A cultura não só é uma necessidade, como um direito que temos enquanto ser humano dotado de sensibilidade e senciência. Por vezes, são necessárias pessoas certas nos locais certos para noa fazer chegar essa cultura que tanto ansiamos.
Neste caso falo de Luís Banrezes, co-fundador do Festival Tremor, dono de uma loja de discos (a única) em São Miguel e fundador da label Marca Pistola. Foi no âmbito do lançamento da editora que decidimos conversar com Luís e perceber mais sobre o projecto (que é mais que uma editora) e como está a indústria da música pelos Açores. 

Música em DX (MDX) – Fala-me da necessidade que sentiste em criar a Marca Pistola. Há muitos projectos de música aí? 

Luís  – Ponta Delgada é uma aldeia, mas é uma aldeia com uma estrutura de uma cidade. Com vários organismos e serviços. É uma estrutura pesada, movimenta imenso dinheiro por causa disso tudo. A nível cultural, está muito atrasada e quando vim para cá gostei tanto do sítio que me comecei a incentivar nesse sentido, a ser programador cultural e a fazer coisas que achava que faltavam.
Vamos buscar as bandas que não fazem bem parte do circuito e tentar trazê-las até nós e criar um circuito paralelo, que depois iria diversificar o que temos nos Açores e darmos-lhe um contexto para depois fazer com que eles possam fazer parte desse circuito. O projecto passa por este tipo de preocupações e por esta vontade de diversificar o que temos aqui. Passa também pelo registo. Para mim o registo é muito importante. Por exemplo, eu tenho uma loja de discos e é a única nos Açores, eu até digo que é a loja de discos mais ocidental da Europa. Se não comprares aqui, depois só podes comprar em Boston ou Nova Iorque, por exemplo. Mas a necessidade vem porque as pessoas vêm aos Açores e depois querem levar um souvenir e perguntam-me sempre o que tenho de bandas regionais e nunca tenho quase nada a não ser aquelas bandas dos anos 80 e alguns discos que consegui encontrar. Então há aqui um vazio, uma falha clara e essa falha teria de ser trabalhada e passa muito por ir ao passado, editar coisas que não foram editadas, percorrer um bocadinho da história passada e perceber que existe aqui um movimento heavy metal fortíssimo e onde é que eles estão. Paralelamente a isso, um movimento fortíssimo, na terceira, de punk e onde é que esse movimento está? Então temos de registar isso. A Marca Pistola é, sobretudo, uma estrutura que ajuda a recolher bandas que estão aqui e que vamos ajudar a criar um contexto mas também a aproximar um passado que não teve grande expressão ou se perdeu de alguma forma no tempo e também podermos dizer que o que ouvimos hoje também teve a ver com aquilo que aconteceu no passado. É importante arranjar aqui um fio condutor sobre isso. O projecto é basicamente isto e passa muito por ajudar as bandas, é isso que queremos. Criar uma “cena” açoriana. Tu acederes a uma plataforma e possas ver por género, por ilhas o que temos aqui para oferecer e acho que as pessoas vão ficar surpreendidas porque temos muita coisa!
Isto é um trabalho quase activista, não temos ainda muitos fundos monetários, sou eu próprio que estou a sustentar o projecto, praticamente. Conseguimos arranjar um apoio da direcção regional da cultura que não tinha cabimento quando lhe apresentámos o projecto porque nunca ninguém tinha aparecido com um projecto deste género mas ficaram sensibilizados porque há potencial, é a criação de um espólio, um mapeamento da música açoriana desde o passado até agora. A nós não nos interessa se a banda é boa, mas sim o registo.
Achei que, por causa do confinamento que tivemos ainda iria piorar mais essa situação e sobretudo um bocadinho deste mercado. Comecei a pensar que singularidade é que temos aqui relativamente ao continente, que futuro é que vão ter estas bandas, de que forma é que podemos ajudar as bandas a estar com mais frequência nos festivais do continente, por exemplo. Que vantagens é que temos por estar tão próximos dos Estados Unidos, se isso influenciou ou não a música açoriana que ouvimos hoje em dia. Há uma série de questões ligadas e se pegarmos um bocadinho na história que faz parte da música açoriana, houve essa necessidade de criar uma estrutura a que demos o nome de Marca Pistola que por si só já é chamativo mas também é uma expressão popular aqui. 

MDX – Já que estás a falar disso, podes dizer-me de onde vem esse nome?

Luís – Eu sou transmontano e no norte utiliza-se muito esta expressão que significa traquina, travesso, pessoa maldosa, rufia. Aqui existe também esta expressão e tem justamente a mesma conotação e eu achei que devia usá-la. 

MDX – Então e não há critério de escolha?

Luís – Há inicialmente. Nós não conseguimos prever que géneros é que vamos encontrar e para nós, não queremos ser o empatador a dizer às bandas: “não podes estar dentro desta estrutura porque não tens qualidade”. Não acho que tenhamos de fazer isso. Achamos que devemos encontrar um contexto para eles e ajudá-los nesse sentido, se há uma banda de punk, dizer: este é o teu circuito, isto é o que podemos ajudar, é por aqui que tens de ir e fazer isso para todos os géneros.

MDX – Então, para além de ser uma editora, a Marca Pistola também tem uma espécie de management? 

Luís – Sim. Nós vamos fazer tudo, menos agenciamento! Mas temos de começar por alguma coisa e então o cabimento que nós encontramos é: há uma label que é algo que não existia aqui, vamos ajudar, apesar de não conseguirmos ajudar toda a gente. Portanto inicialmente estamos a fazer uma espécie de filtragem, por exemplo se há uma banda que não vamos conseguir trabalhar porque, enquanto label, vamos ter de defender a banda, o que vamos tentar fazer é uma espécie de compilações, e dessa forma já sentimos que lhes estamos a dar uma plataforma e a ajudá-los. Não temos necessariamente de trabalhar com eles. Temos, sobretudo, que criar registros sobre isso. Uma label é demasiado redutor para aquilo que queremos fazer no projecto. É um projecto que levará muito tempo. Eu acho que ele vai ter a sua verdadeira função daqui a 20 anos, quando as pessoas olharem para trás e verem o registo de tudo o que a gente fez. Eu acho interessantíssimo, por exemplo, uma banda de punk do continente vir aos Açores tocar e nós registarmos que ela esteve presente aqui e depois essa banda até poder influenciar alguém que esteve a ver o concerto e que depois formou uma banda punk. É um trabalho difícil mas que conseguimos fazer porque estamos delimitados pelo mar e isto parece-nos quase uma oportunidade para fazermos este mapeamento.

MDX – Não achas que essa delimitação do mar não poderá ser também uma limitação para as bandas virem ao continente, tanto a nível de concertos como de divulgação? Não conheço muita coisa vinda daí, tirando Sandro G, por exemplo. 

Luís – É um excelente exemplo esse. Nós fizemos um levantamento há uns anos atrás e a propósito do Sandro G nós conseguimos perceber que ele foi muito impactante aqui. Ele introduziu o hip hop aqui nos Açores. Disseminou o hip hop em quase todas as ilhas. Nós conseguimos fazer um documentário só com projectos de hip hop açorianos, totalmente influenciados por ele. Isso é muito bonito! Eles basicamente existiam mas nunca tocavam e se houvesse uma estrutura que tivesse pegado neles na altura, teria sido muito mais fácil. Mesmo para levar bandas ao continente, através de uma estrutura é mais fácil. É sempre muito difícil para uma banda ir sozinha, porque há a questão das passagens e acaba por ficar caro, mas existindo uma estrutura que possa albergar de alguma forma esse trabalho poderá ser mais fácil saírem daqui para tocar.
Eu olho para o mar e vejo uma oportunidade e não uma barreira. Acho que o facto de estar aqui pode ser um belo estúdio para tu calmamente fazeres as tuas coisas e depois com uma estrutura conseguires chegar lá fora, do que estares no caos onde tudo acontece. Se vires o mar como uma oportunidade, é tudo mais fácil. Vamos trabalhar nisso.

MDX – Não tenho muita noção destas coisas, sei que a Lovers o faz, mas há editoras do continente a pegar em bandas daí?

Luís – Temos o Zeca Medeiros, mas já tem uma carreira feita. PS. Lucas também. Há mais, mas são aquelas bandas menos conhecidas que se calhar até têm as suas próprias labels independentes e trabalham sozinhas, mas tirando a Lovers não. O que estamos a tentar fazer é precisamente isso, que venham connosco, vamos organizar-nos. <
Os Açores estão muito na moda agora! Não se pode fazer uma candidatura a capital europeia e não ter uma editora, não faz sentido. Sendo que eu sou totalmente apologista que as capitais europeias devem acontecer nos sítios onde isto aconteça, onde não haja tudo. 

MDX – Na descrição do projecto vejo que vão fazer divulgação online, com vídeo e fotografia… 

Luís – Quando tu pensas nos Açores e na questão de um souvenir, eu gostava que a pessoa levasse para casa em formato cassete ou vinil, um pedaço dos Açores, seja a nível do vídeo com paisagens dos Açores, seja com uma fotografia no disco.
Quando tu trabalhas com música, pensas na parte sonora. Mas a parte visual também é importante. Então podes trabalhar com uma estrutura aqui que trabalhe a parte visual, como também podes trabalhar com um artista plástico ou com um designer para fazer a capa do disco e de repente já estamos a trabalhar com várias manifestações artísticas que existem aqui e que, provavelmente, também precisam de uma plataforma. Então, no fundo, a Marca Pistola também irá agregar isso tudo.
O facto de estarmos aqui no meio do Atlântico faz com que o aeroporto tenha muita importância. Antigamente os aviões não conseguiam fazer a travessia por completo, ou seja, tinham que parar obrigatoriamente nos Açores para abastecer e nesses períodos, os americanos deixavam discos, tocavam e isto é muito giro de analisar. O que é que o aeroporto influenciou numa altura em que não havia internet nem nada? É muito curioso porque até nas próprias ilhas havia diferença. Havia ilhas que ouviam Led Zeppelin e outras que ainda estavam nos Beatles e isso é muito interessante. Tu notas ainda isso hoje em dia. Vais à ilha de Santa Maria que é ao lado de S. Miguel e tem uma onda completamente diferente a nível de música. Cada ilha tem a sua própria vibração e isso é muito interessante de perceber e investigar. 

MDX – Disseste-me à pouco que iam fazer um levantamento do que existiu antes e pegar na história e isso está ligado à Milhafre Discos, certo? Como é que isso funciona?

Luís – A Milhafre vai editar o que está para trás e a Marca Pistola o presente. Esta ajuda que queremos fazer às bandas é justamente isso. A Milhafre  tem a ver, também, com uma recolha que estamos a fazer de açorianos seja aqui seja no resto do mundo, como as pessoas que emigraram para os Estados Unidos e têm bandas, por exemplo. Ou algo em que ando focado que é pegar numa voz que tivemos aqui cristalina, a Susana Coelho neste caso, que desapareceu e ao ver e ouvir e reparei que era incrível o que ela fazia e era muito giro fazermos um revival dela. Acho que é a verdadeira Patti Smith aqui dos Açores!
Este projecto é um projecto em progresso, o que queremos dele é que um dia possa ser possível fazer um museu da música açoriana, que eu acho que seria muito interessante com todo este registo que estamos a compilar.

MDX – Para reforçar, vocês não têm nenhum estilo definido, certo? Podem ir do metal ao fado, ao rap, etc?

Luís – Sim. Fazemos uma filtragem e ajudamos o artista que vemos que tem potencial. Há coisas que não terão cabimento e eu acho que artistas que já tenham um disco ou algum trabalho lançado poderão ser ajudados por nós mas não são a nossa prioridade neste momento, o que queremos ajudar é pessoas que não tenham registos. Faz-me sentido ajudar as bandas emergentes, que estão a começar.
Vou-te dar um exemplo muito engraçado: descobri um miúdo em plena pandemia a lançar alguns vídeos e eu gostei muito e falei com ele, disse que estava a fazer música com o telemóvel e de repente achei que devíamos fazer algo com ele. Pedi ajuda a um amigo meu de escola, o Rui Maia dos X-Wife,  para a produção e ele fez a produção do disco. Depois na parte da masterização pedi ajuda ao Pedro Augusto. Então, temos um miúdo que está a começar e de repente temos pessoas que já estão na praça a ajudá-lo, ou seja, potência o projecto que temos e dá alguma credibilidade. Isso é, também, o que queremos mostrar, que há várias maneiras de trabalhar e queremos dar a oportunidade aos artistas açorianos de poder trabalhar em parceria e ter contactos, perceber como isto funciona. No fundo, queremos criar oportunidades e praticar o bem, fazermos uma coisa que valha a pena. 

MDX – Tendo em conta o estado da indústria da música em Portugal que se agravou com a pandemia, não crês que foi arriscado numa altura destas estares a entrar nesta indústria? 

Luís – Sim, foi. Mas ao mesmo tempo acho que foi a altura ideal, porque foi o momento onde, de repente, toda a gente parou e entrou em crise mas por parte dos artistas houve tempo para produzir imensa coisa. Ou seja, aqui nos Açores vi toda a gente a tocar online e deu para ver que há pessoas que, de alguma forma, ganharam coragem, aborrecidas ou não, colocaram o seu vídeo e foram mostrando as suas coisas. Então comecei a lançar desafios para essa malta.
Vou dar mais um exemplo. Há uma banda onde estamos a trabalhar a percorrer os miradouros da ilha e estamos a criar bandas sonoras dos miradouros. Levamos a banda, um gerador e a banda fica lá toda a manhã a criar uma banda sonora e depois isso vai resultar num registo fotográfico e cada miradouro vai ter um vinil que vai resultar numa caixinha de 4 ou 5 vinis com registo fotográfico onde nós criamos a banda sonora daquele miradouro. Podemos criar aqui a autêntica banda sonora dos Açores. Precisamos de encaixar os projectos em várias ideias, mesmo que não seja dar concertos.
Temos outra pessoa que, por exemplo, pegou no microfone em pleno confinamento e registrou desde o momento em que saiu de casa até que voltou. Foi passear o cão e esse passeio demorou 20 minutos e registrou todos os sons que serviram de base musical para uma banda sonora para o passeio dele. Também é isto que eu quero dizer que as pessoas vão levar um pedaço dos Açores porque estes registos nunca se vão replicar ao vivo.
Vou dar só mais um exemplo! Há uma banda aqui extremamente experimental e que montam uma cozinha no concerto, têm um chefe de cozinha e fazem rissóis, a música chama-se rissóis e eles fazem rissóis e o que fazem é captar todos os sons da produção dos rissóis com a banda atrás a fazer a banda sonora da produção dos pratos juntamente com os sons da sua produção. Cada prato tem uma banda sonora e no final ele distribui a comida pelas pessoas que estão a ver o concerto. Eu acho isto uma loucura! Não devemos perder o fio a esta malta. 

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