No domingo passado, dia 10 de Maio, Nuno Calado e a restante equipa do festival online “Wash Your Hands Say Yeah!”, fizeram-nos companhia durante um pare de horas. Esta foi a quarta vez que um grupo de músicos se juntou nas suas casas, para nos entreter nas nossas. O alinhamento era ambicioso pela quantidade de músicos, sendo sempre as entradas e saídas do “palco” mais complicadas. Apesar de ter sido a quarta vez que este evento aconteceu, os problemas técnicos não deram tréguas a ninguém. Um inicio demorado (pensei que esta questão do atraso tuga já estivesse ultrapassada) que não foi justificado pela organização e que, provavelmente, esteve relacionado com as dificuldades de transmissão.

Nesta tarde cinzenta, foi o Bruno Mira o primeiro a dar-nos algum alento com a sua música nova cantada em português. Tal como o próprio partilhou, demorou algum tempo para escrever em português. Cantar em inglês é “como se fossemos actores”, acrescenta. Bruno tem visitado campos de refugiados e a sua opinião em relação à situação de contágio do Covid-19, é de que esta pandemia é “uma gota de água no oceano” na sua vida de miséria. De facto a dimensão de um problema pode variar bastante consoante o contexto social em que se vive. E estas pessoas que lutam todos os dias para sobreviver, foram a grande motivação para Bruno escrever em português.

Et Toi Michel é o alter-ego do músico e compositor setubalense João Mota. Depois de ultrapassadas as questões do som, a bonita voz da dupla “Um Corpo Estranho” conseguiu proporcionar-nos um momento de música cuidada. “Perguntei aos peixes” e “A Montanha”, este último tema é o novo single do último trabalho editado em Março passado pela editora independente Malafamado Records. Tecnicamente o João estava bem equipado e nem o enquadramento visual foi descorado, pois tivemos a visita de um “corpo” felino a meio da actuação.

A Selma Uamusse e António Fortuna representaram o Colectivo Knot3 com um momento de “evangelização” em que a tranquilidade e a emoção estiveram presentes em toda a sua actuação. Uma dupla inesperada, em que a doçura de Selma e a irreverência do ex-Tédio Boy culminam num diálogo melodioso a roçar um pop-blues. Selma e António deixaram-nos a sala com cheiro a rosas de esperança, num “You will still hold me” (bem apertado!).

O músico Dan Allen da banda britânica Ducking Punches, o único músico estrangeiro, actuou no seu quarto com uma lata de cerveja e com uma qualidade de som bastante acima da média.

Tó Trips dispensa apresentações e, apesar da sua timidez, foi dos músicos que deu a cara e contestou a apatia do governo na atribuição de apoios financeiros a uma das indústrias culturais que mais está a sofrer com esta infindável quarentena. Tó Trips e Pedro Gonçalves (Dead Combo) planearam cuidadosamente a sua saída de cena, que seria ao longo deste ano com uma tour agendada por praticamente todo o país. O Tó não é de muitas falas e, sentado no seu estúdio caseiro tocou as músicas de rajada numa intensidade catártica que nos deixou com a boca seca. Aqueles dedos que tremem na rima das notas e serpenteiam as cordas como uma dança continua, inigualável. E no final deixou apenas esta frase, “Que tudo isto acabe!”

Os Pista foram a surpresa da tarde, pelo menos para mim. Quatro dos moços da banda do Barreiro tocaram na ADAO – Associação Desenvolvimento Artes e Ofícios e, apesar de vazia, deu para sentir o ambiente de “sala de espectáculos”, que saudades! Não é por nada, mas quem é que não está já farto de ver as casas do pessoal?! Para além disso, e porque os Pista são uns profissionais do palco, tiveram ainda técnicos a tratar da imagem e do som. A alegria contagiante das suas músicas e a felicidade estampada nos seus rostos, valeram um mundo de dança e de saltos! Só faltou mesmo o Alex D’Alva e a sua energia, apesar ter sido justamente recordado pela banda durante a actuação.

Nuno Calado regressou para as despedidas e comunicar que os restantes músicos, Little Orange, Labac e Margarida Cardeal,  iriam enviar os seus vídeos (a qualidade de som da transmissão de Margarida Cardeal estava muito má). Ficámos a saber ainda que dia 24 de Maio será a próxima edição e o que Fast Eddie Nelson faz anos, e parece que já está confirmado que a SURMA  lhe irá cantar os parabéns!

One Comment

  1. As The Emas Thomas também participaram nesta edição com apresentação de um video. Uma pena terem ignorado este projecto nesta vossa reportagem. https://www.youtube.com/watch?v=h1HkRBrGDLc

Deixa um comentário