Senhor Vulcão acaba de editar “Boca de Fogo”, o seu quinto disco de estúdio, já disponível nas plataformas digitais. A acompanhar o lançamento do álbum, o artista apresenta também o novo single e respetivo videoclipe “Dentes Tortos”.
Depois dos avanços “Rock N Roll” e “Ratos em Nova York”, o novo trabalho aprofunda o universo poético e sonoro que Senhor Vulcão tem vindo a construir ao longo do seu percurso. “Boca de Fogo” apresenta-se como um conjunto de dez canções que cruzam poesia, folk, rap, lo-fi, downbeat e punk, afirmando uma linguagem híbrida que escapa a classificações fechadas.
Escrito entre a Buraca e um imaginário urbano que se estende até Nova Iorque, o disco constrói-se a partir de uma tensão entre lugares, referências e experiências. As canções nascem de contextos marcados pela intermitência – “baldios e espaços com luz intermitente” – mas afirmam-se como exercícios de resistência, onde a reflexão individual e coletiva se cruza com uma ideia persistente de esperança.
Ao longo do álbum, Senhor Vulcão propõe uma escuta que apela simultaneamente ao pensamento e à emoção. Entre a inquietação e a procura de sentido, “Boca de Fogo” aponta o conhecimento pessoal como forma de cura, reclamando, mesmo em estado de revolta, a paz, a união e a ternura como horizonte possível.
O disco mantém a recusa de barreiras estilísticas que tem marcado o percurso do artista. Sem se fixar em convenções ou rótulos, a música afirma-se como espaço de liberdade, onde a palavra ocupa um lugar central – dita, cantada ou declamada – num registo direto e sem mediações.
Neste contexto surge “Dentes Tortos”, single que acompanha a edição do álbum. O tema prolonga a abordagem crua e incisiva de Senhor Vulcão, reforçando a dimensão narrativa e oral da sua escrita, numa canção que se inscreve na mesma lógica de tensão entre o íntimo e o coletivo que atravessa todo o disco.
“Boca de Fogo” tem sido descrito por diferentes vozes do panorama musical como um objeto singular no contexto nacional. Para Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), trata-se de “algo nunca antes visto em Portugal”, sublinhando a forma como o disco cruza “folk, rap, punk e poesia inspirada na beat e em Pessoa”. Já RAY sintetiza o seu eixo central: “os beats são de Nova Iorque, a poesia é da Buraca, o Senhor Vulcão é do mundo”.
Também Afonso Rodrigues (Sean Riley) destaca a força do trabalho enquanto gesto de afirmação num tempo complexo, apontando a capacidade do artista para “chamar as coisas pelos nomes” e sublinhando uma produção “de enorme bom gosto e sofisticação”. No mesmo sentido, Nuno Figueiredo (Virgem Suta) descreve o disco como “uma rajada de consciência”, enquanto Fausto da Silva (RUC) realça a combinação entre novas “roupagens sonoras a piscar o olho ao hip hop” e uma escrita “incisiva e acutilante”. Já João Nuno Silva (A Certeza da Música) sublinha a independência estética do projeto, descrevendo-o como “música que não anda atrás de nenhuma modinha e simplesmente existe porque é assim que o seu criador a sente”.
Senhor Vulcão – alter ego de Bruno Pereira – é uma figura singular do panorama cultural português, com um percurso que atravessa a música, a escrita, as artes visuais e a direção criativa. Nascido em Lisboa em 1976, cresceu na Buraca, num contexto urbano marcado pela diversidade cultural, antes de se mudar ainda jovem para o campo, experiência que viria a influenciar de forma determinante a sua relação com o espaço, a linguagem e a observação do quotidiano.
Formado em Design de Comunicação pelo IADE, onde chegou também a lecionar, fundou em 2000 a agência Labdesign, desenvolvendo ao longo das últimas décadas um percurso consistente enquanto diretor criativo. Trabalhou com artistas como Rita Redshoes, Márcia, Ena Pá 2000 ou Norton, e com marcas internacionais como Nike, Adidas, MTV ou Onitsuka Tiger, afirmando-se como uma referência no campo do design e da comunicação visual.
Paralelamente, tem desenvolvido uma prática contínua nas artes visuais e na curadoria, sendo fundador e diretor artístico do Departamento, um projeto dedicado à criação e amplificação cultural, responsável por iniciativas como o BOLD Creative Fest ou o projeto Manifesto. Como artista plástico, expõe há cerca de três décadas, com trabalhos apresentados em diferentes contextos institucionais e independentes.
A palavra, no entanto, permanece o eixo central do seu trabalho. Enquanto escritor e poeta, editou em 2023 o livro “Flor em Vaso não será Floresta” e prepara a publicação de novas obras, incluindo os títulos “As Raposas estão a arder” e “Parafernália. Pranto Foguetes e Luz”, bem como o seu primeiro romance, “Carcaça”. A sua prática estende-se também ao spoken word, tendo sido distinguido em 2024 em competições de Poetry Slam.
Na música, Senhor Vulcão tem vindo a afirmar um percurso autoral desde “Montanha” (2013), seguido por “Canções do Bandido” e “Flores do Bem” (2015), “Mansidão e Blandícia” (2019) e “Bixos Bons” (2021). Ao longo destes trabalhos, construiu uma linguagem própria, profundamente enraizada na oralidade e na exploração da língua portuguesa, onde convivem humor, crítica social, afeto e observação.
“Boca de Fogo” surge assim como a síntese desse percurso – um disco que reforça a centralidade da palavra e a liberdade formal que define o projeto. Entre a Buraca e Nova Iorque, entre o concreto e o simbólico, o álbum constrói-se como um retrato inquieto do presente, onde a expressão artística se afirma como gesto de resistência.
Fotografia (capa) – Paulo Romão Brás



