A premonição era a de uma noite que iria dar como encerrado o ciclo de Vida Salgada, um ano e dez meses após o seu celebrado lançamento. Como as despedidas querem-se em ambiente festivo, foi precisamente dentro destes moldes que Filipe Sambado, os seus Acompanhantes de Luxo e Convidados disseram o adeus à promoção do primeiro disco do artista, um dos mais marcantes álbuns de estreia portugueses nos últimos tempos.

Primeiro com a sua trilogia de EPs e posteriormente com o disco Vida Salgada, Filipe Sambado veio a consolidar-se como um dos artistas mais promissores e acarinhados no actual panorama português, produzindo canções doces e melancólicas mas com o seu quê de irreverência, tornando cada um dos seus temas como se de um “capítulo” no quotidiano de um jovem-adulto se tratassem, com estes a facilmente se identificarem na música de Filipe Sambado; como tal, não foi espanto algum ter sido este o público que maioritariamente compôs um MusicBox bem lotado.

Para a ocasião, Filipe Sambado fez-se ouvir com o auxílio dos Acompanhantes de Luxo, o conjunto de amigos onde nomes bem conhecidos como Alexandre Rendeiro (Alec Rein) ou Manel Lourenço (Primeira Dama) figuravam o cartel, o que só aí neutralizava a ideia de que se trataria de uma simples banda de apoio. Aliás, logo no início do concerto, através de “Moda”, era notável a forma como a presença de banda conseguia fazer jus às melodias inocentemente contagiosas do disco, trespassando toda a doçura que Vida Salgada veio condimentar os nossos ouvidos ao longo de quase dois anos.

De unhas e olhos pintados, batom e um colar de pérolas (feito pelo próprio, confessara entre risos) a excentricidade de Filipe Sambado naquela noite era apenas equiparada à sua visível felicidade e contentamento por tocar com e para amigos: ao longo de uma hora e pouco de concerto, os sorrisos de Sambado foram uma constante, desencadeado tantos outros pela sala a dentro. Essa postura algo de traquina contagiava o público a juntar-se ao modo festivo do artista, cantando de forma algo efusiva os refrães de “Subo a Montanha” e “Aprender a Ensinar”, com Sambado a ceder o seu microfone a alguns membros da plateia nesta última.

Em noite de celebração a Vida Salgada, houve ainda tempo para homenagear alguns dos colaboradores na breve carreira de Filipe Sambado: Luís Severo, Cecília Henriques, Teresa Castro, Manel Lourenço e Maria Madalena todos tiverem a oportunidade de tocar/cantar um tema a solo com Sambado, com destaque para os dois últimos com as suas emotivas interpretações de “Tanga” e “Gosto Tanto de Te Ver”, respectivamente, resgatando-se assim alguns dos temas mais fortes do EP Ups… Fiz Isto Outra Vez.

Logo após o segmento honorário para aqueles que colaboraram pelas obras de Sambado, e acrescentando Cecília e Maria nos Acompanhantes de Luxo enquanto coro, o lado mais sentimentalista da noite daria origem ao mais irreverente e efusivo, num trajecto ascendente implementada por “Tou Confuso” e “Garrafa” e sem mostrar quaisquer vestígios que iria abrandar, ou não estivesse a satisfação do público do MusicBox ao rubro.

Como ditam as regras da tradição, o momento final da noite ficaria marcado pelos dois temas mais sonantes da carreira de Filipe Sambado e que, certamente, introduziram a obra do músico a muitos dos que ali se reuniam: “Tabaco” e “Vida Salgada”, num mash-up que tanto teve bonito como de simbólico, dando encerrado o concerto com chave-de-ouro. Todavia, e a pedido de muitas famílias, a noite não seria dada como terminada por ali, com o previsível encore a acontecer ao som de… “Ass Ambado”, o mais recente tema de Filipe Sambado onde o próprio deixa tudo a nu (literalmente) no vídeo da canção e, lá está, repetiria a dose em palco, para loucura do público que tentou captar o infame momento com os seus telemóveis.

Em “Já Não Vou Sair Daqui”, tema término de Vida Salgada, Filipe Sambado termina o disco dizendo que “já não vou sair daqui a bem”. Esperemos mesmo que não o faça pois, depois de um disco de estreia tão acarinhado, como se provou na última quinta-feira, e a promessa de um segundo no horizonte, não o vamos querer fora das nossas vidas tão cedo, sempre com um sorriso de saudade na espera; afinal, “se não for com alegria, é melhor que não seja”.

 

Texto – Nuno Fernandes
Fotografia – Nuno Cruz