Em 1993 destacava-se o surgimento do CCB e o lançamento do Ave Mundi Luminar, do Rodrigo Leão, o primeiro projecto a solo do músico, que até à altura integrava os Madredeus. Coincidentemente, na altura, o músico tocou no CCB. 25 anos depois, viria a tocar o concerto que faz parte da última tour do álbum Life is Long, com o australiano Scott Matthew.

Mais de 40 concertos depois, de várias salas cheias pela Europa fora, Life is Long chega à recta final. Ao longo de cerca de dois anos, a parceria entre Rodrigo Leão e Scott Matthew foi diminuindo fronteiras. Se entre Portugal e Austrália vão 16.000km de distância, entre os dois músicos, a distância é de dois metros no palco do Grande Auditório do CCB.

 

Rodrigo Leão é o músico e maestro de um quarteto que os acompanha para todo o lado. E Scott Matthew é como fosse o jogador mágico que acrescenta valor e “elevada nota artística” a todas as músicas que dá voz. Num ambiente cinematográfico, este concerto ganha uma dimensão de gratidão. Gratidão pelo carinho do público, gratidão por quem os acompanhou na estrada e no palco, gratidão por quem os ouviu com o Life is Long.

Quem conhece Scott Matthew e Rodrigo Leão, sabe da carga emotiva e melancólica que se dá à volta das melodias e das letras que compõem os temas. Depois de uma entrada ao som de Enemies e The Child, que dão destaque a toda a banda, entra o Scott Matthew que nos agarra pelo colarinho e nos apresenta The Fallen e Nothing Wrong, temas que subtilmente tocam-nos nos sentimentos e emocionam um auditório que está praticamente lotado.

 

Acompanhados também pelo violino de Viviena Tupikova, há uma mística emocionante em todo o concerto. E mesmo na altura que Scott fica sozinho em palco, vemos que o concerto é digno de filme, até quando ouvimos, de forma mais melancólica, o I Wanna Dance With Somebody, da Whitney Houston, uma cover que já é um clássico nos concertos do australiano.

Conseguimos distinguir uma primeira parte de uma segunda quando a meio verifcamos uma actuação instrumental tocante da banda, em que quase dá vontade de dançar e se levantar das cadeiras. Uma toada mais latina e animada no concerto, antes de seguirmos para outra temáticas mais infeliz, mais triste, como é In The End e o Unnatural Disaster.

Claro que também há espaço para ouvirmos um dos temas que deu origem a toda esta ligação luso-australiana. Terrible Dawn, de 2011, foi a música que juntou os dois músicos e que deu a uma parceria que continuará para além de Life is Long.

E isso é patente que vai além do álbum, no encore, quando ouvimos, um instrumental do conjunto que provoca um estado de emoção coletiva e que se incluí depois o Abandoned, tema que suscitou muitos telemóveis ao alto, mas prontamente desligados por ordens da organização. Um tema que acabou por não fazer parte do Life is Long, mas que não deixa de ser efusivamente aplaudido.

 

Com tamanha apoteose nos aplausos, houve necessidade para um segundo encore. Desta feita, That’s Life, tocada por uma segunda vez no concerto, serviu para despedirmos de pé a um concerto que aqueceu corações, alma e sentimento de aproveitar a efemeridade da vida.

Texto – Carlos Sousa Vieira
Fotografia – João Rebelo