ao mesmo tempo que nos lembra o quanto são escuros. As músicas sobrevoam-nos, envolvem-nos mas não são necessariamente aconchegantes. Não é uma questão de estilo, é o estilo. É a forma de ser de Angel. Capaz de timidamente agradecer os Parabéns cantados em sua homenagem, como lançar piada sobre a obstinação das afinações ou recusar terminantemente tocar Unfucktheworld. É esta tensão entre as melodias de acordes aparentemente simples e as palavras que nos escarafuncham e que nos colocam em suspensão e que tornam o universo de Angel tão marcadamente distinto no panorama da folk atual.

Uma noite de reencontros. Um regresso a conjugar sempre no presente, uma residência na Galeria ZDB quase a terminar e de que se esperam os resultados com bastante curiosidade, materializáveis ou não porque há encontros que não precisam de ficar registados, só saber da sua existência embebedam-nos com novas imagens para povoar o nosso imaginário.

 

Texto – João Castro
Fotografia – Luis Sousa