São 3693 os quilómetros que separam Lisboa do Deserto do Sahara. Todavia, esta distância quase como evaporou-se quando, na última terça-feira, Mdou Moctar trouxe consigo as sonoridades afrodisíacas das arábias a um MusicBox bem composto e sedento por um confronto multicultural.

Cantautor de Abalak, situado no deserto Azawakh, Mdou Moctar distingue-se dos demais músicos inseridos na cena Tuareg pela forma como desafia os limites do género, desenvolvendo um estilo pouco convencional que mistura o dito Tuareg com nuances de eletrónica e técnicas de takamba e assouf. No entanto, a chave do segredo de Mdou Moctar é a forma como este artista fundiu o cunho pessoal do seu estilo nos blues da sua sonoridade, criando uma faceta única dentro do rock.

Foi em prol de um registo mais orientado para o bluesrockTuareg que o concerto de Mdou Moctar se construiu, tendo apenas duas guitarras e uma bateria a servirem-lhe de pilar, talvez de forma a enquadrar-se no registo apresentado no seu mais recente disco, Sousoume Tamachek. A par de um guitarrista que tanto desempenhou o papel de um guitarrista de ritmo como de um baixista, assim como de um baterista a marcar o tempo de forma imperial, Mdou Moctar soltou uma tempestade de notas e de escalas capazes de enfeitiçar qualquer serpente que se cruzasse no seu caminho.

Apesar de ocupar uma posição enquanto artista ‘centro’, a verdade é que Mdou Moctar divide o estrelato com os seus dois comparsas, aliás, a magia na sonoridade de uma atuação do nigeriano reside mesmo na junção entre os três músicos, sendo a única maneira de se sentir como uma experiência fora do comum.

 

Deambulando pelos momentos mais introspetivos do seu último disco, mas não esquecendo os pontos mais fugazes da banda sonora, assinada pelo próprio, de Akounak Tedalat Taha Tazoughai, Mdou Moctar foi liderando um concerto com pompa e circunstância, nunca pecando a nível de intensidade ou entrega, suscitando a imersão em canções por parte do público através de alguns estados de transe ou até mesmo de dança, em momentos um pouco mais galopantes e enérgicos.

Ao longo de uma hora e picos de concerto, com encore incluído, Mdou Moctar poderia facilmente ter pintado o MusicBox com as cores de um deserto, desde um céu azul cristalino e um areal de perder o alcance. Todavia, após o término da noite, seria difícil de contra-argumentar que aquilo que Moctar criou fui o belo de um oásis, um destino paradisíaco que, naquela ocasião, tanto saciou a sede por canções contagiantes como comprovou que a música tem a possibilidade de unir diferentes povos e culturas.

 

Texto – Nuno Fernandes
Fotografia – João Rebelo