Os Blaze & The Stars apresentaram na passada quinta-feira à noite, no Popular Alvalade, o seu mais recente registo o EP Terribo la Terribline lançado em Fevereiro deste ano.

Acompanhados de Alek Rein, Flak e António Ramos construíram um concerto bem delineado oferecendo aos presentes uma agradável surpresa que se apoderou de nós e nos deu a entender que muito embora estes rapazes transportem consigo já a maturidade, através dessa mesma maturidade produzem algo fresco e inusitado.

Munidos de um som quente como o blues mas ao mesmo tempo ácido como algum psicadelismo, ou por vezes perto de uma certa toada pós punk trouxeram até ao Popular um espetáculo narrativo deveras singular.

O arranque com Blues on the Box, primeira faixa do EP que apresentam, para nos ensinar o caminho, e criar um ambiente para logo de seguida nos lançarem Pull my Daisy e assim a mostrar duas faixas carregadas de uma panóplia de sentimentos, misturando a intemporalidade de um quase spoken word onde imperativamente clamam “Play your guittar boy”, em oposição a “Pull my Daisy” que nos inicia na acidez deste blues salpicado gentilmente pelo saxofone de António Santos que graciosamente e eleva a sonoridade construída dos Blaze & the Stars, emprestando-lhe uma sensualidade muito própria e um corpo sonoro mais preenchido, quase palpável. Daí levam-nos até a uma desconstrução de Portland Town do músico folk Derrol Adams à qual deram uma roupagem mais estridente e ácida.

Bali’hai e El desierto de los Ninos com a aplaudida participação de Alek Rein resulta como se estivéssemos perante a banda sonora de uma cavalgada pelos desertos ilustrada pelos elementos em palco, Fernando Ramalho e João Zagalo,Flack e Alek Rein alinhados como que a desafiar quem deles possa duvidar. Por vezes o baixo de Gonçalo Zagalo impõe o ritmo, outras vezes é Rui Lucena que o faz. Nada é estanque e os papéis vão se trocando à medida do que pretendem apresentar. 

Não existem dúvidas. O ecletismo da banda transcende a barreira da linguagem, pois na verdade conseguem transportar-nos a alguns universos sonoros que nos são de certa forma familiares ou que nos remetem para alguns lugares das nossas vivências. Em inglês, francês, ou espanhol constroem nos seus concertos uma musicalidade que contém resquícios de manifesto, interpretando poemas de Langston Hughes, Henri Michaux, Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Neal Cassady,  James Joyce, entre outros. Do princípio ao fim conduziram-nos pelos meandros poéticos que os cativam e cativaram-nos com as suas interpretações, prendendo a atenção dos que tiveram o privilégio de assistir.

Quase a finalizar “Blues For Sister Sally” do poema de Lenore Kandel, que nos traz essa vontade de querer algo mais que fazer músicas orelhudas, mas sim fazer músicas que mexem com os nossos vários sentidos e que permanecem a ecoar em nós até fazerem sentido… “god is a junkie and he has sold salvation for a week’s supply” gritou-nos Fernando Ramalho. O eco permanence.

Texto – Isabel Maria
Fotografia – Ana Pereira