Apesar de segunda à noite ser a noite grande de carnaval, poucas máscaras se viam a passear na zona do Cais do Sodré. No Musicbox aguardava-se pelos Moon Duo, um duo místico do psicadelismo com mais groove que por aí circula no éter. Com o concerto esgotado há mais de uma semana, era certo que a noite que ainda agora começava seria uma daquelas em que definitivamente vale a pena largar o sofá e sair em direcção à noite fria. De facto, perto da hora marcada o Music box encontrava-se já repleto, sendo mesmo um pouco difícil circular dentro da sala entre bar e grupos de amigos ao rubro.

Sanae Yamada e Ripley Jonhson chegavam a Lisboa para o quarto e último concerto de uma mini tour que percorreu o nosso território desde sexta-feira em Braga, sábado em Coimbra e uma inesperada matiné em Leiria no dia anterior.

Pouco minutos faltavam para as 23h quando o duo acompanhado em palco pelo baterista John Jeffrey, que os tem acompanhado nesta digressão, se deixou ver.

Chegaram com um set completamente cataclismico, como se estivessem determinados a levar-nos na mais perigosa e audaciosa viagem aos desertos de outros planetas.

Com um ritmo vertiginoso e sem muito espaço para respirar começaram por Death Set e Sleepwalker mostrando logo aí que nos iam levar longe e em passo rápido.
O olhar de Sanae escondido por detrás da sua franja raras vezes se conseguia ver, aliás todo o concerto se pautou pela dualidade luz/sombra acentuada pelas projeções no palco e todo o conjunto de luzes que inundavam a sala e fizeram com que muitos se aventurassem a captar o melhor possível toda aquela envolvência através dos telemóveis.

O público ondulou e sentiu toda a batida construída Sanae Yamada e John Jeffrey, densa e quente que se nos colou ao corpo desde o primeiro minuto. Esta base rítmica estável, assente na repetição é a tela ideal para todo o som produzido pela guitarra de Ripley Jonhson que ao contrário de Sanae que nos envolve e agarra à terra, nos leva em viagem sem destino traçado.

É realmente em palco que mais se sente a dicotomia cosmos/terra que os Moon Duo tão bem preconizam. A batida quente e pulsante de Sanae como se todos respirássemos no mesmo ritmo e a guitarra divergente de Ripley, capaz dos maiores sonhos e viagens cósmicas.

A face enigmática, quase esfíngica de Sanae, em aparente transe, de olhos fechados e lábios cerrados, enquanto ouvimos Night Beat, White Rose, Seer ou Sevens numa travessia pela maioria dos registos da banda, desaparece ao final de cada música e transforma-se num tímido sorriso, misto de surpresa e agradecimento. Ripley troca algumas palavras com o público mas o burburinho da casa cheia misturado com os sons que continuam enquanto a música cessa não nos deixam entender o que diz, nem sequer adivinhar, nada de preocupante nesta linguagem universal que é a música. Algures no concerto um agradecimento à equipa que os tem acompanhado na tour e a quem dedicam Night Beat. Saem de palco sob cerrados aplausos e assobios, toda a sala rejubila e pede mais. E tivémos mais. Para o encore ficaram as duas músicas mais recentes, versões de Suicide e The Stooges. No Fun protagonizou mesmo o momento mais entusiasta e participativo do público submerso desde o inicio numa escuridão cuidadosamente selecionada e medida para que, em cada momento da vertigem rítmica do Moon Duo em que ousássemos abrir os olhos, nos encontrássemos no sitio exacto onde deveríamos de estar. Novamente o público pede mais e a banda regressou ainda para mais uma música.

Toda a simplicidade com que se apresentam em palco contrasta com a sonoridade que debitam e a facilidade com que nos cativam. Uma química inexplicavél percorre a sala e é com alguma dificuldade que digo que não era bem isto que esperava. Mas a sensação de plenitude que fica no final deixa-me a pensar; Mas o que queria afinal? Talvez outras músicas, não faço ideia. Sei que algures pelo meio do concerto senti que toda a vertigem em que fui levada acelarava demasiado rápido e eu não quis embarcar nela. Na altura não percebi bem, mas sei agora que o que gostava era de não ter obrigações algumas no dia seguinte. Não interessa muito este desabafo, porque na verdade todos os minutos valeram a pena e com os Moon Duo tem sido assim desde a primeira vez!

 

Texto – Isabel Maria
Fotografia – Ana Pereira