Quando nascemos com uma ligação directa com a música, há uma certa altura em que ela nos revela um caminho de pureza e genuinidade que ou amamos ou odiamos. Esse caminho passa por cidades e pessoas que nos vão deixar uma marca que nos vai ajudar a crescer musicalmente e não só, e nos vai acompanhar até nos lembrarmos de ser pessoas.
Há uma cidade que, apesar de dar pouco valor à qualidade musical que viu nascer e à corrente que se formou de estilos musicais característicos, bandas emblemáticas e polémicas, mantém até aos dias de hoje a capacidade de ter associado a si um movimento genuíno meio punk, meio rockabilly. Desconhecendo com certezas quem lhe deu inicio, sei de uma pessoa que fez parte desse início e que se mantém fiel a si próprio e a tudo em que acredita.
Falo de
Coimbra que, não tem mais encanto na hora da despedida, mas sim está cheia de encantos! Especialmente o encanto daquele que julgo ser um dos maiores do rock’n’roll. Aquele que, muitas vezes, equiparo a um Senhor que é de grande inspiração para mim (Zé Pedro), com a diferença de que um sabe tocar e o outro não sabia! O Victor Torpedo é um dos maiores! Daqueles que todos devemos conhecer e ter como amigo. O Victor é um conhecedor exímio de música, daquela que ou odiamos ou amamos. Aquela pura que nos faz rebentar o peito de adrenalina. É um excelente compositor de música, um guitarrista brilhante e, um verdadeiro cavalheiro como há poucos no mundo. Para além de ter pertencido a bandas como 77, Blood Safari, Tiguana Bibles e os Tédio Boys que pisaram o palco do CBGB tal como os 77; faz parte dos Subway Riders e dos explosivos The Parkinsons. Pelo currículo já podemos perceber o estilo musical que falo desde início, sendo aquele que, por ser o mais genuíno, cru e puro, nunca irá morrer, ao contrário do que se diz por aí. 

Como bom amante e conhecedor de música, Victor Torpedo viveu em Londres e, talvez, tenha sido aí que aprofundou, ainda mais, o bom gosto e a capacidade multi instrumental e auto didacta de fazer álbuns com um cariz que tanto tem de condensação das caves londrinas como de bafio dos bares Nova Iorquinos da Era punk e garage. Ainda que diferentes, ambos se mesclam como se fossem feitos para se amar pelo infinito fora.
Victor Torpedo dedicou-se aos lançamentos a solo em 2015 com
Raw e é agora, em plena disfunção e desordem mundial, que nos dá a conhecer o seu 4º álbum. Béri Béri saiu num feriado importante para o mundo, pela Lux Records, e veio aquecer-nos este coração que tanto se cobre de carência ultimamente. 

Béri Béri não é só um disco de música, é uma declaração factual do estado do mundo. Uma dura realidade que, muitas vezes, evitamos ver. No fundo é esse, também, um dos fins da música – transmitir mensagens e constatar realidades. Aqui, essas mensagens e realidades são transmitidas e explanadas em consonância com a música: de forma crua e directa. São 10 as músicas que o formam e todas criadas e compostas por Victor que assume a voz e todos os instrumentos e com eles uma aura mágica e desnuda. A base é punk e o resto vem com camadas de extravagância. Rapidamente vejo este disco a ser distribuído por filmes, a completar bandas sonoras seja de um clássico da infância como um The Goonies, um outro clássico mas de cowboys como O Bom, O Mau e O Vilão ou algo mais sinistro e vampiresco como o Drácula ou um What We Do In The Shadows. A primeira música do álbum foi o segundo single a ser apresentado – “I’m A Getaway” e revela logo a mescla intensa de sons frenéticos e algo alucinantes antecedendo o clima meio western da “I Must Confess”. “Victory” cheira a renascimento em clima de dança irónica de palavras e corpo. “New Order” é uma faixa que assume uma vertente mais sintética com bastantes elementos das pistas de dança dos anos 80 ainda que com um lado bastante térreo a completá-la. A balada do álbum é a “Love is Indolent” e brilha no escuro! Já na recta final, “Bad Money” fora a primeira faixa a ser apresentada e a fazer as delícias de todos, criando bastante ansiedade na espera pelo disco. 

O disco termina com “Inseckt”, uma faixa instrumental carregada de groove e batimentos cardíacos acelerados e empolgados, guiando-nos ao fim da experiência sonora, visual e sensitiva.
A presença da influência forte dos The Cramps no punk meio psychobilly com cheiro leve a fetichismo mistura-se com a essência new wave do final dos anos 70 e início dos 80 criando verdadeiros Hinos às histórias de adrenalina das quais só recordamos o começo, ficando com um leve sabor nostálgico e saudoso nos lábios. 

Este é um disco que traz com ele aquela vontade que já nos transborda de saltar e dançar, em gotas de suor, colados uns aos outros na primeira fila de um concerto. Até conseguirmos fazer isso de forma real, fechem os olhos e imaginem! É só carregar no play aqui

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