O ser humano, como todos sabem, divide-se em matéria e espírito/mente/alma, ou mais uma dezena de nomes dos quais é apelidada a parte não visível que nos compõe. Essa parte, que vamos alimentando de conhecimento, emoções e sensações muitas vezes também quebra e precisa de se curar.
Essa cura, tem outras dezenas de maneiras de se fazer mas, entre elas, encontramos a da viagem ancestral que se faz através de rituais algo indígenas, com camadas de pureza, fogueiras, flores e danças de agradecimento à vida e ao sol.
Há um disco que, apesar de estar na gaveta há algum tempo conhece, agora, a luz do dia e pode ajudar-nos a curar ou a tratar aquilo que de imaterial temos ferido em nós. Falo de
Flowers e da magia branca que carrega dentro de si. 

O João Arsénio (bateria e voz) e o Carlos Ferreira (guitarra e voz) decidem passar a trio e juntar o Rodrigo Vaz (baixo e voz) à banda. A eles unem-se o Peter Wood (guitarra) e a Joana Guerra (violoncelo) e todos juntos formam os Asimov And The Hidden Circus criando aquela que é uma bela viagem de cura e crescimento chamada Flowers.

Não fugindo da génese psicadélica que têm bem enraizada, Flowers é um álbum mais completo, complexo e composto! Isto não é só pela panóplia de instrumentos usados, que os colocam noutro patamar de transcendência, mas sim pelo caminho que seguiram. É indiscutível a forma como este álbum respira! Quase que é possível sentir o cheiro das flores e a brisa na cara. O talento que se uniu para o fazer criou um verdadeiro ritual de descoberta e cura onde nos podemos perder durante algum tempo. Há toda uma esfera hipnotizante que nos faz embarcar numa viagem entre montanhas xamânicas e de conhecimento ancestral e pessoal onde encontramos curas do mundo, para o mundo e, acima de tudo, para nós próprios. 

São 7 faixas como se de 7 pétalas ou capítulos se tratasse. São longas faixas que devemos ouvir de olhos fechados, leves, com um chá de menta ao lado e, talvez, um cachimbo. Notam-se influências demarcadas de Kulla Shaker e Hawkwind, pintando riffs demasiado compenetrantes e compassos de percussão viscerais. O violoncelo de Joana, cereja no topo do bolo, faz o trabalho mágico de nos guiar pelo intrigante mundo do desconhecido.
“People of The Mountain Sermon” foi o terceiro single a ser apresentado e saiu no início de Abril. Abre as hostes e o álbum com o som de um gongo como que a dar início ao ritual e à viagem que temos diante de nós. O violoncelo agarra-nos a mão e arrasta-nos numa espécie de ondulação que personifica uma reza de agradecimento ao sol. Levantamos as mãos e, suavemente, tocamos na nossa pele como se de uma descoberta se tratasse. O sol é alaranjado e já está quase a fazer simbiose com a lua! A faixa termina com uma serpente a sorrir para nós.

Em “The Seeker”, já de noite, encontramos as almas unidas à volta da fogueira a exorcizar demónios e desassossegos num verdadeiro ritual de limpeza. “Until The Morning Comes” foi o 2º single a ser apresentado, há 2 meses, e traz com ele vozes que entram dentro do sono e tentam despertar-nos ao mesmo tempo que tentam espantar os espíritos que nos assolam os sonhos por vezes tão turvos. Uma das minhas faixas preferidas é a “Shaman Sacrifice”, que nos dá um abanão durante esta viagem de cura, apresentando uma densidade e força sobrenaturais. “Shadows Of Summer” fora apresentado há cerca de 1 mês e é a faixa mais pequena do disco transmitindo uma calmaria inquietante. O primeiro single que apresentaram foi já há 2 anos e foi a “The Merchant”, uma faixa onde voltamos à noite e à fogueira com um cheiro a oriente a espreitar por entre as chamas e labaredas e um calor iluminado que nos sobe lentamente pelos pés vindo directamente da mãe terra. A música divide-se em duas intensas partes e, com elas, duas fases do rito. O último single apresentado é, também, a última e mais longa faixa do álbum como que a retratar a última fase desta viagem. A cura final e todo o processo de chegar ao fim e ver consagradas as várias conquistas que fomos sendo capazes de fazer. O processo de regressar do transe e da reconciliação da mente com o corpo. Uma música com diversas linhas de intensidade que termina numa espécie de catarse espiritual. 

Flowers é o olhar ao espelho de uma banda com aspirações psicadélicas e xamânicas. Flowers é o reflexo que todos devemos encontrar no espelho e contemplá-lo sempre que passarmos por ele! Flowers é uma experiência, uma viagem e um sentido da vida. 

O disco é lançado no dia 1 de Junho com a edição limitada de 300 cópias e com o selo da Irene Records e Vinil Experience.
A viagem ao interior da montanha começa de olhos fechados carregando no play
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Fotografia capa – Pedro Roque

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