Saudações do Japão! Se este texto vos chega com algum tempo de atraso, tal se deve ao jetlag, mas não podia ter havido melhor despedida de Portugal do que o concerto dos Mastodon. Não os via desde que vieram ao NOS Alive, em 2009, e tinha realmente saudades do poder transformador deles.

A abrir a noite estiveram os Black Peaks, banda de rock progressivo proveniente de Brighton, Inglaterra. Composta por baixista, guitarrista, baterista e vocalista, confesso que não conhecia a sua música, mas foi uma agradável surpresa. O disco de estreia, Statues, saiu em 2016 e pudemos assistir à performance de seis temas do mesmo. A banda entrou em palco com uma energia muito boa, criando logo grande empatia. Gostei bastante da sonoridade que apresentaram, por vezes mais agressiva, outras vezes mais melódica, mas sempre muito intensa. Pude constatar que havia público bastante aficionado, fazendo com que a ligação crescesse ao longo do concerto. Também os Black Peaks se mostraram deliciados com o público português e a sua receptividade. Tiveram o poder de desafia-lo para um mosh bem precoce e ninguém se fez de rogado. O circulo abria-se e prometia não se fechar com frequência. Estava aberto o precedente.

E eis que chegam os protagonistas da noite, que não pisavam palcos portugueses há cinco anos. O pretexto desta vinda a Lisboa é o lançamento do disco Emperor of Sand, o sétimo da banda, quinze anos depois do primeiro disco, Remission. A Sala Tejo fez-se ouvir nas suas aclamações e a banda não desiludiu. O alinhamento foi o que tem frequentemente apresentado. Começaram com quatro músicas de rajada, “Sultan’s Curse”, “Divinations”, “The Wolf Is Loose”, “Crystal Skull” para depois cumprimentarem os fãs já completamente em delírio.

O que sempre me fascinou nesta banda é a sua dinâmica. Todos têm um papel tão visceral em palco que a cada música parece que somos atingidos por uma nova onda de arrebatamento. Existe uma espécie de libertação, de rendição e até de redenção à medida que o concerto se desenrola. É verdade que o público português é dos melhores, mas também é muito gratificante sentir que a banda nos reconhece e se sente rendida à nossa força. Não houve contenção, nem da banda nem do público e os moshes seguiam-se uns aos outros, as letras eram entoadas de forma tão veemente e sonora que por vezes era o público que assumia essa parte.

Em termos de execução, todos são excepcionalmente bons. Há uns tempos li que eles admitiram que a parte vocal era a mais fraca da banda, sendo que todos participam como vocalistas ao longo do concerto, mas a verdade é que conseguem conjugar perfeitamente as diferentes vozes, com os diferentes tons, em cada uma das composições. O resultado está à vista de todos e testemunhou-se de forma magistral na Sala Tejo. Foi um dos melhores concertos de metal a que já fui e só pude ficar contente quando Brann Dailor, o baterista, prometeu que voltariam a Portugal e muito brevemente.

Não é de admirar que encontremos Mastodon em listas como uma das bandas de heavy metal que nunca lançou um mau disco, mas os concertos ainda vão para além do que se ouve em casa. E só quem assiste a um pode testemunhar o turbilhão de emoções que se consegue sentir. Confesso que o meu disco preferido é o Crack the Skye, talvez pela história que carrega consigo, e tenho pena que só tenham tocado duas músicas do mesmo, mas não faltou delírio generalizado em temas como Ember City e Megalodon (com um dos moshes mais poderosos da noite). O concerto terminou com um encore exigido, mas também previsível, pelo público, com Blood and Thunder, outro tema que não poupou ninguém a um êxtase que partia dos pulmões para cada extremidade do corpo. O concerto estava feito e os Mastodon mostraram o porquê de serem considerados por muito uma das melhores bandas de heavy metal dos nossos tempos e para lá deles.

 

Texto – Sofia Teixeira
Fotografia – Daniel Jesus
Promotor – Prime Artists