Em 2007 os Sean Riley & The Slowriders lançavam Farewell, o seu álbum de estreia. Para comemorar 10 anos sobre tão importante efeméride, a banda decidiu reeditá-lo – por via de um CD com alguns extras e a edição pela primeira vez em vinil – e avançar com a realização de uma tour pelo país, onde tocaram o álbum na íntegra. Em Lisboa, coube à ZDB, que a banda tão bem conhece, recebê-los de braço abertos e aquilo que esteve para se resumir a uma única noite, acabou por passar a duas, tanta foi a procura. Duas noites totalmente esgotadas para festejar o início da aventura de uma das bandas portuguesas mais relevantes desta década.

Os Sean Riley & The Slowriders viveram sempre muito daquelas que são as características, vocais e interpretativas, do seu vocalista, Sean Riley – pseudónimo de Afonso Rodrigues. É em seu redor que tudo o resto gira, é para ele que os instrumentos trabalham. E isto carateriza a banda desde o seu primeiro trabalho. A forma como os temas são cantados e interpretados revela um Sean Riley carismático e talentoso desde o início do projeto. Também são bem visíveis aquelas que eram, e são, as suas influências – Lloyd Cole, Lou Reed, Bob Dylan, etc. – fazendo com que o disco de estreia fosse mais um aglomerado de todas elas do que propriamente um corpo já independente e com vida própria. Só mais tarde a banda conseguiu avançar para uma identidade só sua em termos musicais, mas sempre com a voz de Afonso Rodrigues a determinar o rumo e a ditar as regras.

Na primeira de duas noites na casa de espetáculos do Bairro Alto, a sala encontra-se cheia e bem quente, apesar do frio no exterior, com pessoas vindas de diferentes gerações, desde jovens que cresceram a ouvir os Sean Riley & The Slowriders a outros que já não são tão jovens e que por isso já descobriram a banda numa fase mais adiantada da sua vida. Antes do início do concerto, que aconteceu um pouco depois das 22h, podíamos visualizar na parede que serve de fundo de palco o nome da banda projetado, substituído depois, com o arranque do espetáculo, pelo título do disco que agora comemora 10 primaveras musicais.

Afonso Rodrigues/Sean Riley (voz e guitarra), Nuno Filipe (baixo), Filipe Costa (órgão, piano, bateria, harmónica e voz) e Filipe Rocha (bateria, guitarra e voz) sobem ao palco e atiram-se de cabeça a Farewell, tocando-o na integra. Todos eles revelam-se competentes naquilo que fazem, mas é Sean Riley quem mais brilha. A sua voz é de tal forma única e poderosa que qualquer música cantada pelas suas cordas vocais transforma-se em ouro. É ela que faz deste projeto algo de muito especial e diferente de outros. E se a voz é fabulosa, também o sentido de humor do vocalista salta à vista durante a atuação, comunicando com o público, e dialogando com uma das fotógrafas presentes, de uma forma surpreendente e original, ao contrário daquelas “frases feitas” utilizadas por muitos dos seus pares. Não deixa também de ser revelador e de destacar o facto de Sean Riley tocar na sua guitarra, a única em grande parte das canções, aquilo que se podem definir como sendo acordes básicos, mas também nunca ninguém disse que é preciso muita técnica de guitarra para se fazerem grandes canções. Os seus companheiros acrescentam alguma sofisticação musical – nomeadamente Filipe Costa que por diversas vezes tocou órgão com uma mão e um instrumento de precursão com a outra –, mas é sempre a voz de Sean Riley a comandar o barco.

O concerto é preenchido até à chegada do encore pelas onze canções originais do álbum de estreia, fase durante a qual o público se manteve relativamente discreto, mas sempre atento ao que se passava em palco. A última foi “Spider’s blues”, sobre a qual Sean Riley referiu que foi feita já na ponta final da gravação de Farewell, estando já só ele e Filipe Costa em estúdio. Bruno Simões, baixista da banda até ao seu falecimento em 2016, não foi diretamente recordado pela banda, mas todos acreditam que estaria presente nos pensamentos dos quatro membros dos Sean Riley & The Slowriders.

Vem o encore e com ele a interpretação de “Bring your boy home”, tema que não consta na edição original de 2007, mas que faz parte da reedição agora lançada, e, como referiu Sean Riley, um “menu de degustação”, constituído por uma canção de cada um dos três álbuns seguintes lançados pela banda, que ajudaram à dar consistência à ideia referida atrás de que este projeto foi conquistando uma sonoridade própria. O concerto termina com a extraordinária e poderosa “Dili”, do álbum homónimo editado em 2016, na qual Sean Riley se deixa levar de tal forma que até parte uma das cordas da sua Telecaster.

A saída em palco dá-se ao som de “Because The Night” de Patti Smith, muito bem recebido pelo público, que acompanha em voz alta a senhora no refrão do tema.

Noite de consagração para os Sean Riley & The Slowriders, que, no fundo, encontraram na reedição de Farewell uma forma, também ela original, de comemorar 10 anos de carreira.

 

Texto – João Catarino
Fotografia – Ana Pereira