É quase irónico como o nome artístico de Kristian Matsson – The Tallest Man on Earth – tão bem acentua à sonoridade do músico sueco: a sua aconchegante folk, feita do coração, leva-nos a voar por altitudes tão altas que, por instantes, tornamo-nos em gigantes.

O outrora inalcançável reino dos céus abriu-nos as suas portas na passada sexta-feira, pela Aula Magna. Curiosamente, e dando continuidade a estas ironias, Kristian apresentou-se completamente de branco, tal como a cor que pinta as nuvens por onde as canções de The Tallest Man on Earth nos fazem caminhar sobre.

Porém, por mais encantador que seja o reportório de The Tallest Man on Earth, a verdade é que quando vemos este pseudónimo de Kristian em palco, somos quase reencaminhados para o oposto dos céus. A persona endiabrada que é assumida pelo sueco relembra a de alguém a ser exorcizado, contorcendo-se e dançando de formas que nunca associaríamos a temas como “Like The Wheel” ou “I Won’t Be Found”.

A sublime transição para “The Gardner” cimentaria a posição de Kristian como um dos mais talentosos músicos folk que por aí rodam, mas isso já era um dado praticamente adquirido.

Todavia, e isto em comparação com as últimas passagens do artista por cá, sente-se um pouco o peso da idade pelo ar. Não que isso seja algo necessariamente mau, atenção; sente-se mais maturidade, sabedoria e, acima de tudo, felicidade. Aliás, quem sabe se as excentricidades de Kristian não passam de um coping mechanism para voltar a pegar em canções cujo sentimento já lá vai…

Pegando nesta coisa da ‘excentricidade’, é impossível não mencionar a boa disposição contagiante de Kristian, ora fosse através de piadas, confissões embaraçosas, picar o público ou proclamar o carinho que sente por Portugal – este afecto acabaria mesmo por culminar na revelação em antemão de um novo disco e da estreante primeira escuta ao vivo de “The Running Styles New York”.

Ora fosse através de guitarras acústicas, elétricas ou banjos, entre dedilhados e palhetas, Kristian nunca deixou de encantar ou de ocupar um palco inteiro só com a sua presença, isto numa noite que teve direito a um alinhamento equilibrado, passando um pouco por todos os momentos altos da carreira do músico.

Aliás, houve inclusive tempo para uma visita a “Little Nowhere Towns” a piano ou uma versão de “I Say a Little Prayer” (Burt Bacharach). Sintetizando, foi uma noite de best-of, o melhor registo para se ver The Tallest Man on Earth, com a boa disposição de Kristian a romper a barreira entre público/músico em “Criminals”, em que o próprio viria a sentar-se pelas doutrinas da Aula Magna. Instantes depois, e numa fase de aceitação a discos pedidos, “King of Spain” acabaria por ser a vencedora da noite e merecedora de uma ovação de pé.

O fim, todavia, seria feito ao som “The Dreamer”, canção que catapultou The Tallest Man on Earth para os nossos corações e que nos deixaria embalados pelo reino dos céus, presos em sonhos cujos quais nunca mais quereríamos abandonar.

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