Por vezes pergunto-me o que gosto tanto no stoner, aquele estilo musical não muito antigo, com capacidades hipnotizantes e calor na densidade.
Concerto após concerto (sim, porque é nos concertos que somos absorvidos por uma energia quase sobrenatural) vou encontrando denominadores comuns como desertos, coiotes, dunas douradas pelo sol, viagens que não controlamos e um calor que me deixa sempre com uma sensação de saciedade quase indescritível.
Era noite de santos populares em Lisboa, o calor era muito e aumentou mais com o chamamento em espécie de ritual aos deuses (ou aos demónios) da música na noite de 12 de Junho, na sala 2 do LAV.
Ainda com um sol alaranjado quase a desaparecer, os Madmess subiram ao palco, agora com mais um elemento nas teclas, sintetizadores e guitarra. É clara a influência dos anos 70 nestes rapazes. O psych, prog e um ligeiro cheiro a desert fazem parte da sua identidade. Os pedais, o fuzz, os solos de guitarra a distorção e as várias velocidades que têm criam uma boa ambiência. Foi apresentada ao vivo “Wrinkle in Time” pela primeira vez e o baixista afirmou estar na terra rival, ao saudar o público. Lamento, efetivamente, que as pessoas do norte continuem a encontrar uma rivalidade. Não é recíproca nem agradável de sentir num concerto.
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Uma enorme surpresa viria a seguir com Dirty Sound Magnet. Um trio de suíços que trazia com eles uma espécie de magia e uma mestria no manuseamento dos instrumentos que se sentia ao longe.
Stavros Dzodzos não tem uma voz incrível, mas sabe disso e faz com que ela soe lindamente no meio da ambiência que cria com a sua performance e presença, usando-a, muitas vezes, como instrumento.
Com quase 20 anos de existência, este trio provou que está mais sólido que nunca e levou-nos por paisagens sonoras cheias de harmonias e cor. O cruzamento sonoro fazia-se com solos virtuosos, um baixo headless cheio de personalidade e uma bateria extremamente aconchegante. As faixas longas, faziam-nos sonhar com Zeppelin, um Hendrix envergonhado, com a profundidade de King Crimson e com a beleza leve de uma psicadelia dos anos 70, a sentir a liberdade de um Woodstock. Se olhássemos com pormenor, tudo nesta banda era poético. Desde o quimono, ao chá, às danças e à proximidade espiritual dos músicos. Se fechássemos os olhos poderíamos perder-nos entre uma natureza translúcida e a simples leveza de um momento onde o sonho se confunde com a realidade.
Voltam em Novembro e prometem um set maior!
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Um pouco depois das 22h vinham as estrelas da noite. Mas eram aquelas alimentadas por matéria escura num universo primitivo. Com uma intro de filme de terror dos anos 80, envolvidos num breu que tão bem os caracteriza, os Uncle Acid & The Deadbeats foram brutos. Aquela brutalidade onde, sem pedir licença, nos colocam repentinamente num universo paralelo. Aquele que inicialmente nos deixa dormentes mas que depois nos faz sentir em casa.
Raramente abri os olhos neste concerto. Nem era preciso. Aquilo que nos trouxe Kevin e os seus Deadbeats foi uma travessia por diversos tipos de densidades e tempos. O guitarrista, mestre nos riffs cheios de fuzz levava-nos a idealizar cores disformes a entrelaçarem-se na nossa mente. Sopros, coros, a voz aguda e longinqua de Kevin e um ritmo alucinante que parece que sai das entranhas e nos tira o ar por segundos. Tudo parecia uma viagem rápida por entre um luar quente onde o caminho estava todo por desbravar. Sim, passeei no deserto outra vez. Sim, voltei a uivar com coiotes por entre cactos e dunas. O regresso foi tenebroso! Quase que nos arrancou do universo de deleite onde já estávamos colados. Ficámos com pedaços colados a nós e deixámos pedaços de nós colados naquele lugar.
O alinhamento contemplava a maioria da sua discografia, dando maior destaque a The Night Creeper, aquele que é um dos melhores álbuns deles, na minha opinião, Mind Control, Wasteland, Blood Dust, entre outros discos, também nos assombraram as almas e apertaram o coração com o manto oculto de um apocalipse idealizado.
A interação com o público foi quase inexistente. Mas para que precisávamos dela se nem estávamos ali?
A despedida fez-se com “No Return” que, efectivamente, não os trouxe de volta, só a nós!
Continuo a lamentar o comportamento do público português em salas de espetáculo. Aquele que sonha que a rebeldia que têm ao contrariar regras lhes dá mais personalidade!

































































































