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Clap Your Hands recebeu Noiserv e Grutera numa noite de celebração da música portuguesa

O Teatro Miguel Franco, em Leiria, voltou a acolher uma célebre experiência promovida pela parceria da Omnichord e Fade In, integrada no Clap Your Hands Fest. Um festival que ao longo dos anos se tem afirmado com uma programação dedicada à música portuguesa contemporânea e às suas margens criativas, voltou a dar espaço a um encontro, onde embora percorram caminhos distintos, os dois artistas partilham a mesma forma de entender a música, como espaço de descoberta, contemplação e proximidade. A noite contou com os ecos sonoros das guitarras de Grutera e do talanto do multi-instrumentista David Santos, mais conhecido como Noiserv.

A primeira atuação pertenceu a Grutera, um projeto de Guilherme Efe que continua a desafiar as convenções da guitarra clássica. Em palco, cada camada construída parece convidar o público a desacelerar, a encontrar beleza no detalhe. Através de harmonias, repetições e pequenas variações tímbricas, a guitarra deixa de assumir apenas uma função melódica para se transformar num veículo de exploração de texturas e paisagens sonoras onde a experimentação nunca perde o lado humano. Numa viagem que nos levou desde músicas mais antigas a algumas mais recentes, a viagem por esta discografia enchia a sala com a melodia de cordas vibrantes. A mão direita desenhava um movimento contínuo, fluído e preciso, enquanto a esquerda percorria o braço da guitarra com uma naturalidade quase coreográfica. Cada gesto parecia prolongar a intenção da nota anterior, fazendo com que a música se desenvolvesse organicamente com a honestidade de uma linguagem muito própria.

Depois entra Noiserv em palco. Recebido logo com aplausos de carinho, uma luz ténue pronuncia-se, como um nascer do sol e a atuação começa logo de forma estrondosa. Celebrando vinte anos de carreira e apresentando o universo do seu mais recente álbum, “7305”, David Santos voltou a demonstrar porque continua a ser uma das figuras mais singulares da música portuguesa. O conceito de “one-man band” permanece apenas como ponto de partida para uma atuação onde instrumentos acústicos, objectos do quotidiano, elementos eletrónicos, loops e voz coexistem com uma naturalidade desarmante. Fazendo parecer simples aquilo que, na realidade, é de uma complexidade impressionante tudo acontecer diante do público, até que as canções ganham corpo e respiram. As suas composições carregam inúmeras camadas, mas nunca se afastam da emoção e do sentimento que cada uma traz. Sendo essa a razão pela qual cada concerto cria uma atmosfera única e memorável como quem conversa com velhos amigos ou escreve cartas que nunca tiveram destinatário, Noiserv constrói universos onde o sentimento se tornar matéria-prima.

As primeiras e as últimas batidas do concerto chegaram vestidas da eletrónica que atravessa “7305”, mais pulsantes, mais densas, como se Noiserv nos dissesse antes de qualquer palavra, que a memória não vive parada e que também ela aprende novas formas de respirar. As novas composições são sentidas com colaborações de diversos artistas portugueses emergentes, embora não presentes no concerto, foram sempre mencionados antes de cada música. Entre essas duas músicas existiu uma biografia inteira, uma vida de criação representada. Ao longo do concerto, as músicas mais recentes cruzaram-se naturalmente com temas que marcaram diferentes fases da sua carreira. O alinhamento desenhou um percurso contínuo onde as canções dialogavam entre si, independentemente da distância temporal que as separava. As mais antigas mantêm intacta a delicadeza que as tornou marcantes e as novas revelam um artista que continua disposto a experimentar sem nunca perder a identidade que o caracteriza. As canções mais antigas surgiam como fotografias encontradas numa gaveta e entre temas recentes e composições que moldaram o percurso de Noiserv, desenhou-se uma linha invisível onde os anos deixaram de ser um número para se tornarem uma sucessão de respirações, cicatrizes, descobertas e vitórias. Cada canção parecia representar um tempo diferente da mesma vida, despretensiosa, generosa e profundamente humana.

Para um território onde a música não procura respostas, cada som parece desenhar um caminho invisível, como quem acende pequenas luzes para guiar quem ainda não sabe exatamente para onde ir. E aí, entram os seus visuais emblemáticos e projeções que ajudam a dar forma à história contada pela poesia das letras. As imagens evoluíam ao ritmo das camadas sonoras, acompanhando a construção dos loops e reforçando a dimensão imersiva de um concerto onde som e imagem pareciam crescer em conjunto. Entre mensagens políticas, mensagens de união, respeito e amor, tudo nos leva para um sentimento de que somos mais forte e melhores juntos. A importância da empatia, onde o individualismo de cada um é respeitado e apreciado, da criação coletiva, do respeito pela diferença. E é esta a grande mensagem de Noiserv, sempre com criativade e união.

E depois de percorrer memórias, cicatrizes, descobertas e vitórias, o círculo fecha-se e o os aplausos respeitosos sentem-se. O concerto desenhou, assim, um círculo onde passado e presente coexistiram com naturalidade, lembrando que a identidade de Noiserv nunca esteve presa a uma fórmula, mas à permanente vontade de continuar a descobrir. Mais do que apresentar um novo álbum ou revisitar um catálogo que marcou a música portuguesa das últimas duas décadas, Noiserv voltou a confirmar a singularidade do seu lugar no panorama nacional.

Num cartaz construído sobre a música portuguesa e como esta continua a encontrar na curiosidade, na experimentação e na vontade de evoluir algumas das suas maiores virtudes, Grutera e Noiserv ofereceram duas perspetivas diferentes de uma mesma inquietação artística. O Clap Your Hands Fest voltou, assim, a afirmar-se como um evento onde cada concerto acrescenta uma nova camada à identidade de um festival que continua a crescer pela consistência e qualidade das suas escolhas.

  • 20260724 - Clap Your Hands | Grutera + Noiserv @ Leiria
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