Assina por ‘Luís Nunes’, mas é por Benjamim que a música portuguesa o conhece. Outrora Walter Benjamim, Luís Nunes perdeu o prefixo quando voltou para Portugal depois de uma extensa aventura por Londres, onde The National Crisis e The Imaginary Life of Rosemary and Me nasceram.

Regressado ao país de origem, tomou residência em Alvito (Alentejo) e construiu um estúdio que quase poderia apelidar de segunda casa. Neste lar, Auto Rádio e 1986, disco feito em parceria com Barnaby Keen, viram a luz do dia, levando ainda à conquista do carinho dos ouvintes da música alternativa portuguesa.

O terceiro longa-duração caminha a passos largos para o seu lançamento. Depois de um concerto em jeito de antevisão do Centro Cultural de Belém, onde a casa esteve cheia, deu-se de caras com um Luís Nunes ainda na ressaca dessa grande noite para trocar umas quantas palavras, tanto sobre o ansiado novo disco e sobre a sua carreira enquanto Benjamim.

Música em DX – Tens feito vários teases sobre o teu novo disco nas redes sociais. Como é que está a correr o processo de gravação?

Benjamim – Está a andar (risos). No meu último concerto no C.C.B. (Centro Cultural de Belém) tocámos quatro novas canções. Já há um ano que ando a trabalhar neste disco de forma intermitentemente porque estive a produzir imenso material, o que levou a algumas paragens no disco. Esse concerto – o do C.C.B. – deu uma certa pica para acabar o resto das músicas, assim como algumas letras que estavam ainda pendentes.

MDX – Seria possível levantares um pouco o véu sobre o disco? Vêem-se muitas fotografias de teclados na tua conta de Instagram… 

B – Os meus discos sempre tiveram teclados, são uma parte importante do meu som. Este disco quase que não terá guitarras; haverá pianos, sintetizadores, caixas de ritmos, etc. Vai ser muito diferente dos meus trabalhos anteriores.

MDX – Portanto, muito diferente do 1986. 

B – O ‘86 foi um trabalho feito a meia com o Barnaby (Keen), o que o torna num disco muito específico; cada canção tem a sua história. Já no Auto Rádio, e especialmente neste que aí vem, sente-se uma relação direta entre canções. Para este novo, quero alterar um pouco a minha sonoridade e explorar novos territórios, mas ao mesmo tempo apresentar algo coeso.

MDX – “Terra Firme” (tema de 1986) foi um dos maiores pontos de 1986. Ao escrever o disco, tinhas noção das dimensões que este tema viria a alcançar? 

B – A “Terra Firme” foi uma canção na qual eu acreditei muito, mas a mistura de sons que nela existe, como aquela batida inicial, deixou as pessoas à minha volta um pouco suspeitas. Foi um pouco surpreendente, para todos nós, a forma como a canção rebentou e tornou-se na minha canção mais ouvida. Entre o Auto Rádio e o 1986 deu-se um grande salto, e acho que a “Terra Firme” é uma dessas razões.

MDX – Já tiveste ouvintes a abordarem-te sobre essa canção e como esses se revêem na letra da mesma? 

B – Sim, já aconteceu, mas também sobre outros temas meus. Para mim, não há maior elogio do que ter alguém a dizer que um determinado verso ou canção, da minha autoria, tem um significado especial na sua vida.

MDX – Voltando ao novo disco: dado o mediatismo que essa canção alcançou, é do teu interesse ter canções capazes de lhe dar seguimento?

B – Não, nem vou tentar fazer isso, seria um erro enorme. De um modo geral, eu estou a tentar fazer algo que seja muito diferente do meu material antigo.

MDX – Tens alguma janela de lançamento em mente? 

B – Não, ainda não. Neste momento, estou ‘de férias’ (risos). Ando a aproveitar o tempo para descansar, para escrever e a rever ideias. Depois destes três anos muito intensos, entre concertos e produções de discos, estou numa fase de paragem.

MDX – Por falar nessas produções, podemos falar das tuas colaborações com Flac, Lena D’Água ou Joana Espadinha para o Festival da Canção. Poderá 2020 ser o ano em que temos Benjamim em nome próprio no festival? 

B – Eu não tenho coragem de ir cantar uma canção ao Festival da Canção (risos). Sinto que aquilo que não é para mim, que é demasiado ‘televisão’, demasiado espectáculo de entretenimento, e eu não tenho o à vontade para esse tipo de ambiente. Prefiro ficar em casa, num estúdio a gravar/tocar canções do que as interpretar no festival. Aliás, eu não me vejo propriamente como um intérprete. Por exemplo, se eu fosse ao The Voice, eu perdia logo no início. Aquilo que eu gosto mesmo é de escrever canções, de cantar as minhas canções.

MDX – Nesse caso, e isto a nível de conforto, onde é que te sentes mais em casa: em palco ou no estúdio? 

B – Sinto-me super confortável em ambos, e a meu ver, um precisa do outro. Pessoalmente, eu preciso dessas duas coisas, eu preciso de ir para a estrada tocar as minhas canções, mas também tenho a necessidade de voltar para casa e fazer música. De certo modo, é esse equilíbrio que me mantém são.

MDX – A produção dos trabalhos desses artistas já mencionados influencia o teu próprio registo de alguma forma? 

B – No caso do disco da Joana (Espadinha) eu fiz os arranjos, e o facto desse disco ser um pouco mais electrónico relaciona-se com aquilo que nós procurávamos para ela, mas também pelo tipo de sons que eu ando a procurar para o meu próprio disco. É impossível não absorver qualquer coisa durante esse processo, mas eu faço questão de separar esses mundos, o dos outros artistas e o meu, por um conjunto de diferentes regras; as influências têm que obedecer a esse meu conjunto, de forma a eu dar-lhes continuidade.

MDX – Deduzindo-se que o teu novo disco terá direito a uma tournée de apresentação, existe alguma sala onde fizesses questão de subir a palco? 

B – Uma das ideias que nós (Benjamim e banda) tínhamos seria o Lux, visto que o disco tem alguns contornos electrónicos.

MDX – E alguma onde sonhasses tocar? Que ainda não tenhas lá estado? 

B – Nos Coliseus, claro. E no Teatro São Luís, também.

MDX – Mas tens preferência entre sala fechada ou festivais? 

B – Eu gosto muito de dar concertos em que o público vá com o intuito de me ver, mas a energia é aquilo que molda um concerto; por exemplo, no Bons Sons, foi um concerto de festival e foi incrível. Aliás, o Bons Sons é um festival mesmo para quem gosta de música, não é o festival dos ‘instagrammers’ e das selfies. O público cantou e dançou ao som de todas as nossas canções, e mesmo quando lá fui pela primeira vez, onde não tinha canções tão conhecidas, o pessoal estava todo em altas. Depende sempre do concerto e do ambiente.

MDX – Então nesse caso, é possível ter-se Benjamim em alguns festivais do próximo ano? 

B – Vai depender de imensas coisas; acho que é das primeiras vezes em que não estou muito preocupado com isso. A minha maior preocupação é saber quando é que o disco vai sair, não quero que os prazos descarrilhem. Aquilo que eu mais quero é fazer o disco certo e que me orgulhe do trabalho que foi feito, que o resultado final seja algo que me deixe feliz.

MDX – Pegando nesse ponto do ‘ser feliz’, quais os sonhos que ainda te faltam alcançar enquanto Benjamim? 

B – Falta-me tudo (risos). Sinto que ainda há muitos desafios à minha frente, canções que não escrevi ou ideias que não explorei, e para mim esse foi, é e sempre será o meu foco principal. O meu objetivo não é ser famoso, mas sim fazer com que a minha música chegue às pessoas; é isso que me deixa feliz. Tenho muito para fazer e ainda mais conquistar.

Fotografia (capa) – Vera Marmelo

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