Opinião Reviews

Propeller e a propensão para flutuar

Os Paraguaii foram uma banda que me conquistou há uns anos valentes num concurso da Vodafone na estação do Cais do Sodré. Pouco me lembro das bandas que tocaram nessa tarde e noite. Mas lembro-me bem que os nortenhos Paraguaii foram aquela que considerei a melhor atuação, mas é verdade que nos concursos nunca ganha quem devia ganhar. Mistério que espero um dia poder desvendar.

Este trio de Guimarães já não concorre a concursos, fecha noites de festivais e, no passado dia 26 de Abril lançou o seu 5º álbum. É verdade que a sonoridade deles foi-se afastando do que conheci naquela estação de metro mas é igualmente verdade que a qualidade nunca se perdeu.

Propeller é um disco hipnotizante. Aposta em texturas disformes que tanto são complexas como, às vezes, minimalistas. A base vai da luz ao breu e do magnetismo à desfragmentação. Vejo-me a passar por entre estas 8 músicas numa pista de dança que oscila entre uma imensidão de gente e uma pista só para mim. Percebem que falo de um disco de electrónica pura onde a criação é exigente e tem como objectivo guiar-nos por diversas estradas, sensações, emoções e pensamentos.

“All My Feelings Fall In Love”, segundo single a ser apresando juntamente com o disco, faz com que passemos cerca de 6 minutos em profunda ânsia de viver, com ritmo no corpo e nos pés, sorriso nos lábios e mãos a tocarem ao de leve pelo corpo.

“Insecure” vem de seguida e é talvez a minha música preferida deste disco. É o primeiro contacto que tenho com a dicotomia electrónica alegre e a melancolia electrónica de estilo Thom Yorke num Anima. Esta versatilidade e bom gosto deixa-me rendida e é impossível não saborear este disco do princípio ao fim sem esboçar um sorriso. “Ground Control” vinca a influência anterior e centra-se mais na melancolia electrónica, não perdendo a magia e a envolvência física que este estilo de música nos oferece. “Psique” é uma música aguda e com brilho que vai entrando ao de leve em nós e nos faz levantar os pés do chão. Os sintetizadores dão a cor necessária ao agudo e rapidamente somos arrastados para um espaço escuro, sem delimitação de paredes ou chão onde nos desviamos de rasgos de luz que vêm na nossa direcção em forma de caleidoscópio. “Psychotic Scenes” mistura a intensidade de Suspiria com a electrónica de Anima e leva-nos para um mundo paralelo. “Skeleton” foi o primeiro single a ser apresentado e é a música mais pequena do disco. Tem camadas de densidade electrizante que nos deixa acelerados.

A verdade é que tenho conhecido verdadeiras obras primas que saíram desta pandemia infernal mas, na sua maioria, focadas numa melancolia romântica que reflecte, claramente, o estado de espírito dos artistas. É bom sentir uma brisa diferente e o calor que nos vai crescendo desde os pés até à cabeça e nos deixa numa inquietação profunda e desesperada de pisar uma pista de dança e ser absorvidos pela música.

Fotografia – José Caldeira