A sala do Musicbox recebeu, há alguns dias atrás, um concerto que será certamente recordado com especial carinho por aqueles que tiveram o prazer de assistir.

Afinal não é todos os dias que temos à nossa frente os Silver Apples de Simeon Coxe III nascido em 1938, e que é actualmente o único membro daquele que era originalmente um duo, pois o baterista Danny Taylor já nos deixou há cerca de 12 anos. Assim, tivemos o privilégio de ver actuar ao vivo e bem de perto um dos músicos que mais influenciou a música ocidental.

Tocou para cerca de uma centena de pessoas, numa viagem a um mundo que já não existe ou que pode apenas ter existido na sua visão da música, materializada em dois álbuns editados no final dos nos 60 e outros dois após um hiato de cerca de três décadas, hiato esse que não modificou a visão de ambos e que continua a ser a visão de Simeon. Pela terceira vez em Portugal, Silver Apples vieram apresentar o álbum editado em 2016, Clinging to a Dream, onde Simeon continuou a viagem iniciada há quase 50 anos sem que se tenha sentido qualquer desvio da estética original. Simeon Coxe continua a deslumbrar, seja na viagem em que nos leva até às primeiras músicas dos Silver Apples, seja com as músicas que figuram em Clinging to a Dream.

É com uma impressionante candura que antes de começar a tocar lança para a plateia um sorridente “Escuse me whille i kiss the sky”, para logo de seguida nos trazer ” Walkin’” e “I Don’t Care What the People Say” que possivelmente reflectem um pouco o que Simeon e Danny terão dado como resposta a todos os que os haviam criticado pelo caminho criativo pelo qual enveredaram, muito virado para o experimentalismo e sobretudo pelo uso de instrumentos pouco habituais tais como aquele ao qual Simeon acabaria mesmo por emprestar o seu nome.

Pudemos também ouvir “The Owl”, “Dust” e “You and I”, músicas de uma generosa complexidade sonora tocadas agora a duas mãos apenas, embora a presença de Danny Taylor perdure através das baterias sampladas que Simeon continua a usar. Apesar de ser notório algum esforço por parte de Simeon para cantar e manipular toda a parafernália de instrumentos que utiliza, a magia permanece quase intocada.

Houve ainda tempo para “Oscillations” e do mais recente registo “Missin you” e “The Edge of Wonder”. Um momento memorável para ser sentido em plenitude e sem preconceitos, para que se nos revele a magia que Simeon conduz e desafia ainda hoje muita gente a expandir os seus horizontes musicais.

 

Os portugueses Gala Drop entraram bem em palco, agarrando o público que já se encontrava em maior número. Cativaram por trazerem uma sonoridade mais exótica e preenchida, que ao mesmo tempo poderia ser evocativa de algumas viagens a lugares distantes. Um concerto que fez dançar boa parte do público mas que ao cabo de meia hora não nos trazia nada de novo ou surpreendente a nível da actuação da banda. Apesar de produzirem um som bastante dançável, a pouca interacção com o público levou a que o mesmo se desligasse um pouco do concerto, apesar de continuar imerso nele e continuasse a noite como se a banda estivesse ausente em alguns momentos.

 

Os Ghost Hunt protagonizaram o último concerto da noite para uma plateia que se revelou atenta e receptiva. Uma actuação que foi crescendo à medida que o concerto foi avançando e o som encorpado e denso se foi estendendo a toda a sala. Caracterizados pelo baixo pulsado de Pedro Chau, que navega solto por vários quadrantes cósmicos e por vezes obscuros, assente na parceria com Pedro Oliveira remetem-nos para a descolagem de um qualquer vaivém espacial à descoberta dos confins do universo. Uma viagem num registo de confirmação em que se vê e sente a capacidade de produzir sonoridades cósmicas bem delineadas numa construção fina e suave nas suas variações mas ao mesmo tempo dura e áspera nas suas convicções e que não dá descanso aos corpos que ondulam no ritmo.

 

Contas feitas ao final da noite contabilizam-se três concertos com alguns pontos em comum, mas suscitando cada um deles impressões e sensações diferentes, ora dando lugar a momentos mais evocativos ou contemplativos ora dando aos corpos novos mundos para dançar num momento em que o passado o presente e o futuro se parecem ter fundido numa demanda cósmica.

Texto – Isabel Maria
Fotografia – Daniel Jesus