Dia 30: Silêncio, que se vai ouvir Lavoisier!

Em véspera de dia de eleições autárquicas, fez-se Silêncio na sala do MusicBox para se ouvir e sentir os Lavoisier. No meio de fumo denso, Patrícia Relvas e Roberto Afonso subiram ao palco para nos invadirem de mais de uma hora de emoções inscritas no “É Teu”, o seu último trabalho discográfico.

Performance artística, de movimentos precisos e desprovidos de métricas convencionais. Sincronização rítmica, na voz aguda da Patrícia e nos acordes oxigenados da guitarra eléctrica do Roberto. Movimentos do corpo que vão transpirando sentimentos arrancados das vísceras, porque é delas que sai a verdade.

As poderosas canções de “É Teu” deambularam na sala e projectaram pequenas farpas fluorescentes, provocando um formigueiro na nossa espinha dorsal. Um alinhamento meticulosamente escolhido, em que o tema “Viajar” nos projectou para uma noite de elevações de alma. A expressividade destemida de Patrícia rasgou a rima poética de Fernando Pessoa e José Afonso. Força humana de “Eu não me entendo” ou de “Estátua”, onde o eco da voz de Patrícia se prolonga na do Roberto. Esta é uma das particularidades mais incríveis nesta dupla, um agudo feminino que se projecta num grave masculino, numa sincronização perfeita de compasso. “Fauna”, “Laranja” e “Opinião” primeiro single do CD “É Teu”, seguiram nas tacadas certeiras dos decibéis alinhados. Uma extraordinária versão quase poética da musica tradicional “Vira”, e com laivos tropicalistas o tema “Obrigado” com a função de agradecimento numa noite que estava a fazer as delícias de todos.

A ovação efusiva do público no final de cada tema, e o silêncio perturbador durante a actuação, foram uma evidência da performance dos Lavoisier nesta noite. E quando julgávamos que com dois se faria a noite, o magnifico compositor José Valente entra em palco e solta o beijo ao violino. Loops integrados na escala chorosa das finas cordas, dissipados na presença envolvente de José Valente. Um momento grandioso que nos deixou ainda mais extasiados.

Seguido de “Romance do Cego” “Sou Povo”, uma das canções mais poderosas do CD e que ao vivo se torna numa espécie de hino dos Lavoisier. A fúria, raiva, angústia e amor expressados nas cordas vocais em uníssono e que sobem um tom em cada “Povo”, como antecipação de fecho de noite. Mas ainda fomos presenteados com um (segundo) encore, com o tema de Zeca Afonso “Senhora do Almortão”. Os Lavoisier encheram o Musicbox, provocaram vibrações no nosso respirar e encantaram o Silêncio neste Festival. Uma noite de emoções fortes.

Horas antes deste momento, houve ainda tempo para Bruno Pernadas no Jardim D.Luis junto ao mercado da Ribeira, mas nada sobrepôs o que assistimos no Musicbox Lisboa.

Texto – Carla Sancho
Fotografia – Ana Pereira
Evento – Festival Silêncio 2017