É sábado à noite, as ruas do Bairro Alto encontram-se cheias de gente, Lisboa até parece que se esqueceu que está à beira de umas eleições autárquicas. As coisas seguem o seu ritmo normal, como se nada se passasse. O mesmo acontece na Galeria Zé dos Bois, que acolhe uma noite dedicada à electro-pop, tendo como cabeça de cartaz a americana Ramona Gonzalez, mais conhecida como Nite Jewel, e os portugueses Veer na primeira parte.

Nite Jewel segue uma linha idêntica à de outras estrelas pop, como sejam Ariel Pink, Tracey Thorn ou Julia Holter, reinando no seu trabalho uma certa nostalgia de alguma da música feita nos anos 80 e 90. O que a trouxe desta vez a Lisboa foi o disco Real High, lançado este ano e que sucedeu a Liquid Cool de 2016.

Mas comecemos pelo início. Vera Vaz e João Farmhouse formam os Veer, dupla a quem coube a sempre complicada missão de preparar os presentes para o momento que os levou até lá. Enfim, é isto que se costuma dizer das primeiras partes, mas nem sempre as coisas são bem assim e desta vez percebeu-se que muitos dos que lá estavam eram amigos ou conhecidos dos dois membros do projeto.

Os Veer são duas vozes – com muito eco à mistura –, um teclado e uma guitarra – e respetivos efeitos – e são também uma banda que revela alguma inexperiência, natural, na sua atitude em cima do palco. Este era um excelente momento – a ZDB é já há muito uma sala de culto e as condições que disponibiliza são de grande qualidade – para se afirmarem e mostrarem o que têm de diferente dos muitos outros projetos idênticos que por aí existem. A verdade é que isso não se concretizou na totalidade, faltando-lhes alguma objectividade e tendo Vera Vaz perdido demasiado tempo com agradecimentos e na tentativa de passar ao máximo a ideia de que aquela noite era especial para eles, resultando assim em várias quebras de ritmo, com intervalos entre as músicas maiores do que o desejado. Nós compreendemos isso, são muitos os que desejam ali atuar, mas faltou que aqueles 45 minutos também fossem especiais para o público, o que não aconteceu de todo. Situação agravada pela necessidade de Vera Vaz em traduzir tudo o que dizia para inglês, tantos eram os presentes a falarem noutras línguas. No entanto, não deixa de ser importante realçar que os Veer só este mês é que vão gravar o seu primeiro EP. A aventura ainda está agora a começar.

Vem um pequeno intervalo e com ele a vontade de ir até ao pátio exterior saborear o ar fresco da noite de Lisboa. Ainda estava quase toda a gente do lado de fora quando se começam a ouvir os primeiros sons da atuação de Nite Jewel, fazendo com que o seu início fosse algo frio.

Ao contrário dos Veer, a californiana já anda há mais tempo nisto, sendo notório o à-vontade com que está em palco. O concerto corre de rajada, as interrupções entre as músicas são curtas – a absorver pela dupla portuguesa –, encontrando-se nesta altura muito bem rodado e entrosado pela dupla. Atrás deles, são projetadas imagens que ajudam a dar cor, ou determinadas cores, ao espetáculo. Nite Jewel está com um vestido que deixa bem à mostra toda a sua sensualidade. O público, que quase enchia a sala de espetáculos da ZDB, vai aos poucos aderindo aos ritmos saídos das colunas e no final exige um encore, que foi devidamente correspondido.

Sem ter sido memorável, Nite Jewel demonstrou que está em excelente forma e que já sabe muito bem o que fazer quando sobe a um palco. Talvez tenham faltado uns certos salpicos de espontaneidade, que dessem um toque mais humano e que ajudassem a tornar a noite mais especial. Soou um pouco a piloto automático, mesmo que este tenha funcionado na perfeição.

Texto – João Catarino
Fotografia – Marta Louro
Promotor – Galeria Zé dos Bois