Concertos Reportagens

Tō Yō no Fuzz: bruxedo e psicadelismo no Cartaxo

A 31 de outubro celebra-se pelo mundo fora o “Dia das Bruxas” (“Halloween”). Em Portugal, perto de Bragança, celebra-se a “Festa da Cabra e do Canhoto”, tradição com raízes celtas. A 1 de novembro, pede-se o “Pão por Deus” de porta em porta. No Cartaxo, especificamente no Fuzz, celebra-se o concerto dos Tō Yō.

Nada melhor que celebrar tradições, portuguesas ou não, com um belíssimo concerto. Tō Yō, banda japonesa, veio ao Cartaxo arrebentar com a sua sonoridade psicadélica e ácida. Uma viagem intergaláctica impossível de explicar por palavras.

A atuação iniciou-se com um toque de bateria para acalmar a agitação do público, que neste concerto foi notável. O Fuzz estava completamente cheio, nem nos conseguíamos mexer. Após o toque da bateria, ouvem-se umas notas do baixo, transformando o clima num ambiente tenso. Quando entraram as guitarras, a casa veio abaixo. Riff atrás de riff, uma verdadeira loucura. Sentia-se no ar a influência do melhor que as décadas de 60 e 70 produziram, desde Hendrix a Pink Floyd, de Sabbath a Far East Family Band.

Senti, por um breve momento, que a música me transportou para um plano de consciência onde o horizonte se dissolve na eternidade. Nem percebi se a música tinha passado ou não; aquilo “bateu” tão bem que me curou as mágoas todas num instante.

O baixo era pulsante, como um coração, a bateria era o motor desta engrenagem e as guitarras falavam com o público. Parecia mesmo que havia uma conexão íntima entre estes, um “toma lá, dá cá!”. Quanto mais a banda “falava”, mais o público respondia abanando a cabeça. Ouvia-se até o respirar deste. Claro que tudo isto foi possível devido aos sons orgânicos e aos ritmos hipnóticos que os Tō Yō incorporam.

À medida que a atuação se ia desenrolando, o público mostrava-se cada vez mais eufórico. Porém, uma euforia controlada. Sustento que a efervescência do momento era contida pela precisão melódica, transmitindo uma notável paz de espírito aos que assistiam ao concerto.

Depois das duas primeiras músicas, tocaram “Kosa”, single do mais recente trabalho “Yardang” lançado este ano. Uma música com uma duração de 11 minutos, porém ao vivo, possivelmente, excedeu-se porque a improvisação e a experimentação são dois elementos bastante importantes na sonoridade da banda. Outros elementos são as jams que a banda adora fazer ao vivo, trabalhando a comunicação entre os elementos do grupo. Também dizem que é algo como uma “fusão entre o músico e o instrumento”. No Fuzz, acho que não houve distinção entre músico e instrumento: eram um só.

Para fechar a noite, tocaram “Marconi Transmitter”, também do segundo e mais recente trabalho. Ao ouvir esta música, pela qual nutro especial apreço, recordei a totalidade das paisagens observadas durante a minha vida. Seja na minha terra natal, seja em viagens. Contudo, o aspeto mais relevante é que, durante a execução, visualizei recorrentemente um pôr do sol em tons que oscilavam entre o magenta e o âmbar. Que momento incrível!

Como o público não estava satisfeito, após diversos crowdsurfings e aplausos, perante uma grande insistência, houve direito a um encore. O tema escolhido não podia ser melhor: “Satori Part 3”, dos Flower Travellin’ Band. Uma cover de uma música de 1971, cuja melodia remetia um pouco a Black Sabbath. E, sendo Halloween, não havia melhor combinação para fechar um concerto. Assim que o baixo iniciou o riff, o público delirou. As guitarras seguiram-se e a bateria compôs o que restava, concluindo mais uma noite extraordinária que não poderia ter acabado da melhor forma.

O Fuzz estava a “arrebentar pelas costuras” devido a tanta gente. Possivelmente, este terá sido o concerto em que mais espetadores estiveram presentes. O som estava alto e bom, não se podia esperar outra coisa do trabalho do enorme Paulinho.

  • 20261031 - Tō Yō @ Fuzz Cartaxo
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  • 20261031 - Tō Yō @ Fuzz Cartaxo
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© António Gomes “Toni do Rock”

A noite continuou animada com o DJ Set do Tsunami e da Bárbara, onde o gosto musical mexeu com os corações dos que ainda se atreveram a pisar a pista de dança. Entre Korn e Metallica, Talking Heads e B-52’s, a música divertiu as pessoas que se encontravam no Fuzz. Fosse a dançar, fosse simplesmente a “pôr a conversa em dia”. Contudo, não posso deixar de parte o gosto dos mascarados. Sendo Dia das Bruxas, as pessoas vestiram-se a rigor. Alguns optaram por disfarces mais simples, outros por mais arrojados. No meu caso, mascarei-me de mim mesmo: Toni do Rock.

  • 20261031 - Tō Yō | After Party @ Fuzz Cartaxo
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© António Gomes “Toni do Rock”