Linhas oblíquas. Três finas linhas pretas projectadas sobre um fundo vermelho. Um baixo transparente, como prótese, de Ego Sensation e um longo par de calças escarlate com remate à boca-de-sino. A camisa e calças pretas de Dave W. e a t-shirt de riscas desalinhadas do baterista. O primeiro plano, no palco, o segundo, na tela. E no entanto é como de um só corpo se tratasse e com um único objectivo – hipnotizar e atrair o público para o universo muito particular de White Hills. Evocações, chamamentos longínquos como que a fazer-nos lembrar o tema – Let The Right One In.

Continuemos, talvez por largos vórtices ainda, no domínio convocatório que as imagens exercem. Não necessitamos, tal como a personagem de Tom Hiddleston (Adam) no mais recente filme de Jim Jarmusch, Only Lovers Left Alive, de conhecê-los para reconhecer na banda Nova-iorquina a capacidade evocatória das imagens, sejam elas do passado (e quantas há da edição anterior do Reverence Valada), sejam do presente e de um futuro próximo (27, 28 e 29 de Agosto), com a serpente a anunciar mais uma catrefada de bandas para a edição deste ano. Visions Of The Past, Present And Future que durante hora e meia os White Hills, juntamente com Los Saguaros, na primeira parte, e os Djs Tiago Castro e Ana Farinha apresentaram, na passada Quinta-feira, durante a warm-up party.

Há densidade e, ao mesmo tempo, pontos de fuga. Sob as linhas carregadas do baixo, associadas ao correr desenfreado da guitarra em distorção ou sem ela e com bateria a acompanhar ou em contragolpe são engendrados diferentes planos – close-ups, planos sequência ou contrapicados precisos. O foco é diverso. Os momentos acumulam-se. Agarram-nos, largam-nos. Agarram-nos, largam-nos. O corpo acompanha-os, na medida do possível, ora numa espécie de convulsões minimais ora flutuando sobre a sala do Musicbox. Há muito que White Hills deixou de se confinar a um só estilo, se é que alguma vez se pôde exercer tamanha amputação. São psicadélicos, são rock, são kraut, são potência sónica, são groove intenso e destemido. O novo álbum – Walks for Motorists (2015) – é prova insofismável do respectivo poder criativo e temas como We Are What You Are, Wanderlust e Lead the Way meros argumentos que o comprovam. Com Dave W. e Ego um tema não é só um tema. A capacidade que encontram em cravar uma torção sonora, em pontuar cada segmento com ligeiras, ou nem tanto, alterações rítmicas confirma que, independentemente do rumo que a banda queira seguir, este será feito na diversidade, sem nunca comprometer o que testemunha a sua originalidade.

Regressemos ao universo dos amantes, já não o de Adam e Eve, antes ao de Madelaine/Judy e Scott em Vertigo – A mulher que viveu duas vezes, e acreditar no poder da rematerialização. O do Reverence e de bandas como White Hills está garantido. Como espectadores, enquanto houver concertos assim, o nosso também.

[Fotos de White Hills]

[Fotos de Los Saguaros]

Texto – João Castro
Fotografia – Valentina Ernö (Silvana Delgado)
Promotor – Reverence Valada