O Teatro do Bairro, em Lisboa, acolhe no dia 25 de abril a segunda edição do festival Lamiré – Sons da Rua em Palco. Fomos saber que desafios enfrenta a organização de um evento que dá voz aos músicos de rua e descobrimos que a falta de financiamento ainda é o maior obstáculo.

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João Wilson, um dos participantes na edição de 2015 do Lamiré – Sons da Rua em Palco

Hoje em dia, descer a Rua Augusta num sábado à tarde é uma decisão que não deve ser tomada de ânimo leve. Percorrer a principal artéria da baixa pombalina já não é como descer um rio que corre calmamente em direção ao rio, como alguém poderia ter escrito. Há correntes de turistas que se movem em todas as direções e é preciso instinto de navegador para chegar a bom porto. Depois há que ter agilidade no manejo do leme, para contornar os bancos de areia: ajuntamentos de pessoas – ou, quase se poderia dizer, de smartphones – que se formam em redor dos cada vez mais numerosos performers que fazem da rua o seu local de trabalho.

Mas o trajeto impunha-se. Está na forja a segunda edição do Lamiré – Sons da Rua em Palco, e é na rua que se podem acompanhar os últimos preparativos deste festival que, por uma noite, faz descer a luz dos holofotes sobre uma seleção de cinco músicos e bandas que atuam nas ruas de Lisboa e do Porto.

Continuamos a percorrer a Rua Augusta. Deixamos para trás uma tuna académica e algumas estátuas humanas e deparamo-nos, um pouco mais à frente, com um círculo de espectadores que ocupa toda a largura da rua. Um grupo de dançarinos de Kuduro, que se revezam ao som do ritmo produzido por um percussionista incansável, monopoliza as atenções. Toda a gente está parada: muitos para apreciar o espetáculo; muitos porque não conseguem passar. E imediatamente duas ideias ganham forma. A primeira é a de que há talento pelas ruas da cidade. A segunda é a de que organizar um festival que pressuõe a triagem e organização desse talento implica disponibilidade física e mental. Mas também poder de encaixe, porque nem tudo corre de feição quando os bastidores são a rua.

Chegamos finalmente ao Terreiro do Paço, onde uma manifestação pelos direitos dos animais domina a praça e faz ecoar palavras de ordem pelas velhas arcadas: “Direitos dos animais são fundamentais! Direitos dos animais são fundamentais!” É neste ambiente que encontramos Cláudia Camacho, uma das organizadoras do Lamiré. Compenetrada, tenta alhear-se do rebuliço circundante para contactar por telemóvel um dos músicos participantes na edição deste ano do festival, que deveria estar no local, mas que a manifestação parece ter afastado para outras paragens. Na agenda de Cláudia, o dia está reservado à gravação de videos que servirão de separadores às atuações dos músicos, e para isso são necessários dois ingredientes: uma equipa de filmagem e os próprios músicos. A primeira é assegurada por duas alunas do curso de Audiovisual e Multimédia da Escola Superior de Comunicação Social, que já haviam colaborado na primeira edição do festival; o segundo ingrediente não é tão fácil de garantir: a natureza errante dos músicos de rua é um fator de imprevisibilidade. “Não atende…”, comenta Cláudia, com ar de quem faz contas de cabeça. Mas rapidamente a concentração dá lugar a um sorriso que nos sugere estarmos perante uma pessoa que não se deixa desencorajar com facilidade. E não poderia ser de outra forma: pela segunda vez, o festival avança sem qualquer tipo de apoio financeiro.

“Contactámos mais de 30 empresas e foi um desafio tremendo”, comenta. “Tirando aquelas que não nos respondem, que é algo normal no nosso país, temos encontrado respostas assustadoras, que em nada auguram um futuro bom em termos de sociedade. Posso dizer que ao defender este projeto senti pela primeira vez na pele o que é ser vítima de preconceito”, desabafa. “Contámos com a colaboração de uma pessoa que lida normalmente com marcas, e ela própria me confessava não entender o motivo de estarmos a receber tantas negativas. Uma das reuniões foi com uma instituição que neste momento deve apoiar 75% dos eventos musicais em Portugal e após meia-hora de uma apresentação do projeto, em que falámos dos critérios de seleção dos músicos, de eventos semelhantes que existem noutros países, de como foi bem recebido na primeira edição, somos confrontados com esta síntese: “Então este evento reúne os sem-abrigo que estão a tocar nas ruas…” Eu e a pessoa que me acompanhava ficámos a olhar um para o outro, surpresos com a pequenez de um raciocínio que reduz uma iniciativa que procura aproximar a sociedade à sua própria diversidade cultural – diversidade que lá fora é reconhecida e acarinhada – a isto: os músicos que tocam na rua são sem-abrigo. Neste momento, acho que os diretores das empresas deviam dar mais atenção a quem confiam as suas direções de marketing”, conclui.

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Cláudia Camacho, organizadora do Lamiré, e dois dos membros da banda Hasta la Jam.
Fotografia: Pedro Raimundo

De volta ao Terreiro do Paço, é altura de remar contra outras marés. O músico que Cláudia ali queria encontrar está incontactável e é preciso não desperdiçar o resto da tarde. A próxima paragem é o Bairro Alto, onde os Hasta la Jam são os senhores que se seguem. Desta vez corre melhor. Os três jovens músicos que compõem esta banda, André, Rafa e António, estão disponíveis e há que aproveitar a oportunidade para gravar o video da ordem. Encontramo-los na Travessa da Água da Flor, a preparar os instrumentos para a atuação dessa noite, que terá lugar no bar Bibo. Não, estes músicos não tocam exclusivamente na rua. E não são, definitivamente, sem abrigo. Tocar na rua pode ser um último recurso, mas também uma opção. O que procuram estes músicos quando escolhem fugir às quatro paredes?

“O público de rua é mais honesto”, explica André, que no trio toca guitarra e percussão. “As pessoas só param quando gostam. Se o que ouvem não lhes diz nada, continuam o seu caminho. Mas quando gostam procuram interagir, pedem para tirar fotografias connosco e podem até acontecer experiências muito compensadoras. Em Sines, por exemplo, um grupo de pessoas juntou-se quando estávamos a tocar e como não temos letras nas nossas músicas, elas criaram uma espontaneamente e cantaram connosco.”

Mas episódios como este não são a norma. Os contactos que Cláudia Camacho e António Nunes – que co-organiza o festival a partir do Porto – estabeleceram com muitos músicos de rua desde que começou a organizar a primeira edição do festival, permitem-lhes ter uma perspetiva bem diferente da realidade. “Comecei a estar mais atenta e deixava-me um pouco inquieta perceber que as pessoas têm 25, 30, 40 euros para irem ao Coliseu dos Recreios, por exemplo, ver um músico tocar e, no entanto, quando passam por um músico na rua o seu comportamento é muito estranho: há uma fuga de olhares, um evitar do confronto”, diz em tom que denota inconformismo. “Além disso”, continua, “os músicos têm-me confirmado que os portugueses raramente dão dinheiro, ao contrário dos turistas.” O entusiasmo que se torna evidente quando começa a tocar no cerne da questão, sugere que estamos prestes a descobrir a génese do Lamiré.
“Como sou de História de Arte, sei que entre nós (portugueses), o que legitima um artista visual ainda é a exposição num museu ou galeria; e comecei a perceber que o que legitima um músico continua a ser um palco. Então porque não transpor estes músicos para um palco e ver como é que as pessoas reagem? Estarão dispostas a pagar para os ver? “

Na edição do ano passado estiveram presentes no Teatro do Bairro um pouco mais de 200 espectadores. O número, relativamente baixo, foi alcançado sem qualquer tipo de patrocínio que permitisse uma publicitação condigna do evento e esta acabou por ocorrer sobretudo nas redes sociais e através de uma “cobertura pontual por parte dos orgãos de comunicação social, a quem de resto estou muito grata”, confessa Cláudia. Mas se a afluência não foi a desejada, foi contudo suficiente para provar a premissa que levou à criação do festival: a de que o reconhecimento do talento de um músico depende também do contexto em que ele atua.

Para a organizadora do Lamiré, os testemunhos do público presente na edição do festival do ano passado, que decorreu, como sucede este ano, no Teatro do Bairro, foram encorajadores: “Tivemos pessoas que no final do concerto nos vieram perguntar quando era a próxima edição e eu tive de responder que seria só daí a 365 dias”, recorda rindo, “ficou a sensação de que para aquelas pessoas o evento poderia acontecer uma vez por mês. As reações foram muito, muito boas”.

Quanto aos próprios músicos, a reação começa no momento em que recebem o convite. “Não estávamos à espera”, revela Rafa, outro dos membros dos Hasta La jam, “Sabíamos que existia o festival mas jamais pensámos que iríamos ser convidados, ficámos muito contentes. (…) Agora queremos dar o litro, partir aquilo tudo!” remata com boa disposição.

O feedback que Cláudia tem recebido dos músicos que aceitam participar no festival leva-a a crer que a sua motivação não é financeira, o que faz com que essa participação seja um indicador do sucesso do festival. “Não é pelo cachet que eles aceitam atuar. Já me chegaram a confessar que mesmo sem isso eles participariam na mesma. É pela divulgação que podem ter e principalmente pelo incentivo e reconhecimento que recebem. É interessante saber que os Mistiçu, uma banda africana que costuma atuar no Chiado, lançaram um cd depois de terem participado na primeira edição do festival, ou que dois dos músicos então participantes formaram uma banda, os Light of Tunnel.”

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Hau Vo Minh e Kristians Jirgensons: os Ligth of Tunnel na 1ª edição do Lamiré.
Fotografia: Música em DX | Luis Sousa

A tarde vai chegando ao fim no Bairro Alto. O video com os Hasta la Jam foi gravado com êxito. Durante os próximos dias, o trabalho consistirá sobretudo em atar pontas soltas, subindo e descendo as ruas de Lisboa, concretizando encontros e fintando desencontros com os músicos que dão vida ao Lamiré. Para abraçar a organização deste festival é preciso abraçar a rua e ficar sujeita às suas leis… e aos seus estigmas: Quem fala em nome da rua parece não ser, aos olhos das entidades que poderiam dar outra visibilidade ao evento, um proponente, mas sim um pedinte.

Com estes desafios, que perspetivas futuras podem ser alimentadas? “Não sei se haverá uma terceira edição”, afirma Cláudia com pragmatismo. “Mas esta segunda vai haver de certeza”, conclui com um sorriso.

Os bilhetes para o Lamiré – Sons da rua em palco podem ser adquiridos no Teatro do Bairro ou reservados através de:
– Telefone – 213 473 358
– Telemóvel – 913 211 263
– Email – lamirenoitedosmusicosderua@gmail.com.

O levantamento dos bilhetes deverá ser feito no dia do evento a partir. A entrada custa 7 euros.

Mais informação em:
Facebook Festival – https://www.facebook.com/lamiresonsdaruaempalco
Evento Música em DX – https://www.musicaemdx.pt/events/20150425-lamire-2015-sons-rua-palco/

Texto – Pedro Raimundo