Sarah McCoy no Teatro Ibérico

Quinta-feira, dia de 8 de Março, foi para quando ficou marcada a estreia da americana Sarah McCoy em território nacional. Ao entrar no pouco iluminado Teatro Ibérico, as pessoas escolhiam o lugar que lhes parecia mais indicado enquanto, em cima do palco, se encontrava visível um simples banco e um piano de cauda.

Com início marcado para as 21:30, não muito tempo depois a pouca iluminação diminuiu um pouco mais, e quando uma ligeira batida automática começou a soar, uma gargalhada histérica vinda da artista encheu a sala. Com um copo de vinho na mão e uma auréola iluminada em cima da cabeça, Sarah McCoy cumprimentou o público enquanto se sentava e admitia estar nervosa para o seu primeiro espetáculo em Portugal. Antes de começar a tocar retirou uma bota e mandou-a para trás de si porque, aparentemente, que não lhe dava jeito nenhum para pressionar o pedal do piano. Assim que começou a tocar a primeira música, e ao longo de todas as outras tocadas no concerto, o público era automaticamente transportado para um sítio mais escuro, não necessariamente triste ou deprimente, mas um sítio mais cru. Algures entre o blues e o soul, era como se a compositora e intérprete estivesse em palco a fazer um monólogo dramático. Entretanto retirou a outra bota, ficando portanto completamente descalça enquanto cantava e se acompanhava, com muita astúcia, com melodias ao piano.

Entre canções falou sempre com o público, com o qual estabeleceu uma óptima relação. Disse coisas sempre tão espontâneas e imprevisíveis que se tornavam ridículas, desde contar que tinha urgentemente de cortar as unhas dos pés, a confessar que tinha encontrado os brincos que estava a utilizar no lixo (e a perguntar-se em voz alta porque razão nos estava a contar os seus segredos mais profundos). Não houve uma pausa entre músicas em que não fizesse o público rir com o seu humor altamente auto-depreciativo. Talvez fosse de propósito, talvez não, mas a verdade é que fez um ótimo contraste com as suas músicas de carácter não tão feliz. Aliás, a própria cantora que não seguiu nenhum alinhamento, por duas vezes manteve-se em silêncio e depois justificou que estava a pensar em músicas não deprimentes para tocar.

A autora de “Beautiful Stranger” passou por temas como “Voodoo” e “I Ain’t Got No Friends” fazendo parecer, com a sua voz grave e cheia de soul, que cantar notas sustenidas não dava qualquer tipo de trabalho. A sua voz era tão potente, que apesar de o estar a utilizar, o microfone era completamente desnecessário. Isto provou-se no encore, quando Sarah pediu a ajuda do público para fazer um ritmo batendo com os pés no chão e com palmas, enquanto ela nos acompanhava, na ponta do palco, ao cantar à capela. Em seguida tocou mais duas músicas e começou a despedir-se do público, e este, satisfeito com o espectáculo, levantou-se para a aplaudir a talentosa artista. Honrada, Sarah McCoy levantou-se do seu banco, agradeceu, rebolou no chão e saiu do palco a dançar e a saltar, deixando o Teatro Ibérico com um ambiente feliz e divertido.

Fotografia – Ana Pereira
Texto – Luisa Pereira