Foi a 21 de setembro de 2017, dia de aniversário de Leonard Cohen, que Mazgani, Miguel Guedes, David Fonseca, Jorge Palma, Márcia, Samuel Úria e respetiva banda de apoio, se reuniram pela primeira vez em palco para interpretar e homenagear a obra do compositor canadiano – não é ao acaso que a iniciativa tenha partido da Embaixada do Canadá –, num esgotadíssimo Olga Cadaval, tendo passado ainda por outros auditórios, sempre esgotados. Depois do sucesso dos espetáculos do ano passado, os seis cantores, todos eles fãs assumidos de Leonard Cohen, decidiram avançar para a marcação de mais datas, desta feita em salas emblemáticas como o Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Leonard Cohen faz parte, pelo menos para quem escreve estas linhas, daquele grupo de compositores em que as suas canções brilham mais quando cantadas por outros do que pelo próprio autor, fazendo também parte desse grupo Lou Reed ou Bob Dylan. Chegando ao ponto de muitas dessas músicas serem mais conhecidas por alguma, ou algumas, das suas versões do que propriamente pelos originais. Com Leonard Cohen também é isso que se passa, há canções de sua autoria que muitos julgam terem sido feitas por outros, revelando essas pessoas sempre alguma admiração ao saberem quem de facto as compôs.

O Coliseu dos Recreios não se apresentou, na noite desta quarta-feira, dia 14 de março, totalmente cheio para receber este espetáculo de homenagem a Leonard Cohen, mas encontrava-se muito bem composto – dois concertos naquela sala talvez tenha sido demasiado ambicioso – e os que lá marcaram presença eram pessoas que cresceram a ouvir as canções e as palavras do cantor – ou será poeta?! – desaparecido no fatídico ano de 2016, estando as suas idades todas elas integradas nos “entas”. Talvez também por isso, e por ser uma noite de celebração, as vestimentas usadas eram maioritariamente de gala. Com isto, fica-se a pensar do porquê dos temas intemporais de Leonard Cohen não chegarem às gerações mais novas, às tais que ainda não chegaram aos “entas”.

No palco, podíamos ver ao fundo o típico chapéu usado por Cohen em grandes dimensões, que depois passariam a ser muitos mais quando desceram do topo do palco uma série deles, mas estes em tamanho real. O concerto estava programa para arrancar às 21h30, mas por essa hora ainda eram muitos os que estavam a ser encaminhados aos seus respetivos lugares, e, talvez por isso, o arranque da cerimónia se tenha atrasado uns minutos.

Apagadas as luzes do Coliseu, entra em palco, antes de todos os outros, Pedro Vidal, guitarrista da banda de apoio e diretor musical do projeto, que se dirige a um gira discos para aí colocar a tocar “If It Be Your Will”, dando assim início a este espetáculo evocativo da memória de Leonard Cohen.

O primeiro cantor a entrar em cena foi Mazgani, arrancando assim com a lógica que perdurou até final, uma banda de apoio – Pedro Vidal (guitarra), João Correia (bateria), Nuno Lucas (baixo), João Cardoso (teclados) e Paulo Ramos e Orlanda Guilande (coros) – sempre presente e a dar suporte aos seis cantores, que se iam revessando em cima do palco. Depois de “If It Be Your Will”, Mazgani ataca “Take This Waltz”.

De seguida vem Miguel Guedes – vocalista dos Blind Zero – que se revela mais comunicativo para com o público. A sua interpretação de “Tower of Song” foi notável. Nesta altura, apercebemo-nos que cada um destes cantores – que aqui estão por serem bons naquilo que fazem, mas também por serem fãs de Leonard Cohen – tem o cuidado de contar a forma como teve contacto pela primeira vez com a música do canadiano. Também bastante notório desde o primeiro momento foi a qualidade dos seis intérpretes e da banda de apoio, revelando todos eles um enorme profissionalismo e um conhecimento aprofundado da obra do homenageado.

Entra David Fonseca, que conta algo que vai ao encontro do que foi referido atrás, a forma como chegou à obra de Leonard Cohen foi através de uma versão dos Pixies – banda que o músico de Leiria muito admira – para o tema “I Can’t Forget”, apresentando-o de seguida, mais ao estilo da versão da banda norte-americana do que do original.

Segue-se Samuel Úria, que do alto dos seus dois metros de altura interpreta “Everybody Knows” e “Lover, Lover, Lover”, tema que também chegou a muita gente por via de uma notável versão do inglês Ian McCulloch, vocalista dos Echo & the Bunnymen.

Márcia entra de seguida e, como previsto, entra também em cena algumas bandeiras mais de combate político e social. De imediato fez algo que, por esta altura, chamou a atenção de muita gente. Dos seis cantores, só um era mulher, mas Márcia tratou de lembrar que em palco também estava a Orlanda Guilande e que nos bastidores, e em toda a produção, estavam mais uma série de senhoras. Interpreta “In My Secret Life” e percebe-se imediatamente que Márcia não está habituada a cantar em inglês, transportando um pouco os temas para um universo mais do fado, o que também não deixa de ser interessante.

O último dos convidados a subir ao palco foi Jorge Palma, o mais velho deles todos e o que também incutiu uma vertente mais boémia e livre na interpretação dos temas. A sua voz rouca é única e por isso também aqui se tenha notado um certo pouco à vontade a cantar em inglês. Jorge Palma pela voz que tem e pela forma como interpreta as canções acaba por transportar para o seu mundo tudo em que toca, e aqui não foi exceção.

Depois de todos terem subido, à vez, ao palco, os seis cantores voltaram novamente para, sozinhos ou acompanhados, interpretarem mais alguns temas, que nesta segunda fase do espetáculo foram maioritariamente os mais conhecidos e populares de Leonard Cohen. Destaque para “Avalanche” na voz de Mazgani, sem dúvida uma das melhores e mais intensas interpretações da noite, “Dance Me to the End of Love”, nas vozes de Márcia e de Samuel Úria – que em dueto interagem um com outro na voz e não só, revelando um Úria algo atrapalhado nesse papel –, foi dos mais bem recebidos da noite pelo público, “Suzanne” e “I’m Your Man” por Miguel Guedes, que se revela sempre como sendo um tipo simpático, David Fonseca que interpreta maravilhosamente bem “Chelsea Hotel”, que muitos também conhecem pela voz de Lloyd Cole, e “Hallelujah”, que inevitavelmente associamos a Jeff Buckley, como o próprio David Fonseca fez questão de lembrar.Vem um encore, exigido com o típico bater dos pés no chão de madeira do Coliseu, e Jorge Palma apresenta os músicos que compõem a extraordinária, nunca é demais referir isso, banda de suporte, mas também os responsáveis pelas luzes, som, roadies e a road manager, que até fez anos nesse dia. Jorge Palma avança então para a interpretação de “So Long, Marianne”, seguido depois por todos os outros cantores que, um a um, vão entrando em cena e cantando uma parte da canção, acabando com todos em coro e em verdadeira apoteose, terminando assim da melhor forma esta noite de cerimónia e de gala.

No final, o público sai bem satisfeito com o que acabou de presenciar, algo que se constata pelas conversas que se vão ouvindo enquanto se sai do Coliseu. Acima de tudo, ficámos com a ideia de que em Portugal já se fazem produções musicais de grandíssima qualidade, tendo esta homenagem a Leonard Cohen sido, sem dúvida, uma das melhores alguma vez feita em todo o mundo, e devem ter sido muitas. Estamos todos de parabéns, principalmente a memória de Leonard Cohen.

 

Texto – João Catarino
Fotografia – Ana Pereira