Desta vida demasiado curta que vivemos, cheia de fragilidades e incertezas, resta sempre a certeza de que a vivemos daquela que, para nós, é a melhor maneira possível. O ideal seria que a melhor maneira possível fosse algo que não magoasse ou ferisse o mundo ao nosso redor. Focados no desvios que a humanidade está a fazer, de si próprios e do mundo, os All Them Witches usaram este mote para criar o seu sexto disco. Nothing As The Ideal versa a desorientação da humanidade que já vem de muito antes desta guerra invisível e une os talentos ancestrais e musicais numa tentativa de regressar ao centro, provar que temos de ser mais racionais e menos lunáticos e egoístas. 

Os All Them Witches estão reduzidos a trio com Michael Parks Jr. na voz, baixo, guitarra, piano e loops; Ben McLeod na guitarra, piano, ressonador e loops e Robby Staebler na bateria, sintetizadores e loops. Apresentam um disco com vários níveis, passagens, paragens e tonalidades, gravado no estúdio Abbey Road, em Londres. Ainda que a base continue no stoner denso e reconfortante e no desert arrebatador, abriram portas para uma sonoridade mais metal e intrigante. 

O caminho por entre as oito faixas que compõem este disco não deixa de ser uma viagem entre feitiços, fogueiras, deserto e ranchos no meio do deserto. Uma viagem densa na sua envolvência e forte na mensagem que quase nos tira o pio e o ar. 

Comecemos pela “Saturnine & Iron Jaw” que tem início com uma atmosfera algo idílica com uma espécie de badalos de sinos a estremecer e a anunciar um ritual acompanhado de uma voz distorcida, começando a ficar mais tenso e denso em formato de suspense para nos acalmar depois com uns acordes de guitarra serenos que introduzem um complexo de stoner com leves toques de sludge. Quando damos conta, ao nosso redor espalha-se um ritmo demasiado aconchegante e viciante. O baixo é forte e entroncado e a bateria, com o seu bombo, soa em demasia a tambor de ritual. Nothing as the ideal ecoa pelas colunas e na nossa mente, afirmação não só presente no título, como também nesta canção.
Guitarra e bateria a deixar um rasto de metal com “Enemy Of My Enemy” onde encontramos rendilhados de guitarra como se uma grinalda de ouro nos envolvesse. Há diversas oscilações sonoras e, entre elas, nada muda nada como diz a letra da música. “Everest” apresenta-se como a faixa mais pequena do disco, são 2 minutos e 7 segundos de serenidade e tranquilidade como se, suavemente, nos fossem começar a contar uma história de encantar ao som da guitarra que brilha e nos ilumina no momento. A história não é verbalizada, mas é sentida pelo peito que se aperta de satisfação.
Introdução negra, densa e pesada à filme de suspense. Vozes de filme de terror que entram de forma astuta pelos ouvidos e nos afectam os sentidos inundando-nos de um certo transtorno. Assim começa aquela que é a faixa mais longa do disco com uns grandiosos quase 10 minutos. Há uma condensação sonora que acompanha o instrumental que é, talvez, o mais stoner desta jornada.  Este comprido trecho de caminho faz-se com um extremo bom gosto e uma música completa e demasiado bem feita. Há toda uma roupa de loops constantes e de fundo que são sabiamente construídos e montados com o ímpeto de nos transmitir uma certa hipnose. Aqui, caminhamos nas primeiras horas da noite por um deserto imenso onde começamos a sentir a brisa lentamente no rosto e o brilho das estrelas a surgir tal como o dos olhos dos coiotes ao nosso redor. Este caminho continua com “The Children Of Coyote Woman” onde encontramos aquele que, sem querer, se transforma no nosso destino. Um rancho com um homem de pele seca e cansada à porta, cabisbaixo e sem sonhos. O instrumental country carrega uma aura triste e pesada, fazendo-se acompanhar pelo som da chuva a cair enquanto nós, molhados, vemos um trovão surgir intensamente atrás daquele que nos espera.

“41” começa com uma tentativa de sincronização antes de entrar de forma abrupta uma guitarra bastante metal oscilando entre a tranquilidade e a inquietação conseguindo enrolar-nos numa atmosfera de encantamento da qual é muito difícil sair. “Lights Out” é talvez a faixa mais coesa e com menos oscilações mas não menos boa e carregada de gotas de metal.
Na recta final entramos naquela que é a minha música preferida do disco. Ultimamente tem sido uma constante a música de encerramento ser também aquela que é mais forte, melancólica e solitária. “Rats In Ruin” é aquela música que tanto nos tira como dá. Tira esperança mas dá vontade de lutar. Enche-nos o peito de uma melancolia poética que nos aquece e nos ajuda a levantar a cabeça, esteja ela onde estiver. A intensidade nos seus extremos de beleza e devastação concluiu este caminho pelo qual estamos todos a seguir ou, pelo menos, quase todos. A meio da música, sons distorcidos que fazem lembrar sons da natureza que vão desaparecendo aos poucos como que a obrigar-nos a fazer uma pausa para depois entrar novamente a guitarra e a sua harmonia forte em sentimento e explosiva ao tocar. 

Nada muda ou parece não mudar, mas a dança com as bruxas será sempre o ideal! 

Podem completar este ritual aqui. 

Deixa um comentário