Se Deus Escreve Por Linhas Tortas, a Música faz-se em Rua Direita

Corações vazios não escrevem canções”. O quão arrojado é iniciar-se um disco com uma declaração tão marcante? Foi exatamente com ela que Donato Rosa e Paulo Ladeira, a dupla que dá pelo nome de Rua Direita, nos deixam a refletir nos primeiros instantes do seu homónimo primeiro disco.

Oriundos de Leiria, cidade berço do que à atual música nacional diz respeito, os Rua Direita estreiam-se com um disco que consegue reunir sonoridades tão flamejantes que deixam qualquer um impressionado quando se sabe que foi tudo feito por dois tipos que partilhavam um gosto comum pelas melhorias cantorias que se fazem por cá. Tendo começado como projetos individuais, quis o destino unir Donato e Paulo e esperemos nós que os mantenha juntos por muito mais tempo, ou não estivéssemos nós perante um disco que está bem ciente do seu desejo em ocupar um lugar na cena nacional dos dias de hoje.

É algo de irónico o disco começar ao som de “Corações Vazios” quando as próximas sete canções revelam-se uma verdadeira antítese sobre aquilo que é pregado na faixa inaugural, especialmente tendo em conta que é procedido por “Mariana”, single de promoção do disco e que pode ser vista como uma canção de amor dos tempos modernos. Todavia, há um pingo de realidade nesta confissão, descrevendo uma paixão possessiva que se prevê não ter terminado da melhor forma, tal como acontece “Susana”.

Em ambos os temas, há a disparidade entre sonoridades com letras, com tanto “Mariana” e “Susana” a conterem uma lírica simples mas que consegue ser profunda ao mesmo tempo, embora a primeira viva dentro de um ritmo mais alegre do que a segunda. Analisando a parte lírica, nota-se que os Rua Direita têm o desejo de alcançar um público maioritariamente jovem, que consiga facilmente relacionar-se e rever-se nas suas letras, algo que a juventude de hoje em dia, aquela que ouve muito música nacional, têm a prática usual de o fazer.

Para além das desavenças amorosas, há também as questões de personalidade, melhor retratadas em “Gente Igual” e “Morrer de Pé”; ao pop-rock, sempre foi atribuída uma simpleza cativante q.b. que ‘prende’ os seus ouvintes com as suas sonoridades diretas, com a posterior análise das mensagens subliminares de cada tema a ocorrerem depois. Os Rua Direita têm a proeza de conseguirem conjugar estas duas vertentes logo nas primeiras audições ao disco, sendo facilmente um álbum que se ouve uma, duas ou três vezes e deixa sempre aquele desejo de se regressar novamente para o analisar novamente.

Simples e direto seriam os melhores adjetivos para descrever Rua Direita à sua primeira escuta, mas passadas algumas escutas, deteta-se uma complexidade muito superior àquela primeira imagem que nos deixara. Voltando ao álbum, é aí que nos deliciamos com a sonoridade pop-rock apresentada pela dupla, com ritmos frenéticos do início ao fim quer seja em temas vibrantes, de introspeção ou melancólicos. Esta capacidade da banda não significa necessariamente que ele não se reveja em outro registo do que o pop-rock, mas sim que consegue conjugar as guitarras de Donato e as batidas assertivas de Paulo independentemente da mensagem que pretende passar, característica rara nas bandas de hoje em dia.

Se é necessário ter-se um coração cheio para se escreverem canções, isso é lá com eles, mas no seu primeiro disco, os Rua Direita mostram que mesmo com corações vazios conseguem produzir verdadeiras malhas que ficam retidas no ouvido logo à primeira, tal como o pop-rock o exige.

Talvez, quem sabe, se num futuro não tão longínquo, a dupla não mude de ideias sobre o preenchimento necessário de um coração para que este escreva canções, visto que se prevê um enorme afeto por parte dos portugueses capaz de encher o coração dos Rua Direita com tanto amor que estes podem mesmo rebentar pelas costuras.

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Texto – Nuno Fernandes