Pedro de Tróia é a voz dos Capitães de Areia. Quis 2020 que este fosse o ano em que o artista se lançasse em caminhos novos e navegar, como capitão que é, em rumo de um novo projeto e lançar Depois Logo se Vê, o seu primeiro trabalho em nome próprio. Mas num ano tão atípico, o brilhantismo da sua estreia a solo foi ofuscada pelos motivos que todos sabemos, com a pandemia a começar cerca de uma semana antes do concerto de apresentação do disco no MusicBox, em Lisboa.

Nessa altura, num março longínquo, a Música em DX teve a oportunidade de se sentar com o Pedro e falar um pouco sobre o seu novo trabalho, isto em prol da apresentação do mesmo na sala lisboeta do Cais do Sodré. Porém, a incerteza dos tempos que decorrem levou a que a publicação da mesma ficasse em stand-by indeterminadamente. Porém, o regresso de Pedro de Tróia aos palcos da capital acontece já nesta quinta-feira, na Casa do Capitão e, como tal, pareceu pertinente ‘ressuscitar’ esta entrevista, que data de 6 de março.

Esperemos que esteja tudo bem contigo, Pedro! Adiante…

Música em DX (MDX): Até ao lançamento do Depois Logo se Vê que não se tem tido muitas notícias tuas. O que fizestes nestes últimos tempos?

Pedro de Tróia (PT): Nestes últimos anos estive ligado à publicidade e a escrever. Estive também muito tempo a ver se os Capitães da Areia continuavam, mas acabou por se tornar um pouco difícil de gerir os diferentes estados de vida de cada um de nós, e durante esse tempo comecei a pensar neste disco. Eu não conseguia fazer tudo sozinho – precisava de ajuda para a produção, para a gravação, precisava de músicos, … – e então acabei por ficar um pouco dependente dos timings de cada pessoa quem me estava a ajuda. Eu decidi fazer o disco em 2018, e ele até que ficou pronto em agosto do ano passado, mas só agora é que houve as condições para ser lançado.

MDX: Pegando nesse tópico sobre os Capitães da Areia, pareceu que o vosso desfecho se fez um pouco em silêncio…

PT: “Desfecho” não seria bem a palavra certa, porque a banda não acabou. Uma banda depende de si; é preciso que faça sentido, que os seus membros estejam com vidas orientadas e com disponibilidade para ensaiar. Não há mau estar entre a banda, pelo contrário, nós costumamos estar juntos imensas vezes, estamos é numa situação de ‘vai/não vai’.

MDX: O que distingue este disco de um feito pelos Capitães da Areia?

PT: Bastantes coisas. Posso já dizer aquilo que é comum: tens a mesma pessoa a fazer as letras e a cantar, assim como o motor (dos Capitães da Areia) a fazer o disco, com o Tiago (Brito) a produzir e a fazer os arranjos do disco. Já de diferente, por aquilo que me é dito, é um disco muito pessoal, isto quando em comparação com os dos Capitães.

MDX: E tal como acontecia nos discos de Capitães da Areia, este tem algum conceito?

PT: Não acho que haja um conceito, não há uma intenção de querer falar sobre mim; acidentalmente, e quando dei conta, vi que era disco que falava sobre mim. Aquilo que eu queria era gravar canções e existir, e de preferência que, artisticamente falando, eu fosse fiel àquilo que eu sou no dia-a-dia, sem máscaras nem personas.

MDX: E no momento da composição? Houve a necessidade de alterar o chip que tinhas nos Capitães da Areia para agora teres um só como Pedro de Tróia?

PT: Não, houve só uma evolução natural. Nos Capitães, era a realidade que eu conhecia. Já para este, e a partir do momento em que surge o desafio, a necessidade de fazer este disco, aquilo que pensei foi “se eu vou escrever para mim, tem de ser sobre coisas que eu domine perfeitamente”. A canção em si tem de ser algo que me diga respeito, e eu quis apresentar-me sem grandes regras ou preocupações. Acho que quem ouvir este disco fica com uma noção de quem é que eu sou, e isso foi a minha principal intenção.

MDX: Enquanto os Capitães da Areia atravessavam essa indecisão, aproveitaste ideias que tinhas de canções para a banda, mas agora para este trabalho?

PT: Sim, por volta de umas duas ou três, mas lá está, eram canções muito pessoais.

MDX: Um dos motivos que te motivou a aventurares-te em nome próprio foi essa necessidade de partilhares essas tuas ideias?

PT: Não foi só por essas ideias, porque ideias é aquilo que mais tenho.

MDX: Quando escreveste as músicas para este dia, e com base na fase de vida onde te encontravas, este disco poderia ser visto como um escape?

PT: Não, pelo contrário. Este disco é um reconhecer que tenho alguns problemas, que a vida é assim e que as coisas são como são, e eu quis escrever e cantar sobre isso. Não vale a pena lamentarmo-nos muito sobre as coisas que nos acontecem e que nos moldam; mais vale celebrar aqui que nos moldou. Eu canto problemas, eu canto dores, só que aprendi muito com isso e aprendi a conhecer-me, e este disco acaba por ser isso mesmo: uma aprendizagem na qual eu me narro. Eu deixei de trabalhar para gravar este disco, e ele acatou muitas despesas. Do ponto de vista financeiro, foi uma péssima decisão, só que eu preciso de fazer isto para me sentir bem.

MDX: Ao longo do processo de gravação e produção do disco, esta retoma de contacto com o mundo da música despertou de novo uma ignição do teu amor por ela, por música?

PT: Eu não estive desligado a cem por cento da música; escrevi músicas para pessoas ou dei ajuda na produção de alguns discos. A questão é que a existência deste disco faz-me voltar a estar focado em elevar-me, seja a dar bons concertos ou a fazer bons vídeos. Não me satisfaço com pouco porque o meu nível de exigência é alto, e este disco dá-me vontade de existir e sinto que me representa bem.

MDX: Sentes-te mais completo por teres uma ligação ao mundo da música?

PT: Sinto que me ajuda a sentir mais completo.

MDX: Idealizado um cenário hipotético no qual não estarias ligado ramo musical, o que seria feito do Pedro de Tróia?

PT: Sinto que estaria ligado a algo onde pudesse dar azo à minha criatividade: escrever livros, escrever séries, escrever para cinema, etc. Decoração de casas, talvez. Não sei ao certo, sei que teria de ser algo onde o meu trabalho servisse para criar outra coisa. A questão é que para mim, a música é algo vital.

MDX: Agora com o teu disco já cá fora, há algum objetivo pessoal que gostasses que fosse cumprido como uma consequência do seu lançamento? Como uma sala específica na qual gostasses de tocar, ou que portas gostarias que o disco te abrisse?

PT: Queria muito escrever canções para mais artistas portugueses, gostaria muito de ser convidado para apresentar um talk-show em prime-time, queria começar a escrever livros, entre outras coisas. Por enquanto, prefiro começar com um disco e que este chame alguma atenção, e a partir daí tomar outra decisão e outra, mas sempre com passos sólidos. Uma das últimas faixas do disco, a “Passo Lento”, representa bem aquilo que estou a tentar dizer: eu prefiro dar passos lentos, demorar o meu tempo e chegar a algum sítio do que ser como muitos outros que acabam por dar passos maiores que a perna e acabam por ficar sempre a andar às voltas.

MDX: Em poucas palavras, como é que resumirias o Depois Logo se Vê?

PT: É um autorretrato. Da mesma forma que um pintor, com os óleos que tivesse à mão seria capaz de fazer o seu autorretrato numa tela, eu fiz o meu com os recursos que tinha ao meu lado. E acho que é isso.

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