Há casos em que um repórter inventa umas coisas bonitas no primeiro parágrafo para fazer um lead jeitoso, muleta na qual me apoio com frequência. Não será necessário aqui, basta dizer que os Ensiferum deram um belo concerto para uma horda negra de guerreiros, alguns deles com pinturas faciais ainda mais complexas que o conjunto finlandês. Não chegou para encher o Paradise Garage, mas foi daqueles casos em que os “verdadeiros” ouviram o grito de guerra e acorreram a Alcântara.

A promover o mais recente One Man Army (uma clara melhoria em relação ao murchinho Unsung Heroes) neste seu retorno a Portugal, o quinteto apresentou-se desfalcado da teclista Emmi Silvennoinen, sendo notória a sua falta. Em seu lugar veio a acordeonista Netta Skog que, embora de simpatia contagiante, não se fez ouvir durante a maior parte do tempo e revelou dar uma menor contribuição que o P.A. A verdade é que o som, algo amarfanhado, não ajudou à percepção dos pormenores melódicos, mas também não foi detrimento suficiente para acabar com a festa. Janne Parviainen espancou o kit de bateria diligentemente sem ninguém dar por ele, Sami Hinkka foi um gigante feliz, saltitando de um lado para o outro com o seu baixo de 6 cordas atrás e a dupla Markus Toivonen/ Petri Lindroos sacou riffs ora triunfais ora cortantes e leads incríveis, sendo que o primeiro foi responsável pelas belas vozes limpas e o segundo pelo ladrar monocórdico que sempre o caracterizou (de longe, a componente mais fraca destes Ensiferum pós-Jari).

No que toca à casta de Folk Metal que surgiu um pouco por toda essa Europa fora, os Ensiferum são um produto refinado. Não sendo tão festivos quanto os Korpiklaani, tão sinfónicos quanto uns Turisas ou tão obscuros quanto os Moonsorrow, o conjunto finlandês sempre se pautou por uma mistura inteligente entre a matriz do Melodeath e as naturais influências do folclore finlandês. Essa junção de elementos tornou-os capazes de abrir um concerto a rasgar com um Axe of Judgement (aquela bateria incessante a lembrar os grandes At the Gates) e logo a seguir avançar para o meio tempo marchante de Heathen Horde, com um daqueles refrões meticulosamente preparados para se cantarolar ao vivo.

Foi assente nesta dicotomia festivo/feroz que a banda apresentou um repertório equilibrado durante pouco mais de uma hora. Se numa primeira fase do concerto contámos com sobretudo material da era Petri (onde malhas como From Afar e as acima mencionadas se destacaram), foi a meio se atingiu o primeiro ponto alto da noite. Vindas dum já longínquo passado, Token of Time, Battle Song e a incrivelmente épica Lai Lai Hei (o melhor refrão de sempre para berrar ao vivo, garanto-vos) criaram reacções em alvoroso. Até ao encore ainda o Garage seria brindado com o típico sentido de humor das bandas de Folk Metal escandinavas. Sim, parece uma categorização estranha mas, a juntar ao misto de Metal fulgurante com Disco foleiro de Two of Spades (a lembrar a versão de Daddy Cool dos compatriotas Turisas), a banda tocaria uma ridícula versão de Bamboleo, dos Gipsy Kings, munida de chapéus de mariachi a contrastar as suas pinturas faciais.

O clímax da noite, previamente engendrado claro, seria quando a banda regressou para tocar mais três êxitos. Apresentada após uma escala bluesy de Sami Hinkka, que, de resto, passou a noite em brincadeiras bem-dispostas entre músicas, In My Sword I Trust cavalgou gloriosamente para dar lugar à canção jubilante que é Twilight Tavern. O final seria selado com chave de ferro com Iron, hino de tempos idos cuja melodia foi trauteada em plenos pulmões pelos assistentes.

Antes dos Ensiferum (ou “Ensafarum”, como lhes chamaria o vocalista Ricardo Pombo), os Cruz de Ferro fariam as honras de abertura numa sala ainda muito despida. O som miserável e a clara falta de ligação entre a banda de Torres Novas fez com que o seu Heavy Metal bravio e cantado em português não passasse de um apontamento perante o poderio que os finlandeses exibiriam, mas Auto-de-Fé, Morreremos de Pé e Guerreiros do Metal cumpriram o seu papel e entretiveram os presentes que iam entrando.

Texto – António Moura dos Santos
Fotografia – Luis Sousa
Promotor – Prime Artists