O ser humano tem, na sua essência de ser vivo, a capacidade de absorção de energias sejam elas de pessoas, de espaços, de espetáculos, demonstrações de sentimentos, entre muitas outras coisas. É esta capacidade que nos faz seres dotados de experiências e com aptidão para contar histórias.
As histórias podem ser contadas de inúmeras formas e, por diversas vezes, sem carregar palavras. 

Há um músico que tem especial gosto em conhecer locais e pessoas, captar todas as essências e contar essas histórias ou energias nas composições que cria. Às vezes não se trata da descrição de um local, mas sim do sentimento que traz esse local ou que remete para ele. 

Homem em Catarse é uma espécie de bomba relógio de emoções capaz de explodir a qualquer momento, dependendo da intensidade que tem no peito e na mente, transformando cada fragmento de explosão em libertação e purificação do sentir. 

sete fontes é o seu 3º disco de longa duração e nele carrega o peso de uma hipersensibilidade extrema que teima em transmitir ao ouvinte. E que bem que o faz! Junta-lhe a delicadeza e beleza arrepiante da sonoridade de um piano e faz com que este disco seja uma verdadeira experiência sensorial.

Não são só as fontes que são sete, são sete, igualmente, as faixas que este disco contém. sete locais da cidade de Braga. sete energias. sete experiências e sete momentos que partilha connosco de forma genuína, pura e despida de qualquer preconceito.
“pêndulo da sé” tem início com uma nota em loop e com ela sentimos uma concentração inquietante. Há uma espécie de beleza triste como se estivéssemos à procura de alguma coisa. Os ruídos de fundo, algo como sons estáticos ajudam a sentir cada vez com mais força a organicidade e crueza da música. O primeiro single a ser apresentado, no início de Abril foi “santa marta das cortiças” que começa com umas pancadas fortes e graves na madeira, não sei se em chão, se em mesa ou até porta mas é algo que nos aperta o coração que, de súbito, é inundado pela delicadeza levitante de acordes harmoniosos, apaziguadores e reconfortantes que nos envolvem num brilho cristalino como se estivéssemos rodeados de uma aura de tranquilidade e paz. Acordamos depois, algo dormentes, com outra pancada forte. “rua do souto deserta” foi o single escolhido para acompanhar o lançamento deste disco. O mote é uma expiração profunda como que a criar espaço para uma ansiedade profunda que nos é ditada pelos acordes com uma força que nos corta a respiração e acelera o peito. Trata-se de uma música bastante intensa e dura. 

O coração pode repousar com “valsa dos biscainhos” que nos embala o sonho de início para depois nos abrir os braços e puxar para dançar com o piano uma valsa elegante, coberta de harmonia e esperança. “pastor da serra dos picos” abre com uns ruídos que se fundem com um piano que está a tentar enfrentar algo que o rodeia. De rompante tudo acalma e começamos a ouvir as ovelhas do pastor ao fundo contribuindo, sem saber, para transmitir uma energia pura e clara que vem da natureza. Nem tudo o que assusta é mau.
A chegar ao fim, “moinhos de portuguediz” começa de forma leve e a sorrir. Com um sintetizador a reforçar o fervor do sentir e vozes a ajudar às camadas de intensidade que se vão criando ao longo da música deixando-nos, assim, num estado algo confuso sem sabermos onde nos encontramos, sabendo, ainda assim, que estamos seguros. Chega-nos uma harmonia bonita e profunda com “nascente de este” que nos revitaliza como a própria água, fresca, gelada e purificante. Música pequena que nos deixa água na boca e muita vontade de ouvir e sentir mais. 

Enquanto multi instrumentista, Nelson Afonso Dorido, revelou que o seu talento não para de nos surpreender e conseguiu, com a sua mais pura sensibilidade, trazer-nos um disco belíssimo que considero uma verdadeira obra prima deste ano.

Podem adquirir o disco aqui.

Fotografia – Maria João Salgado

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