Com o festival a meio e com as almas ainda a recuperar do longo dia anterior, o terceiro dia de festival começa com um toque suave. Debaixo de um sol abrasador, o autocarro sobe rumo ao incerto para mais uma Music Session.

O autocarro pára e há que fazer o resto a pé até ao cimo de um monte onde se encontrava uma pequena capela com uma vista de cortar a respiração, era o Alto do Crasto no Cristelo. Desta vez é a vocalista das Waxahatchee, Katie Crutchfield, acompanhada da sua guitarra que nos vai encantar com a sua voz amena e consistente. A cantora e compositora consegue transformar um cenário que já é belo em algo transcendente. Em apenas 5 músicas, conseguiu fazer com o calor fosse esquecido e os presentes se perdessem na paisagem envoltos pela suavidade das notas musicais que saiam pela guitarra e eram aconchegadas pelo timbre meigo da voz de Katie.

X-Wife

Para a abertura do palco principal, o aperitivo servido continha uma pequena explosão de alegria, energia e saudosismo. O regresso dos X-Wife ao estúdio e a Paredes de Coura foi um acontecimento bastante marcante. O público estava eufórico e abraçou a banda como se de um filho se tratasse. O seu rock embebido em indie e em eletrónica fez levantar algum pó. Entre as músicas servidas encontrava-se o novo single “Movin Up” e malhas mais antigas como “Keep On Dancing” e “On The Radio”. Gerou-se ainda uma onda emotiva quando João Vieira mostrou o filho à plateia.

Grupo de Expertos Solynieve

No palco Vodafone FM estava a acontecer uma festa espanhola. Embora se caracterizem como uma banda indie, o Grupo de Expertos Solynieve são uma mistura de vários estilos onde podemos encontrar indie, música de baile e até algumas notas perdidas de flamenco, não fossem eles da Andaluzia. Fizeram o público abanar-se e espalharam boas energias.

Allah-Las

De regresso ao palco principal, a festa parecia continuar. Desta feita uma festa dos anos 60 frequentada por jovens do Woodstock. Os americanos vieram cheios de força para desgastar as energias dos presentes. O rock psicadélico mesclado com alguns riffs de rock’n’roll e com a alegria e ritmo crescente do surf rock espalhou prazer auditivo pelo anfiteatro natural que se revelou bastante aberto a isso. Por entre o concerto foram-se ouvindo músicas do álbum lançado no ano passado – Worship The Sun – como “Follow You Down”, “Buffalo Nickel” e “501-415”.

Waxahatchee

Em jeito de acalmar os corações que vinham acelerados, Katie apresenta o seu folk bem ao estilo de Alabama, cidade de onde é oriunda. Com um gosto a doçura e sensibilidade, as Waxahatchee não conseguiram puxar o suficiente pelo público. Embora o álbum acabado de sair – Ivy Tripp – contenha faixas bastante alegres e divertidas, ali naquele palco, o ritmo foi ligeiramente reduzido. Entre o alinhamento encontravam-se a “Under A Rock”, “<”, “Poison” e “Air”, todas do último álbum que deixaram um pequeno desgosto nos rostos das pessoas.

Mark Lanegan Band

Era tempo do cantautor americano trazer um rock alternativo aconchegante com uma voz rouca, negra e ligeiramente gasta. A sua figura inerte em frente ao microfone mostrava que não estava ali para fazer amigos, sendo que a comunicação e ligação com o público eram quase inexistentes. Os riffs que a banda produzia atrás de si eram de puro rock e os solos consistentes tentando guiar o concerto a um bom porto que não o de mero contador de histórias. Na mala trazia temas do álbum lançado no final do ano passado – Phantom Radio – como “Harvest Home”, “Floor Of The Ocean” e “I Am The Wolf” e arriscaria dizer que o ponto alto do concerto foi quando interpretou “Atmosphere” dos Joy Division.

Charles Bradley

Já com uma longa jornada de concertos, ninguém esperava o que estava prestes a acontecer em cima daquele palco. Sobe uma banda de 7 elementos, todos vestidos formalmente a rigor e começam a ouvir-se notas de soul para fazer uma pequena introdução. Os instrumentos de sopro dançam em conjunto e o teclista vai entusiasmado ao microfone apresentar o grande ser que estava prestes a aparecer. Eis que entra Charles Bradley já emocionado e humildemente agradecido, como passaria o resto do concerto. Com performances de danças sensuais e provocatórias, a sua voz imponente e a sua postura emocional rapidamente conquistou o público que ficou totalmente rendido, não tivesse o Sr. Bradley passado o concerto completo a dizer que nos amava. O funk e a soul andaram de mão dada o concerto inteiro e de imediato fomos remetidos às décadas de 60 e 70, entre baladas emotivas como “Lovin You, Baby” e “Let Love Stand a Chance” e puro jogo de cintura como “Ain’t It a Sin” e “The World (Is Going Up In Flames)”. Este espetáculo irá ficar certamente na mente dos presentes, não fossem os The War On Drugs terem tocado a seguir e este seria, sem dúvida, o concerto da noite.

The War On Drugs

O sonho começa. Não só aquele que dá nome a um dos melhores álbuns de 2014, mas aquele que nos fez perder durante cerca de 1h15 em melodias demasiado envolventes e mundos imaginários. É esse o poder de Adam Granduciel, com a sua voz meiga e arrastada que faz quase sentir o toque físico da mesma nos ouvidos e na alma. Por caminhos de solos de guitarra astutamente trabalhados, com a companhia do sintetizador e da bateria sedutora o público foi guiado por um trilho ilídico quase transcendente onde só havia uma coisa a fazer: fechar os olhos e abraçar o momento. Garantidamente o concerto deste dia foi melhor do que o de 2014 e talvez o cenário e ambiente tenham ajudado a este feito. Entre “An Ocean Between The Waves”, “Desappearing”, “Eyes To The Wind” e “Under The Pleasure”, todas estrategicamente tocadas a meio do concerto, é difícil identificar o momento alto arriscando afirmar que o espetáculo completo foi o momento alto. A tarefa de destronar o concerto anterior era árdua e eles sabiam, mas ainda assim deram o melhor que podiam e conseguiram.

A verdade é que não havia mais espaço dentro das pessoas para tamanha satisfação que juntou a deste dia à do dia anterior.

Texto – Eliana Berto
Fotografia – © Hugo Lima | Vodafone Paredes de Coura