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Entre sombras e melodias: a passagem de Jay-Jay Johanson pelo Porto

Após uma apresentação dignamente repleta de público em Lisboa e outra abaixo de calorosa numa Coimbra a carecer de cuidados paliativos, Jay-Jay Johanson rumou a norte em direcção à sua terceira apresentação de quatro em solo nacional, na ronda de promoção de “Backstage”, lançando em Junho do corrente. Melhor – rumou AO NORTE, àquela região portuguesa que não se dá por feliz com um segundo lugar e que não admite ser uma segunda escolha, mas que tanto endeusa e acarinha quem a eleva, quem prova dela ser digno representante. A chuva fez o favor de estar ausente, por outras paragens, prometendo o seu regresso em breve e deixando no ar aquele cheiro metálico que combina com o Porto, como uma banda sonora discreta de um filme de série B ainda por estrear. Às 20h30, a Sala M.Ou.Co, ali para os lados do Bonfim, ainda não dava a entender a alguém que, passadas cerca de duas horas, os presentes dela sairiam com uma barriga cheia de trip-hop de primeira categoria proporcionada por um dos melhores representantes do género a nível global. Em 2026, “Whiskey”, o seu disco de estreia, comemorará 30 anos, que são tantos quanto a carreira do crooner sueco e que, apesar de se centrar no trip-hop, dele não depende, revestindo as suas criações com outros géneros musicais, caso do downtempo e da electronica, aos quais o jazz não é um estranho.

Uma noite de Jay-Jay Johanson, portanto, com Surma a abrir o ritual. Lá dentro, o ambiente já tinha angariado aquele tom de penumbra cúmplice que a M.Ou.Co sabe criar. A sala não é excessivamente grande ou pequena, mas do tamanho certo, com uma acústica que parece ter sido encomendada especificamente para concertos e onde o próprio silêncio é mais um instrumento musical. Os rostos dos primeiros convocados foram banhados por uma mescla de azuis, lilazes e brancos, com conversas sempre atravessadas por bebidas saídas de um bar que não teve mãos a medir. Afinal, tratava-se de casa cheia. No exterior, ouvimos alguém dizer “Com Surma a abrir, vai ser espectacular.” Não estava enganado. Às 21h em ponto, a artista — uma figura delgada, eléctrica, que aparentava ter fios invisíveis ligados à tomada —  pisou o palco. Os seus aparelhos (teclados, pedais e outros pequenos instrumentos que pareciam objectos vindos de uma cava de testes secretos) já estavam a postos e, com um foco de luz branca que nela incidia e que lhe recortava o rosto, não precisava de mais nada.

Uma actuação de Surma é um aglomerado de texturas electrónicas, camadas de voz processada e loops que a artista assembla ao vivo, explorando e experimentando naturalmente. A música de Surma é uma amálgama orgânica que se encontra em constante mutação. Tanto pode ter arestas mais bem limadas e suaves  (“Maasai”), como apresentar vértices graves pontuados por fuzzes contundentes a lembrar Mudhoney, assim como pode entrar no campo da electronica/industrial, com aqueles laivos etéreos de Cocteau Twins ou Tangerine Dream (“Huvastï”). Se muitos a comparam a Joanna Newsom por causa da voz, dizemos nós que tal não poderia estar mais longe da verdade, pelo menos em termos de composição, mas improvisada do que clássica e, claramente, nada nostálgica. Prestou uma actuação muito boa, com todos os olhos fixados em si. Em vez de ter sido apenas um nome de apoio, Surma fez mais do que isso – não desbravou caminho para o cabeça de cartaz, preferindo pavimentar a sua própria estrada por entre um território emocional muito pessoal, o que permitiu ao público trilhá-la. Agradeceu profusamente e, reforçando a ideia anterior, não só apresentou o seu trabalho, como teve a difícil tarefa de preparar o público para o que veio a seguir. Fê-lo, sem qualquer dúvida.

A transição foi discreta e a equipa técnica ajeitou o palco rapidamente: bateria ao fundo, teclado à esquerda, microfone ao centro. Os instrumentos, envoltos num luz ténue e fria, criaram a estética perfeita para o ambiente noir de Jay-Jay Johanson. Quase a deslizar, esguio e com o corpo ligeiramente inclinado, o sueco entrou em palco e recebeu um aplauso que não foi ruidoso, mas caloroso. Sem grandes demoras, perguntou se estávamos bem e preparados para uma noite de diversão, lançando-se directamente a “Finally”, segundo tema do álbum “Fétish”, de 2023. Os arranjos de cordas e a batida de trip-hop do tema, indecorosamente roubados a Brahms e a Gainsbourg, são os cartões de apresentação perfeitos, tanto para os incautos desconhecedores do “maestro”, como para ambientar os habitués da sua obra. Tudo se confunde e mistura num concerto de Jay-Jay: a subtileza encerra em si muitas horas de trabalho; a candura romântica, quase sempre dramática, revela uma pessoa à procura de um porto de abrigo emocional e, acima de tudo, a fragilidade que o artista demonstra não é pose, mas, sim, matéria-prima para as paisagens sonoras que vai desfiando.

“So Tell the Girls That I Am Back in Town”, talvez o clássico maior do nórdico, veio de seguida. Já falámos na delicadeza das cordas de Brahms e da chanson de Gainsbourg, mas fazer com que um theremin funcione num tema de trip-hop de alma dorida é coisa para adultos. Ainda só íamos na segunda música e já estávamos de peito cheio. Erik Jansson, o teclista que anda em digressão com Johanson, adicionou uma camada electrónica mais inorgânica que empurrou a canção para um território mais sombrio do que nostálgico. O público reagiu com cumplicidade, pois é um dos momentos chave de um concerto de Jay-Jay, mas esta versão que ouvimos estava mais triste, menos pop, mais “fim de noite”. “Backstage”, “No Time Yet” e “Where’s The Cat?”, entre outras, foram escorrendo ordenadamente por entre os  nossos ouvidos. Não ficámos com a mínima dúvida de que, pelo menos nesta digressão, os momentos altos da actuação foram previamente bem estudados e estruturados. Contudo, o que mais nos marcou foi a percepção de que, com 57 anos, a voz de Joahnson soa a 1996, a uma personagem cuja juventude é digna de um conto de Barrie — não só é jovem, como recusa crescer. Essa recusa repetiu-se até “Born Sleepy”, dos Underworld, que finalizou o espectáculo como música de fundo. Como se crescer fosse algo indesejado, algo perigoso. Algo como uma armadilha. E não será?

Era tempo de “The Girl I Love Is Gone”, outro momento que muito agrada ao público conhecedor da obra do escandinavo. Fredrik Wennerlund, o homem por trás da bateria, teve um dos seus momentos altos a executar uma música cuja percussão parece um som de fundo, ligeiro, quase lo-fi. “How Long Do You Think We’re Gonna Last” e “She Doesn’t Live Here Anymore” foram os momentos altos antes de a sala mergulhar em total e profundo silêncio. Jay-Jay começou a entoar, a capella, «It’s Saturday evening, I sit by the phone, Planning to call you, ‘Cause I’m all alone», o refrão inicial de “Whispering Words”. O público, bem ensinado que estava (ou, talvez, porque certos artistas e os seus públicos beneficiam naturalmente de simbioses mútuas), não fez um único som. A proverbial frase “Podia ouvir-se uma agulha cair” seria bem aplicada, tal foi o respeito e reconhecimento por Jay-Jay. No final, o público, tentando não abafar a voz de Joahnson, repetiu o último refrão em uníssono, de forma audível, mas quase imperceptível, o que antecedeu uma enorma e ruidosa ovação, como se, há meros segundos, a sala não estivesse cristalizada num silêncio sepulcral. Momento memorável e que, certamente, viverá sem pagar renda na cabeça dos presentes durante muitos e muitos anos.

A média de idades do público teria de ser “acima de 40”, o que é natural se pensarmos que “Whiskey”, o disco de estreia de Jay-Jay Joahnson, foi lançado em 1996, quando muitos de nós andávamos na casa de entre os 20 e os 25 anos. Ouvimo-lo nessa altura e recordamo-nos bem do impacto que teve: era algo novo, singular, de altíssima qualidade, deveras emocional e fresco, para além de cool. Aquele cool dos anos 1990 que já não regressa por mais que se tente, aquele cool impossível de imitar por ser algo tão natural que apenas se poderia obter nessa época. Ainda no final da década mais emocionante do primeiro milénio da nossa era, em 1998, o sueco voltaria à carga com “Tattoo”, o seu disco de real consagração e cujo single inicial, “Milan, Madrid, Chicago, Paris”, que ouvimos de seguida numa sala repleta, nos soou idêntico a quando o auscultámos pela primeira vez.  “Tomorrow/Quel Dommage”, a imprescindível “Heard Somebody Whistle” e, para finalizar a actuação, “Believe In Us”, um dos últimos suspiros desses anos. Como é habitual, a banda ainda regressaria a palco para um encore.

Desta feita, o entertainer iniciou a rendição de “L’Amour Est Bien Plus Fort Que Nous”, um clássico da chanson e que, poucos sabem, foi mais uma “apropriação” do sueco. De copo na mão durante quase todo o set, não conseguimos perceber o que bebia o sueco. “Are you drinking gin, Jay-Jay?” – ouvimos alguém no público questionar e receber como resposta um aceno negativo do cantor. O que Joahnson bebe constantemente é “Whiskey”, do qual fez um medley com a música anterior. Pudera — o andamento principal do clássico francês é o mesmo que Jay-Jay utiliza em “It Hurts Me So”, pontapé de saída para uma carreira que não só se centra na música como ainda cruza caminhos com algumas personalidades e até marcas e instituições completamente alheias a esse universo: Cristóbal Balenciaga, Sprite, Academy Awards, The Sims, Apple… questionamos se será Jay-Jay que tem uma carreira ou se será a carreira que tem um Jay-Jay, visto que ambas as coisas se confudem facilmente, longas e diversas que são.

O trio encerrou a actuação com chave de ouro quando verteu mais uma dose de “Whiskey” vintage num copo totalmente vazio, sorvido pelo público ao longo de aproximadamente 90 minutos. Embora despida da deliciosa e inocente citação a capella que consta no disco de estreia, “I’m Older Now” conseguiu, mesmo assim, transportar-nos para um tempo em que as nossas maiores preocupações eram saber quais os discos mais interessantes do momento, em qual bar ou discoteca iríamos acabar a noite (no Indústria ou no Swing? No Alcântara ou no Incógnito? No States ou na Cave das Químicas?) e como convenceríamos os nossos pais de que um cartaz com Placebo, P. J. Harvey, Portishead, Yo La Tengo, Sonic Youth e The Cure ou um outro com Beck, Skunk Anansie, The Charlatans, The Smashing Pumpkins, Scorpions, The Prodigy e Apollo 440 justificavam repetir um semestre (quiçá, dois) na faculdade. Sabemos bem que não podemos regressar no tempo, não literalmente, portanto, dêmo-nos ao prazer de, pelo menos, revivermos os nossos tempos áureos com memórias que são nossas e apenas nossas.

Após o tema final, Jay-Jay Joahnson não saiu de cena – abraçou-a! Ao som da versão de “My Way”, de Sid Vicious, o sueco desceu do palco e desatou a cantar a música e a abraçar o público, simulando slam e não se desgrudando daqueles que o seguem há muito, muito tempo. «Ele é todo sentimental e melancólico, mas, no fundo, por dentro, é um punkalhão!» — confidenciou-nos um dos membros organizadores da Crowdmusic, a quem o artista sueco está rendido e a quem confia a produção dos seus concertos em Portugal, por vezes em Espanha. O público respondeu da mesma forma amigável, abraçando-o, falando com ele, sorrindo, confuso com o momento inesperado da parte de um artista gigante da nossa geração, assim como  de outras. Findo isto, fez questão de falar com quem quer que dele se aproximasse, de autografar discos, tirar fotos, com tempo, sem pressa. Retirou-se com os restantes elementos para o camarim e prometeu regressar ao exterior para conviver com os fãs um pouco mais.

No foyer, Surma falava com quem dela se aproximava para a parabenizar por mais uma actuação plena e confiante. Débora deveria ser mais falada cá dentro, principalmente quando, lá fora, tantas loas lhe são tecidas. Pouco depois, Jay-Jay regressou, voltou a assinar mais material, de t-shirts a cartazes, de discos a CD, falou com o público, sempre sem pressa, ouviu histórias pessoais, ouviu momentos passados relativos a ele e não só. Johanson sabe perfeitamente quem é, mas, acima de tudo, sabe perfeitamente por causa de quem o é, não o esconde e agradece por isso. À saída, o público caminhava devagar, regressando, pouco a pouco, à realidade, talvez a processar aquela melancolia que tinha acabado de presenciar. A sensação com que ficámos foi que não assistimos apenas a um concerto, mas a uma espécie de crónica emocional composta a três: Jay-Jay, nós e a memória das coisas. Falámos, acima, algures, em música de fundo. Enganámo-nos — a música, nesta noite, não serviu de fundo, mas de espelho. E observámo-nos clara e longamente nele.